Uma crítica precoce à "globalização" e uma epopéia da literatura universal: Os Sertões, cem anos depois

Berthold Zilly
Especial para *Gramsci e o Brasil*














A dimensão internacional da guerra nos sertões

Já antes da publicação de Os Sertões, a guerra de Canudos, que à primeira vista nos parece assunto intrinsecamente brasileiro e até interiorano, bem do fim do mundo, foi, durante quase todo o ano 1897, evento de mídia não só no Brasil mas nas Américas e em toda a Europa, comparável na nossa época com o movimento zapatista em Chiapas ou a guerra na Chechênia. Pois aquele assalto ilegal de tropas legais contra uma comunidade relativamente pacífica de vaqueiros e lavradores - sem aviso prévio, sem negociacão, sem chance nenhuma para os assaltados - teve não apenas traços arcaicos e bárbaros, como todas as guerras, mas foi um empreendimento muito moderno e, por conseguinte, internacional. O mundo inteiro se aliou ao exército atacante, concedendo ao governo brasileiro os créditos necessários, mandando-lhe a sua mais avançada tecnologia militar, além de alguns poucos frades e filantropos, e apoiando, através dos grandes jornais do mundo, a sua campanha psicológica anticonselheirista, graças ao telégrafo, que, já naquela época, estava reunindo os leitores dos grandes jornais numa aldeia global. Diferentemente de Chiapas, no caso de Canudos não havia opinião pública mundial favorável aos atacados, o que selou a sua extinção. Ademais, a Europa, fazia tempo, tinha preparado os paradigmas teóricos e interpretativos para comportamentos, considerados bárbaros, atrasados e desviantes, de coletividades mestiças, rurais e radicalmente religiosas, aparentemente incompatíveis com a modernização - uma ciência que era uma continuação da guerra com meios intelectuais.
Apesar de compartilhar os preconceitos mundialmente vigentes contra populações tradicionais inconformadas, sobretudo de cor, que bem mais tarde o historiador inglês Eric Hobsbawm chamaria de primitive rebels, o jornalista e engenheiro Euclides da Cunha, tenente reformado e, portanto, perito em assuntos militares, no calor da sua narração cada vez mais apaixonada, passou a admirar aquela comunidade religiosa no longínquo sertão, caluniada pelos jornalistas e pelo próprio Euclides como atávica, fanática e criminosa, o que naquela época eram acusações tão graves quanto as de fundamentalista e terrorista hoje em dia. Pois o povo de Canudos ia tomar o seu de­sti­no em suas próprias mãos, dispondo-se a entrar no palco da história como sujeito político, com um projeto social alternativo, regional, transétnico, brasileiro, baseado num catolicismo tradicional, procurando obstinadamente resolver os seus problemas materiais e espirituais, sem pedir licença ao latifúndio, ao Estado ou à Igreja. Afinal, nenhum deles - nem a República, com seu lema Ordem e Progresso - havia feito nada para diminuir a sua miséria e opressão, antes pelo contrário.
Por que os canudenses foram perseguidos? Em última instância, por não se adequarem à ordem coronelística estabelecida, conhecida, aceita pelas elites, por mais esclarecidas e civilizadas que se considerassem. Antônio Conselheiro e seus seguidores, apesar de se terem retirado para os rincões mais inóspitos do sertão, onde só queriam ser deixados em paz, puseram a questão do poder, questionando a quase soberania dos latifundiários e dos políticos a eles associados. Os canudenses não queriam ninguém acima deles, a não ser Deus e o seu encarregado para governar o Brasil, o imperador. Na prática, porém, colaboravam e trocavam mercadorias com fazendeiros e comerciantes da região, e chamavam regularmente um padre das redondezas para ministrar os sacramentos, de modo que estavam integrados na sociedade sertaneja em termos de relações humanas e econômicas. É verdade que Canudos contrariava o monopólio da violência do Estado, mas milhares de coronéis, mandões discricionários pelo Brasil afora, também o faziam, sem provocar a fúria dos guardiães da ordem estabelecida e da Civilização.

Veracidade poética versus preconceitos “científicos”

O escritor muitas vezes é mais clarividente do que o pensador, o artista pode intuir o que o analista ignora: pensemos no famoso exemplo de Balzac, que, apesar de monarquista e admirador da aristocracia, narrou com perspicácia e com certa simpatia, como foi mostrado por Lukács, a ascensão da burguesia e a emergência do proletariado na França da Restauração. Pois bem, o ideólogo republicano e cientificista Euclides da Cunha, repleto de preconceitos racistas, cada vez mais cede lugar, no decorrer das descrições e narrações do seu livro, ao observador direto e empático, ao “narrador sincero”, que representa a realidade social e histórica através de um “consórcio da ciência e da arte”, tendendo cada vez mais para esta última. Resolve, embora nem sempre de modo coerente, evitar “os garbosos neologismos etnológicos”, transformando, pelo contrário, a própria ciência em arte, em arsenal de recursos estéticos. Em um momento de ceticismo científico, resolve até retratar os sertanejos espontânea e subjetivamente, assumindo, em uma das suas típicas hipérboles, a atitude de “simples copista” que reproduziria “todas as impressões, verdadeiras ou ilusórias, que tivemos quando, de repente, acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta do sertão, com aqueles desconhecidos singulares, que ali estão - abandonados - há séculos”. Vale a pena repetir: “impressões, verdadeiras ou ilusórias.” Até as percepções ilusórias podem captar aspectos da realidade - um esboço de epistemologia impressionista. Se ele lança mão da subjetividade e da fantasia na representação do espaço e da história, sempre o faz a serviço da verdade, percebida através de um temperamento cheio de compaixão com todos os seres sofridos, as pedras, as plantas, os animais, os soldados e, sobretudo, os sertanejos; pois vê reinar no sertão o “martírio secular da Terra”, que condiciona o “martírio do homem”. Sugere que o martírio pode transcender o sertão, sendo atributo da condição humana, da natureza, do universo, de modo que o sertão seria o mundo, idéia que mais tarde encontramos em Guimarães Rosa.

Crítica da razão colonialista

Sarcasticamente, Euclides desmonta não só as “fantasias psíquico-geométricas” da psiquiatria e craniometria da época, mas sobretudo os discursos grandiloqüentes, hipócritas e desumanos dos seus colegas da imprensa e do Exército, que legitimam o colonialismo interno e o massacre dos vencidos com a suposta missão de salvar a República e assegurar o triunfo da Civilização sobre a barbárie sertaneja. Ora, são discursos muito próximos daqueles que o próprio autor pratica, de modo que precisa exagerar de modo caricatural a retórica belicista dos oficiais positivistas, para os quais os caboclos são meros objetos de uma operação violenta de mudança social: “Era preciso que saíssem afinal da barbaria em que escandalizavam o nosso tempo, e entrassem repentinamente pela civilização adentro, a pranchadas.” A campanha de Canudos, para o Exército, mas também para o narrador, é “uma invasão em território estrangeiro”. A crítica euclidiana à prática e à retórica da modernização autoritária do seu tempo é também autocrítica, pois volta e meia o próprio autor defende métodos tirânicos e até imperialistas de “desenvolvimento”, como se diria mais tarde, comparando a Campanha de Canudos com a ocupação da Tunísia pela França, mencionando também como termo de comparação, no Diário de uma Expedição, a invasão francesa em Madagascar, a italiana na Abissínia, a inglesa na África do Sul. Justifica, pelo menos implicitamente, esse tipo de intervenção bélica pelo benefício civilizatório que traria - a construção de açudes e estradas, por exemplo -, mas do qual duvida cada vez mais, pelo menos no caso do sertão colonizado à força. Pois, diferentemente das colônias ultramarinas da Europa, o sertão deve ser “incorporado à nossa nacionalidade” e, se ainda é uma espécie de colônia interna, deveria deixar de sê-lo. Estas dubiedades, duplicidades, ambivalências, incoerências são típicas na escrita de um autor que disse de si mesmo: “eu sistematizo a dúvida” e que repassa as suas dúvidas, quando não consegue esclarecê-las, para o leitor de Os Sertões. Grande parte das idéias e imagens neste livro são polissêmicas ou ambíguas, revelando à análise atenta um segundo ou terceiro sentido, muitas vezes oposto ao primeiro, de modo que o leitor é chamado a participar de um debate com várias vozes e de resultado aberto, em que o autor é apenas um moderador, sem posição definida e muito menos definitiva.
Quando Euclides põe de lado as ideologias colonialistas, passa, embora não sem hesitações, a justificar, em seu estilo amargamente irônico e ao mesmo tempo solene, a resistência dos “rudes patrícios transviados” contra a invasão das suas terras: “O jagunço [...] só podia fazer o que fez - bater, bater terrivelmente a nacionalidade que, depois de o enjeitar cerca de três séculos, procurava levá-lo para os deslumbramentos da nossa idade dentro de um quadrado de baionetas, mostrando-lhe o brilho da civilização através do clarão de descargas.” Em vez do direito e da educação, o governo, como representante da Civilização, da República e da Nação, manda aos brasileiros “retardatários” do sertão o Exército, que fala unicamente a linguagem da violência. No combate à barbárie, recusa qualquer diálogo, lançando mão de métodos bárbaros: “Enviamos-lhes o legislador Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador - a bala.” É nos emissários do Progresso e da Modernidade, muito mais do que nos “bárbaros” do sertão, que ressurge “a animalidade primitiva”, que degola os inimigos presos, violando todas as regras da lei e da moral. Se o sertão é bárbaro, ele o é mais pela ação da Civilização colonialista do que pela sua ausência, um paralelo com a selvageria do interior da África em O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, romance também publicado em 1902. “A Rua do Ouvidor valia por um desvio das caatingas”, assim como a Bruxelas de Conrado tem aspectos tão sombrios e tumulares quanto o Congo explorado e bestializado pelo colonialismo belga. As luzes que a nação brasileira e os seus órgãos, o governo, o Exército, a imprensa prentendem levar ao sertão, num combate contra o obscurantismo, contra as trevas da superstição e do fanatismo, produzem um vasto cemitério, hoje submerso num açude, um ground zero da história brasileira.
Se o autor enfatiza a dimensão internacional desse conflito, é que lhe atribui caráter paradigmático dentro da História Universal, como choque de culturas provocado pela expansão secular da Civilização, que, tão sedutora quanto violenta, esmaga no mundo inteiro aquelas sociedades tradicionais e sobretudo rurais, que não se deixam facilmente integrar ou nem sequer têm a chance de fazê-lo. Diferentemente da África ou da Ásia, no Brasil essa Modernidade global, atropeladora de tudo o que for diferente e incompreensível, não necessita de intervenções imperialistas, pois tem como aliados e cúmplices os políticos, os intelectuais, os cientistas, os militares do litoral, da mesma nação, entre os quais o próprio autor se inclui numa auto-acusação: “Nós, [...] armados pela indústria alemã, tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes.”

Valorização ambígua da mestiçagem

Entre as visões inovadoras de Euclides, merece destaque a valorização, pelo menos no plano poético-narrativo, da mestiçagem. A capacidade de sobrevivência do sertanejo contra as adversidades da natureza e da guerra é extraordinária e admirável. A comunidade de Canudos consegue satisfazer as necessidades básicas de milhares de habitantes em plena caatinga, num semideserto, onde vivem melhor do que nas fazendas das redondezas, em certa dignidade, calma e solidariedade, o que provoca a constante migração rumo a esse arraial. Depois da derrota da segunda expedição, muitos sertanejos pensaram que o governo e o Exército “os deixariam, afinal, na quietude da existência simples do sertão”, idéia idílica embora ilusória com que simpatiza o narrador. Esses mestiços têm uma cultura material, musical e poética com que simpatiza o narrador, eles criam bodes e vacas, são bons agricultures e artesãos, homens hábeis e honestos, trocam no “barracão da feira” das suas vilas os seus produtos por aqueles da Civilização, poderiam ser felizes se esta última não os perseguisse. Mais ainda, os sertanejos, em princípio, depois de três séculos de intensa miscigenação e reclusão, estão maduros para absorver a Civilização: “Aquela raça cruzada [...] pode alcançar a vida civilizada.”
Euclides, ou pelo menos o narrador em Os Sertões, acaba reconhecendo a mestiçagem - considerada por muitos intelectuais da época, inclusive pelo próprio autor, um estorvo para o progresso civilizatório - como processo fundamental e positivo para a formação da sociedade sertaneja e brasileira. É principalmente na hora da morte que o sertanejo, esse condenado pela ciência racista do seu tempo, se transfigura - “transfigurar” é uma palavra favorita de Euclides - em possível agente político e fazedor de sua própria história. Ele, porém, é tragicamente sacrificado, de modo que na realidade não pode dar a sua contribuição para a construção de um moderno Estado verdadeiramente nacional, permanecendo a sua valorização mais bem no nível simbólico e estético. Mesmo assim, na história do pensamento social brasileiro, Euclides, com a elevação de um mestiço a herói nacional, constitui importante elo de ligação entre o viajante alemão Martius - que, no seu tratado Como se deve escrever a história do Brasil, publicado em 1844, reinterpretou a mestiçagem como processo necessário e propício para a constituição do Brasil como nação - e o sociólogo Gilberto Freyre, cujo ensaio clássico Casa Grande e Senzala (1933) comprovou e elogiou o caráter mestiço da população e da cultura no Brasil, um marco contra o racismo ‘científico’.

Uma visão trágica e, contudo, alentadora da História

Quando a República, no seu fanatismo civilizador, extermina o sertanejo, ela pratica um ato de automutilação nacional - numa guerra de assédio, cuja sombria grandiosidade lembra a Canção dos Nibelungen, epopéia medieval alemã, transformada em ciclo de óperas por Richard Wagner, em que um herói capaz de redimir o mundo da maldição do ouro é assassinado pelos dirigentes da tribo germânica dos Borgonheses, também chamados de Nibelungen, por sua vez aniquilada pelos hunos, sob o comando de Átila. O inimigo execrado, na hora da sua morte, se afigura como "cerne de uma nacionalidade", "a rocha viva da nossa raça". Aquele povinho que, tal qual os caboclos da Amazônia, vive “à margem da história”, atrasado e analfabeto, aparentemente inferior e estranho, quase estrangeiro dentro do Brasil, incapaz para a construção da nação, tem de repente a sua “apoteose”, revelando-se no ocaso como superiormente brasileiro e entrando na luz de ribalta da história, embora apenas em nível simbólico-cultural, justamente através de Os Sertões. O sertão era “um parêntese, um vácuo, um hiato”, um não-lugar - lembrando o Congo de Joseph Conrad, em Coração das Trevas - que só como "ficção geográfica" fazia parte do território nacional. Mas agora ele entra na História e passa a ser visto, momentaneamente, quando é tarde demais, como possível berço de um futuro Estado brasileiro, já não excludente, como era o projeto nacional das elites, mas incorporador e participante, embora não igualitário nem formalmente democrático - a utopia trágica de uma cidadania autônoma dos que tinham sido mantidos não-cidadãos.
A glória e a atualidade de Os Sertões nem tanto se devem às informações e às reflexões sobre a guerra, que se encontram quase todas também em numerosos outros escritos da época, pois foi exagero de Euclides afirmar que a História não teria ido a Canudos. Muito se publicou sobre a guerra antes e indepentemente de Os Sertões, mas é certo que a guerra, os sofrimentos e as realizações dos canudenses na paz e na guerra, assim como os crimes praticados contra eles, teriam caído no esquecimento da opinião pública sem este livro. O seu efeito se deve principalmente à arte presentificadora e encenatória do autor, ao seu estilo sugestivo, sonoro e plástico, ao seu poder imagético e escultural, à sua prosa altamente retórica e poética, entre sarcástica e sublime, à sua teatralização do meio, dos eventos, dos objetos e personagens. Todos eles aparecem como entidades e forças típicas, não individuais, mas concretas e vivas, representando os principais agentes naturais e históricos, nacionais e internacionais, de modo que o Exército, mais ainda o povo e a paisagem, as pedras e plantas, os ventos, mas também os canhões, passam a ser os protagonistas, pois um importante recurso estilístico é a antropomorfização das forças e dos objetos. O principal protagonista é o sertão, que, no plural, na sua multiplicidade e variabilidade, fornece o título do livro. Acima de todos os agentes, paira, porém, o destino, a História com maiúscula, as leis inexoráveis e em grande parte insondáveis da Evolução e da Civilização, os deuses da Vida e da Morte. Mesmo assim, obedecer cegamente às leis históricas, ao avanço da Civilização por vezes mortífera, é um crime. Em vez do soldado, ela deveria ter mandado o professor e o engenheiro, pessoas como o próprio Euclides.
Apesar do seu ceticismo, o autor admite que o caráter sagrado do sertão, na visão dos canudenses, passe para a obra, que é santificada pelo assunto. Não é por acaso que o seu livro maior foi logo chamado de bíblia da nacionalidade. As aporias éticas, políticas, intelectuais da recente história nacional e internacional, e as incoerências analíticas no pensamento do próprio autor encontram uma solução duradoura, exemplar e satisfatória no plano estético-metafísico. Raramente na história da literatura a identificação entre um segmento da realidade e a sua representação é tão intensa quanto aqui, pois quase todos os leitores reconhecem uma simbiose entre a obra, a região e o evento. Uma parte atrasada, carente, marginalizada do Brasil de repente se transfigura - “transfigurar” é um dos verbos prediletos de Euclides - em região virtualmente modelar do país e até da história universal. Os últimos serão ou poderiam ser os primeiros. À centralidade geográfica dos sertões, mais bem teórica e matemática, corresponde, inesperadamente, uma centralidade histórica e política. Com seu caráter de epopéia nacional e sua implícita e trágica teologia política, Os Sertões é um livro fundador, uma súmula da nacionalidade, uma obra que, com suas ambigüidades e contradições, consegue constituir o Brasil como nação capaz de pôr perguntas ao mundo.

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Berthold Zilly é professor do Instituto América Latina da Universidade Livre de Berlim e tradutor alemão de Os Sertões.
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