A Copa, a crítica e a vida

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
São Paulo, 19 jul. 1998, p. 2




Como milhares de brasileiros, também não desgrudei os olhos do campeonato mundial. Vi dezenas de jogos, inúmeras mesas-redondas, freqüentei com interesse redobrado as páginas de diversos jornais do país. Não foi difícil constatar o que sabemos há décadas: em que pesem a má qualidade de muitos jogos, as maracutaias dos cartolas, o caótico calendário das competições, o futebol continua a ser a grande paixão nacional, talvez a única a conseguir catalisar a atenção das massas, dos meios de comunicação e das elites por um tempo prolongado, e sem sofrer qualquer tipo de concorrência.

Também foi fácil perceber que melhorou muito a qualidade das análises esportivas, em que pese a reiteração de certas fórmulas gastas, sobretudo na televisão, onde o número de bobagens ditas por minuto durante as transmissões chocou até mesmo o mais fanático torcedor. Deveu-se a essa baboseira «patriótica» boa parte daquela «comemoração antecipada que vai para o arquivo dos nossos ridículos» recordada por Moacir Werneck de Castro em recente artigo aqui neste JT.

Mas, ao lado disso, um estilo arejado, sério e rigoroso acabou por prevalecer. Vocalizada por jornalistas especializados, artistas, intelectuais, técnicos e ex-jogadores, uma nova crítica dedicou-se a explicar as regras do jogo, a acompanhar as variações táticas das equipes e a performance dos atletas, a avaliar a força relativa das várias seleções e as reais chances dos «canarinhos». E, como não poderia deixar de ser, a traçar paralelos entre a Copa e a vida, o esporte e a política, o espetáculo que transcorria nos gramados franceses e a realidade dura do dia-a-dia, o congraçamento esportivo ostensivamente exibido em um campeonato mundial e a tensão inerente ao atual estado das relações internacionais. Não se deixou de lado sequer o fato mais perturbador da competição: a natureza popular e multirracial da grande maioria das seleções, e particularmente das que apresentaram o futebol mais vistoso e competente (Holanda, França, Inglaterra). Assim no campo, assim nas arquibancadas: as torcidas foram um espetáculo à parte. No mínimo por isso, a Copa foi eloqüente em sugerir que o futuro depende de «reconhecimento do outro», de integração dos povos, de diálogo e cooperação, não de «globalização», «interdependência» e aldeia global. Os «franceses de papel» que o racista Le Pen tentou estigmatizar com sua retórica xenófoba e regressiva acabaram por dar ao mundo uma lição de tolerância e democracia, capaz, em si mesma, de empurrar para o lixo o primarismo de hooligans e congêneres, filhotes da mesma Europa que já pariu o nazismo e que tanto se ressente daquilo que muitos, a começar de Freud, já chamaram de «mal-estar» da civilização, malaise da modernidade.

De tanto folhear jornais e visitar sites por todo o país, acabei por encontrar em Minas Gerais (mais exatamente, em Belo Horizonte), um texto que mereceria ser lido por todos. Em sua coluna quinzenal no jornal O Tempo, o tradutor e ensaísta Luiz Sérgio Henriques explorou, de modo original e instigante, a idéia da seleção como metáfora do país. Dispondo-se a correr o risco implícito nas analogias, ele observou: «No universo paralelo do futebol, nossa seleção aparece como superpotência, capaz de fascinar críticos e públicos das mais diversas procedências. Chega a ser comovente ver, por exemplo, haitianos, equatorianos ou gente de qualquer parte embandeirar-se de verde e amarelo e atribuir ao jogador brasileiro talentos e capacidades próprios do verdadeiro artista. O futebol, sem dúvida, é uma das expressões possíveis do enorme potencial que tem este país, bem como a gente misturada e criativa que o construiu ao longo de uma interessantíssima experiência nacional prestes a completar 500 anos». O articulista, porém, não deixou de notar que «falta alguma coisa» nessa superpotência futebolista: «falta a organização esportiva, o esporte difundido massivamente, assim como faltam a teoria e o estudo do esporte para enriquecerem a técnica e o potencial individuais. Explorando o raciocínio analógico, também ao país -- às suas elites -- tem faltado o pensamento estratégico que, só ele, pode arrancar-nos à apagada e vil tristeza de um destino subordinado e dependente.»

O que o articulista disse com precisão é que o futebol, tanto quanto a vida ou a arte de governar, não se resume a talento individual, empenho, folha de serviços, honestidade e boas intenções. Desse ponto de vista, acrescento eu, a vitória dos brasileiros em Paris não teria sido a vitória do melhor futebol do mundo, nem sequer do futebol, mas teria sido a vitória da empáfia, da falta de planejamento, do amadorismo, de uma cultura que não sabe decifrar as várias dimensões de uma competição complexa e se alimenta de um vaidoso «já ganhamos porque somos bons». Com a derrota, talvez tenha acabado uma era. Continuaremos a ter ótimos jogadores, talvez os melhores individualmente falando, mas talvez comecemos a nos dar conta de que os outros países também os têm. E talvez aprendamos a compreender que os outros passaram a ter o que nós parecemos ter perdido: padrão de jogo, «coração», unidade, organização, uma certa humildade, uma certa alegria de jogar por jogar.

Se conseguirmos juntar todos esses atributos, aí sim poderemos posar de candidatos ao penta. No futebol e na vida real, o país tem tudo para deslanchar.