O difícil caminho para a paz

Alberto Aggio
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Gilberto Dupas e Tullo Vigevani (orgs.). Israel-Palestina, a construção da paz vista de uma perspectiva global. São Paulo, Ed. Unesp, 2002. 322 p.

Desde 28 de setembro de 2000, quando do início da segunda Intifada - a insurreição dos palestinos contra a ocupação israelense -, assistimos, cada dia mais estarrecidos, ao derramamento de sangue que cobre o Oriente Médio. A escalada da violência entre israelenses e palestinos, que a essa altura parece irrefreável, traz algumas inquietantes indagações: quais as razões para essa estúpida e aberrantemente desigual guerra entre dois povos, quando há alguns poucos anos, com a mediação do então presidente Bill Clinton, esteve-se a ponto de se conseguir a paz? Porque parece tão difícil o entendimento? Um tanto desesperançados com as atrocidades que nos chegam em imagens cada vez mais chocantes, perguntamo-nos sobre possíveis saídas. Quais caminhos seriam necessários trilhar para alcançar ao menos uma “paz fria”, que abrisse passagem para a ação diplomática e para a construção de uma paz duradoura?
As parcas respostas que temos à mão, proporcionadas pela mídia, não conseguem nos livrar da inquietação que nos assola e da sensação de ameaça de que essa guerra localizada se generalize e atinja o restante do mundo. É um cenário de catástrofe que nos atormenta, como um pesadelo que se tornou realidade depois do que assistimos no dia 11 de setembro de 2001, quando o mundo parecia ruir diante dos nossos olhos, sob o fogo do que alguns se apressaram em atestar como o novo “choque de civilizações” que viria para marcar o futuro.
Contudo, talvez não se deva estabelecer uma correlação tão imediata entre os dois processos acima mencionados. Mesmo que se recuse a idéia de que a questão palestina engendre o anunciado “choque de civilizações”, uma vez que o problema é expressivamente mais complexo do que isso, não há como deixar de reconhecer que os dois processos se apresentam como dinâmicas interdependentes no cenário mundial, se não em suas motivações políticas mais diretas, pelo menos em sua explosiva manifestação de confrontação entre o mundo árabe e a chamada civilização ocidental. Esta última, mal representada pela política externa dos EUA comandada por George W. Bush, sustenta politicamente quase todas as ações militares israelenses contra os palestinos.
Nesse cenário internacional, as tendências fundamentalistas se fortaleceram em ambos os lados e, entre os palestinos, isso tem gerado um problema político incontornável, especialmente depois do início das ações militares de Israel. A partir desse momento, o massacre dos palestinos por parte de Israel se tornou contundente, comprometendo a ação de seus grupos dirigentes bem como sua capacidade operativa. Por outro lado, a imposição da força por parte do Estado de Israel parece indicar que seus atuais governantes se esqueceram de que esse não é e nunca foi um caminho acertado para se conseguir a paz e a segurança de um povo, como é o anseio dos seus representados, ainda que estes pareçam estar, em sua maioria, também inebriados com o êxito militar em despedaçar as cidades palestinas.
Por todas essas razões, a publicação de Israel-Palestina, a construção da paz vista de uma perspectiva global, sob a organização de Gilberto Dupas e Tullo Vigevani, não somente aparece em muito boa hora como também vem representar a possibilidade do público brasileiro ter acesso a um conjunto significativo, estimulante e poderosamente competente de ensaios sobre essa pesada herança do século XX que adentra, com o seu séquito de horrores, o século que há pouco se abriu.
A dificuldade de análise de um processo extraordinariamente movediço e ainda em curso é o primeiro problema apontado tanto pelos organizadores como pelos especialistas internacionais que escrevem esse livro, quase todos diretamente envolvidos na questão, seja no plano acadêmico, seja no campo das relações internacionais. Em termos gerais, os ensaios que compõem o livro discutem as principais questões históricas que determinam o conflito, assim como os seus aspectos mais específicos e conjunturais, que envolvem a situação econômica dos palestinos, a identidade de natureza religiosa e ideológica de ambos os povos e as visões recíprocas dos dois lados da contenda. Especificamente, discute-se também o papel que o Brasil vem desenvolvendo no conflito por meio de uma ação diplomática multilateral, caracterizada num dos ensaios como “consistente e pragmática”.
Em sua totalidade, os ensaios têm como preocupação central explicar as razões do persistente fracasso dos processos de paz. E um dos problemas principais é o fato de que, como assinala Peter Demant, “além de acordos políticos e de segurança e uma forma de interação econômica mutuamente benéfica, uma paz estável requer paz entre as pessoas e não apenas entre os governos. Portanto, ela deve se basear em um mínimo de valores compartilhados por ambos os lados”. Por essa razão, afirma o mesmo autor, “a reaproximação cultural israelense-palestina, hoje uma miragem distante, se tornará uma opção apenas quando a identificação nacional de ambas as nações se tornar menos fanática e menos exclusiva, e quando, no coração de ambos os povos, a opção democrática obtiver uma vitória decisiva sobre o fundamentalismo religioso” (p. 257).
Compreender os termos dessa difícil situação internacional é algo que se afirma como profundamente necessário. Tanto mais porque parece que o centro das decisões mundiais estará sendo disputado em torno das definições que envolvem o conflito entre Israel e Palestina e na aposta de que ambos possam sobreviver. Esse livro certamente nos ajuda a refletir sobre esse problema.

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Alberto Aggio é professor livre-docente da Unesp, campus de Franca.
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