Considerações sobre um debate eleitoral: Lula, Serra e a TV Globo

Virgínia Fontes
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




O debate entre os candidatos José Serra e Lula foi entristecedor. Vale explorar as razões de tal impressão, pois creio remeter a questões bastante profundas dos caminhos e descaminhos de nossos processos políticos contemporâneos.
O formato escolhido, uma arena circular e gélida, em cor azul, daria o tom ao longo de todo o tempo. Apresentações podem ser formatadas de várias maneiras e, caso estejamos realmente querendo ver e ouvir cada um dos debatedores, ela pode ser constituída em semicírculo. Já bem sabiam disso os gregos, ao fazerem seus anfiteatros. Ficaram, portanto, os presidenciáveis a girar em círculos, um ao redor do outro. Se o que se quis foi dar uma sensação de arena, local de combate de posições, não o conseguiram. Conseguiram mostrar dois homens fragilizados num tablado aparentemente sem diretiva e que não auxiliava a definir posição, exceto aquela que pairava como se fosse ordem natural, dos “desenhistas” de um cenário frio. As câmaras, postadas acima, os reduziam ainda mais a uma espécie de caricatura, quando os enquadravam de corpo inteiro, à distância.
Não é preciso ser especialista em cenário ou em semiótica para ver que quiseram mostrar algo sofisticado, algo como o famoso “padrão global”. Esta sofisticação, entretanto, se reduzia a uma aparência, incapaz de ser sequer elegante. A elegância reside em fazer simples e direto, procurando a correlação entre função e objetivo, e este se queria, supõe-se, pedagógico. Ora, responder a alguém da platéia implicava estar de costas para a outra metade do público, o próprio cenário definindo uma antipedagogia. Responder ao entrevistador significava deixar de lado o público. Não estou supondo que isso tenha sido feito de propósito. Não o creio. Lastimo que o hábito de pensar pedagogicamente se tenha perdido e que, no afã de buscar soluções visuais de impacto, se perca a relação social mais rica e promissora, e se encontre apenas o vácuo. Lastimo que o conhecimento, que deveria lastrear os formuladores de cenário, se reduza hoje a uma aparência…
Entretanto, não se trata apenas de um ornato de fachada, há algo mais profundo sob ela - fez-se uma adequação visual de uma efetiva arena romana, o circo. No mundo romano, os soldados estavam postados para impor a luta entre os gladiadores. O cenário montado na TV repetia o mesmo constrangimento, mas sob o império de um poder ausente e impessoal, que os impelia a isso. O circo agora oculta sua estratégia e seu poder sob as cores e luzes de um cenário sem humanidade.
Em seguida, a estratégia do debate. Aqui, a coisa se torna ainda mais séria. Prosseguimos na direção de uma analfabetização política do eleitorado!!! Um debate entre presidenciáveis supõe a exposição das mais amplas e variadas diretrizes sociopolíticas, aquelas que, por se constituírem numa visão de mundo, permitem aos eleitores e à sociedade identificarem as possibilidades de concretização de políticas e não a exposição de promessas pontuais, as quais sabemos todos que não correspondem à vida real. Não havia tempo para isso, gasto nos comerciais.
O padrão escolhido foi o de perguntas-“dropes”. O que significa isso? Pastilhas de informações, não sintetizadas mas encolhidas, sem argumentação e sem contextualização, nos foram oferecidas, em dois minutos de respostas e 1 minuto de réplicas e tréplicas. A televisão, quando poderia expor e educar, propôs, mais uma vez, a redução e o empobrecimento. Isso significa que, da mesma forma que uma parcela da imprensa escrita, considera-se o eleitorado como se fosse incapaz de pensar e refletir por si mesmo e, portanto, incapaz de ouvir um argumento completo, uma exposição política consistente, uma verdadeira defesa de um projeto social. Tal qual as revistas ditas “populares”, supõe-se que a população não quer ler, não quer acompanhar o raciocínio, que fica, assim, reservado àqueles que não são “populares”.
Aqui, sim, o conjunto proposto mostra toda a sua gravidade, pois essa é uma verdadeira analfabetização política. Ela vem se exercendo de forma regular e insidiosa através da imprensa e da mídia em geral, que crescentemente adota a fórmula banalizante do marketing. Para este, quanto menos o consumidor pensar, melhor será para a venda do produto. Uma frase de efeito ou uma imagem de impacto vendem mais do que uma reflexão consistente, isso todos sabemos. Mas o que queremos num suposto debate político? Vender candidatos? Ou construir um futuro de participação política onde projetos de futuro se defrontem, onde seu conhecimento se socialize por todos os meios e mídias possíveis?
Por que uma analfabetização do eleitorado? Há algum tempo estamos todos sendo analfabetizados através dos meios impressos, através do mesmo processo de eliminação dos argumentos sob a exposição de pequenos títulos. Economiza-se, assim, o tempo do pensamento. Se essa analfabetização cultural é dolorosa, quando se trata de opções políticas da seriedade que essas eleições implicam, a situação é mais dramática. Dropes não são capazes de expor os horizontes que cada candidato precisa descortinar; dropes não levam em consideração as bases sociais de cada candidato; dropes ocultam com quem e para quem cada candidato deverá obrigatoriamente contar, para realizar seu governo. Dropes obscurecem, sob uma falsa suposição de sapiência e especialização, o mais fundamental dessa disputa: o rumo geral da política a seguir, os alvos prioritários de cada governo, suas bases sociais de sustentação.
Chegamos, enfim, a um ponto positivo do debate: tais pastilhas de perguntas foram realizadas pelo público. Novidade importante e valiosa. A seleção do público, entretanto, por sua suposta “neutralidade” ou “indecisão”, não faz nenhum sentido. Não havia rigor estatístico, pois as intenções de votos não estavam majoritariamente pendendo para a indecisão nem os resultados eleitorais do primeiro turno - o que é mais consistente, metodologicamente - apontavam nesse sentido. Não havia sistematicidade científica, pois a não representatividade do público frente aos resultados do primeiro turno reduzia a acuidade das questões e, portanto, do conjunto do debate. Não havia, mais uma vez, clareza pedagógica, pois, se o que se queria era esclarecer posições através do embate entre os candidatos, o teor das perguntas deveria ser mais “mordaz” do que simplesmente fruto de uma indecisão.
Os indecisos deveriam estar representados, evidentemente. Mas numa certa proporção, e não como “modelo” do público, o que é evidentemente um falseamento da situação real. Falseamento, inclusive, das questões candentes - juntamente com seus pressupostos, e não apenas lastreadas numa suposta indecisão - que afligem o conjunto de nossa população, tanto se considerada de forma isolada, quanto, sobretudo, quando pensada em termos de suas formas organizativas. Estas, aliás, desapareceram das perguntas, como se os lobbies e os movimentos sociais, cujo peso é profundamente desigual no cenário político brasileiro, inexistissem. Falar de classes sociais já seria exigir demais de um formato como esse, sem dúvida. Assim, sequer mencionarei o assunto.
Um cenário como o que foi desenhado e uma estratégia de perguntas tal como a apresentada teriam tudo para favorecer aqueles com um certo tipo de prática de sala de aula. Raciocínio direto e curto, tempo contado, especialização ao invés de reflexão mais ampla e suposição de uma suposta objetividade imediata em detrimento da complexidade das relações sociais. Professores talhados para “treinar”, em moldes de transferência de módulos e conteúdos recortados, e não para pensar em conjunto com a turma. Estratégia mais contábil (relação tempo/benefício) do que de exposição clara e esclarecedora das questões cruciais que atravessam o conhecimento de cada tema tratado e que, no nosso caso, atravessaram dramaticamente essas eleições.
Vale lembrar algumas dessas questões: o papel das grandes massas populares ao longo da história brasileira; o debate sobre a opção feita nos últimos anos por uma globalização acrítica, onde uma proposta de “complementaridade” ou “interdependência” esqueceu-se da assimetria de poder no plano internacional (ou do imperialismo, para usar termos mais claros); a questão da redução da dimensão pública no âmbito do Estado brasileiro, onde cada pequena conquista histórica dos trabalhadores brasileiros foi impiedosamente destroçada em nome de pretensas virtudes mercantis; o horizonte sob o qual nossas vidas deve dirigir-se, se humanidade ou mercado. Em suma, questões que são fundamentais… de fato.
Não é escopo desse texto analisar a performance de cada candidato. Apenas para não passar em branco: se o cenário favorecia o perfil professoral de José Serra, este dele tanto abusou que conseguiu mostrar, pela caricatura, o quanto, tanto o formato quanto ele próprio, se centram no egocentrismo como ponto de partida e de chegada da política. Ele parecia tudo haver decidido, suposto, feito e realizado. O que ainda estava querendo fazer ali? Se havia tudo antecipado, tudo realizado, tudo adivinhado, deveria já ter resolvido o problema de sua própria eleição…
Dada a sua qualificação “doutoral”, esperava-se que fosse capaz de ir além das repetições óbvias.
Quanto a Lula, apesar de estar mais à vontade, isto é, de não estar ainda totalmente impregnado dessa falsa pedagogia - e foi estimulante vê-lo mencionar, exatamente, Paulo Freire -, parecia querer demonstrar que poderia “aprender” a se ajustar àquele formato proposto. Não é isso o que precisamos! Isso já temos até mesmo em excesso.
O negociador que precisamos não é o que sabe ajustar o “pacto” entre forças desiguais. Este seria apenas um árbitro neutro (se isso fosse possível!) entre relações sociais profundamente desiguais, como as que imperam em nossa sociedade. A importância de Lula é sua significação histórica (e não suas “obsessões”, ainda que sejam legítimas), é o fato de poder se posicionar do lado das massas populares brasileiras e de lutar por elas e com elas. Não por um pacto “abstrato”, mas por uma mudança significativa em prol das maiorias.
O horizonte que descortinamos ajuda a desenhar nossas possibilidades. Relembremos Florestan Fernandes e retomemos o horizonte não-mercantil, contra toda alienação, um horizonte de efetiva libertação. Assim, se cada passo pode conter opções e acordos, o próprio horizonte não pode ser esquecido. Se perdermos esse horizonte, que é o da humanização dessa sociedade injusta, desigual e barbaramente exploradora, que é o da efetiva socialização de todos os procedimentos e práticas da vida social, corremos o risco de sermos absorvidos pelos formatos que nos impõem, como se estes fossem a própria natureza das coisas… Formatos como esse, proposto pela Globo, que, se permitiram uma melhor performance de Lula, exigem ser criticados. A fundo e com rigor.

_______________

Virgínia Fontes é professora de História da Universidade Federal Fluminense.
_______________