O rio, as minas e as Gerais

Gildo Marçal Brandão
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Marco Antonio Tavares Coelho. O Rio das Velhas - memória e desafio. São Paulo, Paz e Terra, 2002. 188 p. Ilustrações de Maria Helena Andrés.

A capa de O Rio das Velhas - memória e desafios, criada a partir de uma das ilustrações da artista mineira Maria Helena Andrés, é surpreendentemente despojada. O tema - o Rio das Velhas, principal afluente do São Francisco, que corta o estado de Minas Gerais de sul a norte - é à primeira vista estranho, não só porque, em nossa civilização urbana, só lembramos da água na hora de usá-la e jamais na de preservá-la, como também porque era de esperar que o seu autor, sendo quem é, se dedicasse mais a assuntos diretamente políticos.
A estranheza, entretanto, se dissipa de imediato. O jornalista Marco Antonio Tavares Coelho, editor-executivo da revista Estudos Avançados, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, ex-deputado federal, ex-dirigente do extinto Partido Comunista Brasileiro e autor de uma das mais sensíveis e envolventes memórias políticas publicadas no Brasil (Herança de um sonho - memórias de um comunista, pela Ed. Record), foi também buscar numa recordação da infância - um velho navio encostado num barranco, quando de sua primeira viagem à cidade de Sabará -, na leitura do naturalista inglês Sir Richard Burton, que pela região passou em 1867, e na luta dos mineiros para salvar o rio, o impulso para escrever O Rio das Velhas - memória e desafios.
Recém-publicado pela Editora Paz e Terra, o livro parte da premissa de que "a água dos rios é o sangue da terra", morrendo esta quando aquela é maltratada, para fazer um percurso de quatro séculos e retraçar a trajetória da ocupação e do desenvolvimento do estado através da história, das histórias e dos dramas do rio. Começando pela aventura dos bandeirantes adentrando os sertões em busca de índios para o trabalho escravo, ouro e diamantes, Marco Antonio Tavares Coelho examina o papel decisivo que o afluente do São Francisco - o rio da unidade nacional - teve na conquista das Gerais e na construção da primeira civilização urbana - a das Minas - que o Brasil conheceu. Denuncia o modo pelo qual uma agricultura e uma industrialização predatórias foram destruindo o ambiente que lhes permitiu nascer. Analisa os impactos e as transformações resultantes da construção e desenvolvimento de Belo Horizonte. Narra as lutas do povo miúdo - os emboabas, os quilombolas, os inconfidentes, os operários de Morro Velho, as populações ribeirinhas - pela sobrevivência e dignidade. Flagra a crise ecológica atual e se faz porta-voz daqueles que batalham desesperadamente para superá-la e impedir que o "mundo" - o rio - "se acabe".
O Rio das Velhas - memória e desafios não é apenas erudito e baseado em sólida pesquisa. É sobretudo bem escrito. Usa com sensibilidade poesias de Drummond, Bandeira, Dantas Mota, Mário de Andrade, Hélio Peregrino e outros. E encontrou nas belas ilustrações de Maria Helena Andrés a "mais perfeita tradução" de seu conteúdo.

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Gildo Marçal Brandão é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo.
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