Gramsci e Togliatti

Guido Liguori
Especial para *Gramsci e o Brasil*














1. A reapresentação dos escritos togliattianos dedicados a Gramsci, numa coletânea ampliada em relação às anteriores [1] - faz tempo esgotadas e não disponíveis - tem uma precisa razão de ser: entre os cerca de quinze mil itens na bibliografia mundial dos escritos sobre Gramsci [2], o “livro” que Togliatti compôs paulatinamente sobre seu antigo companheiro de lutas, num arco de tempo que vai de 1927 a 1964 (desde o processo que se concluiu com a condenação do comunista sardo até a morte do líder do PCI), tem, de fato, poucos outros iguais em relação à influência historicamente exercida e ao papel decisivo em determinar a “fortuna” do autor dos Cadernos do cárcere [3]. Sem o trabalho de editor e intérprete desempenhado por Togliatti, hoje talvez Gramsci não seria o Gramsci que conhecemos: suas anotações carcerárias e suas cartas provavelmente só teriam emergido em anos recentes dos arquivos da ex-União Soviética, com as respectivas incógnitas ligadas à sua compreensão e valorização; seu nome seria hoje o de um mártir antifascista, de um comunista original e inovador, “desaparecido” talvez cedo demais para demonstrar plenamente o próprio valor. O rico laboratório dos Cadernos e a grandeza moral das Cartas não seriam conhecidos além de um círculo muito restrito de parentes e amigos. De qualquer modo, Gramsci não teria se tornado o ensaísta italiano moderno mais lido, mais traduzido, mais citado, mais conhecido no mundo.
Mas não é só uma razão de caráter historiográfico - inerente à história da fortuna de Gramsci - que sugere a oportunidade do presente volume. O conjunto dos escritos, dos discursos, das leituras dedicadas por Togliatti ao comunista sardo também merece ser lido, ou relido, porque fornece ainda hoje - misturados com elementos efetivamente corroídos pelo tempo - indicações e chaves de leitura úteis para compreender o pensamento complexo, tortuoso, difícil dos Cadernos. Gramsci é um autor mais vital e moderno, maior, sob muitos pontos de vista, do que aquele que emerge do “uso” que dele fizeram Togliatti e o PCI (como, no fim, o próprio Togliatti compreendeu e fez questão de dizer) [4]. Mas este Gramsci “togliattiano” também está cheio de indicações essenciais, que, quando foram esquecidas ou intencionalmente ignoradas, levaram, e ainda apresentam o risco de levar, a equívocos substanciais sobre o legado do pensador sardo.
Já faz tempo (ainda vivo Togliatti) que desapareceu a representação da relação entre os dois dirigentes comunistas em termos de total continuidade. Já faz tempo que se insiste, até o exagero, mais sobre suas diferenças do que sobre suas afinidades. Talvez tenha chegado o momento de tornar a ler a relação entre estes dois personagens tão ricos e complexos, evitando tanto os mitos do passado quanto a atitude oposta que, talvez por reação, ou mesmo por malícia política, quis sublinhar apenas a distância entre eles. Ler hoje estes escritos sine ira et studio, obviamente livres de qualquer hipoteca hagiográfica, mas também de qualquer hostilidade preconcebida, já serviria para evitar muitas das dificuldades interpretativas e dos verdadeiros equívocos que se registraram no curso das últimas décadas.

2. As leituras togliattianas de Gramsci podem ser subdivididas em três fases distintas: os anos do fascismo, a partir da detenção do comunista sardo; o período que vai da Libertação até o fim do stalinismo; os anos compreendidos entre “o inesquecível ano de 1956” e a morte de Togliatti.
O primeiro escrito - “Antonio Gramsci, um dirigente da classe operária (por ocasião do processo de Roma)” - apareceu em Lo Stato operaio, a revista teórico-política do PCI, em outubro de 1927. Gramsci tinha sido detido um ano antes e se preparava aquele “grande processo” contra o grupo dirigente comunista, que, em junho de 1928, condenaria o líder sardo a vinte anos de cárcere. O artigo de Togliatti se insere no quadro da campanha de imprensa que foi deflagrada em apoio aos comunistas prisioneiros dos cárceres fascistas. Mas, ao mesmo tempo, dela se afasta muito, pela profundidade de reflexão, pela incisividade com a qual era sublinhada a estatura intelectual do comunista sardo e narrada sua biografia cultural e política.
Havia transcorrido um ano não só desde a detenção de Gramsci, mas também desde a profunda divergência que havia contraposto, imediatamente antes, os dois dirigentes máximos do partido italiano, com a conhecida troca de cartas sobre a luta interna do grupo dirigente bolchevique. Os estudos mais recentes [5] e a documentação que só se tornou disponível nos últimos anos convergem no sentido de fornecer uma leitura parcialmente nova dos acontecimentos [6]. Antes de mais nada, desmontando a “acusação”, por muito tempo dirigida a Togliatti, de não ter querido entregar a primeira das duas cartas escritas por Gramsci, em nome do birô político do PCI e endereçada ao comitê central do Partido Comunista Russo [7]. Os documentos hoje nos dizem que Togliatti-Ercoli (que, desde fevereiro de 1926, se encontrava em Moscou como representante do partido italiano junto à Internacional), autorizado pelo próprio Gramsci a mostrar a carta, prévia e reservadamente, a alguns dos dirigentes russos mais “responsáveis” [8], considerando-a equivocada e superada pelos acontecimentos, pediu ao mesmo birô político permissão para não entregá-la [9] e discutir em breve seus temas numa outra instância política já convocada, e obteve autorização para tanto [10].
À parte este comportamento formalmente correto (que, no entanto, é um ponto importante), resta a divisão profunda entre Gramsci e Togliatti em outubro de 1926, testemunhada pela segunda carta que Gramsci escreveu, desta vez a título pessoal e endereçada a Togliatti [11]. Um conflito eminentemente político - como já se disse [12] -, que dava seqüência a toda uma série de divergências surgidas no curso daquele ano (sobre a tática sindical, sobre o “caso Bordiga”) entre Togliatti em Moscou e o grupo dirigente comunista na Itália, e que culminou na divergência político-estratégica de outubro, que se pode resumir nas dramáticas questões sobre a possibilidade-necessidade de edificar o socialismo “num só país” ou sobre as possibilidades da revolução no Ocidente numa fase de “estabilização capitalista”. Sobre este tema, a posição de Togliatti aparece, de fato, não só mais “realista” mas também politicamente “justa”, incorporando o dado (que também vai estar na base da reflexão carcerária de Gramsci) de que já se estava diante de uma derrota epocal. O que também é atestado pelo fato de que o próprio Gramsci, nos Cadernos, não teria dúvidas em afirmar o caráter errôneo da linha política de Trotski, alternativa àquela proposta pela maioria à qual Togliatti aderia com convicção [13]. Ainda que seja verdade que a carta de Gramsci ao grupo dirigente bolchevique - acusado de não saber conduzir as divisões em seu interior de modo político, e não disciplinar -, lida hoje, mostra-se rica de uma extraordinária capacidade “profética” sobre os riscos do processo degenerativo da revolução soviética, o “stalinismo”, então apenas no início [14].
Resta o fato de que, deste reexame, sai parcialmente reduzida a “ruptura” entre Gramsci e Togliatti em 1926. Houve certamente um duro choque (mas a dureza, no embate político, era própria da época, e Gramsci, por certo, dela não estava isento), uma divergência profunda, que a detenção de Gramsci, em 8 de novembro de 1926, não permitiu superar explicitamente: a divisão permaneceu cristalizada, sobretudo aos olhos dos pósteros. A verdadeira ruptura (política, mas temporária, não disciplinar-organizativa nem definitiva) entre Gramsci e o PCI, Togliatti inclusive, se deu mais adiante, diante da “virada” de 1929 e da política do “socialfascismo”. Gramsci no cárcere e Togliatti em Moscou ou em Paris continuaram a se falar à distância e por interposta pessoa - através de Tania, de Sraffa e do “círculo virtuoso” de cartas que uniu singularmente estes personagens por um decênio -, uma condição difícil, inclusive pelos graves erros que foram cometidos pelos comunistas, italianos e não-italianos, sobre o modo de ajudar Gramsci no cárcere e de tentar sua libertação [15]. De resto, as leituras que insistiram excessivamente na suposta “ruptura” entre Gramsci no cárcere e o movimento comunista [16] - às vezes de boa-fé, mas freqüentemente de modo encoberto e malicioso, especulando, por exemplo, sobre a “estranha” carta de Grieco em 1928 [17] - se chocam com um documento que, no estado atual dos conhecimentos, invalida pela raiz seu teorema: o pedido às autoridades italianas, combinado por Gramsci com Sraffa em 18 de abril de 1937, apenas nove dias antes da morte, para ser expatriado para a União Soviética [18]. Um passo inexplicável para um homem que se sente traído, isolado, abandonado pelos seus companheiros.
Este o quadro - evocado necessariamente de modo sintético - em que se inseriram os primeiros escritos togliattianos dedicados a Gramsci. No primeiro deles, que apareceu, como se disse, em 1927, Togliatti não mencionava as divergências do ano anterior, mas, pelo contrário, reafirmava com vigor todos os méritos de Gramsci em relação à luta contra o “bordiguismo” (então equiparado - no movimento comunista internacional - ao trotskismo), à superação da “primeira fase”, sectária e extremista, do PCI. Assim, neste artigo voltavam minuciosamente os principais motivos polêmicos que, nos anos 1920, haviam contraposto Gramsci e Bordiga: Togliatti rechaçava as acusações de “intelectualismo” (formuladas, ele especificava, “entre nós e por parte dos adversários”); defendia a legitimidade do caminho até o marxismo a partir de Hegel, a única “estrada mestra” que permitia alcançar a compreensão daquele “sentido de historicidade de tudo o que é real”, próprio da dialética hegeliana e marxista, que havia caracterizado o pensamento do jovem sardo transplantado em Turim (cujos estudos de glotologia, neste quadro, também eram lembrados, um dado, aliás, por muito tempo posto à parte pelos estudiosos de Gramsci); exaltava a intuição sobre o papel dos conselhos de fábrica, ligando-os ao tema da revolução e do Estado; negava que, em tal período, Gramsci não tivesse presente o problema do partido, não um partido-seita, certamente, mas um partido “parte” da classe, isto é, profundamente ligado às massas; não hesitava em recordar como ele mesmo e tantos outros dirigentes do PCI só haviam abandonado as posições bordiguistas, às quais terminaram por aderir em 1921-1922, graças à Gramsci: “sem Gramsci, não teríamos feito tão rapidamente o progresso que fizemos a partir de 1924. Foi ele quem superou as resistências que ainda havia em alguns de nós, ele deu unidade e homogeneidade ao nosso centro dirigente e reuniu, em torno deste centro, todo o partido” [19].
Uma reconstrução de temas e momentos do percurso gramsciano feita no fogo da luta, que não podia ser sempre explícita, mas fornecia um quadro substancialmente exato do que tinha sido e do que era Gramsci e das características essenciais de seu pensamento. Uma nítida tomada de posição política, que, um ano depois da carta de crítica à maioria do partido bolchevique, também soava como defesa de Gramsci e reafirmação de sua liderança diante do partido russo, da Internacional e também - sob outros aspectos - diante do partido italiano, que em parte ainda devia superar o “extremismo” de sua fase bordiguista.
Com a “virada” de 1929, a implementação da política do “socialfascismo” e sua imposição a todos os partidos da Internacional, cresceu a distância entre Gramsci no cárcere e Togliatti, que, à frente do PCI, havia então aceito plenamente - depois de uma tentativa extrema realizada na décima plenária da Internacional Comunista, em julho de 1929 [20] - o novo curso staliniano, que, de fato, invertia a formulação política de 1926 e voltava a apostar numa crise incipiente e catastrófica do capitalismo: uma nova onda revolucionária batia à porta. É conhecida a divergência que, sobre este ponto, manifestou Gramsci na penitenciária de Turi, divergência ligada - hoje podemos bem ver - a toda a reflexão contida nos Cadernos do cárcere. Nas discussões ocorridas em 1930 com os presos comunistas, Gramsci defendeu a tese da necessidade de uma fase “democrática” para sair do fascismo, apresentando a palavra de ordem da Constituinte republicana. Todavia, a profunda divergência de Gramsci em relação à política do partido jamais implicou nenhuma providência “disciplinar”, de expulsão, como por muito tempo se fantasiou, sobretudo por parte da publicística menos séria. Nunca se interrompeu a relação com Togliatti, confiada ao habitual “círculo virtuoso” Tania-Sraffa [21].
Real, e significativa, no entanto, é a escassa presença de Gramsci em Lo Stato operaio entre 1931 e 1932 [22]. A divergência sobre a “virada”, talvez mais do que a carta de 1926, ou ambas, aconselhavam - no novo clima então imperante na União Soviética - um comportamento de máxima cautela. Mas Gramsci não foi “condenado” como herético, não foi expulso como “os três”, Leonetti, Tresso e Ravazzoli, que se opuseram ao caminho tomado pelo movimento comunista internacional. Talvez não tivesse sido difícil - se, como alguns insinuaram, Togliatti quisesse se desembaraçar politicamente de Gramsci - envolver este na gritaria feroz contra o trotskismo. Togliatti escolheu o silêncio (em público, porque pouco mudou nos bastidores). E, quando as escolhas políticas da URSS e da Internacional o permitiram - com o VII Congresso e a política das “frentes populares”, não coincidentes mas pelo menos convergentes com a citada proposta da “Constituinte”, isto é, de “uma ação comum com todos os grupos antifascistas para a derrubada da monarquia e do regime mussoliniano” [23] -, a presença de Gramsci voltou a ser destacada, seja nas páginas das publicações do PCI e da Internacional, seja nas manifestações e agitações antifascistas dos comunistas, não só italianos [24]. As escolhas de Togliatti eram ditadas, como de costume, pela máxima cautela: era o dirigente de um partido reduzido a pouca coisa, espremido entre cárcere, clandestinidade e exílio, que tinha no apoio da União Soviética a condição imprescindível para continuar a luta: para continuar a existir. Ademais, depois da décima plenária, Togliatti interpretou com convicção a nova política decidida pela Internacional. O dado saliente, no entanto, não reside nas motivações interiores do personagem, mas na compreensão do fato de que toda uma situação histórica havia mudado radicalmente ao cabo de poucos anos. Por uma parte, a progressiva deterioração da situação política na Europa Ocidental, por outra o fechamento de todo espaço de discussão real e explícita no movimento comunista internacional. Foi nesta situação dificílima que Togliatti conseguiu salvar não só a si mesmo e a seu partido, mas também a Gramsci. Assim que se determinaram as circunstâncias de uma nova “viabilidade política”, também a “política de Gramsci” (obviamente, tal como Togliatti a interpretava e adaptava às condições da ação efetiva) foi reproposta por Ercoli.
Nas contribuições togliattianas escritas por ocasião da morte de Gramsci, em 1937-1938 [25], não poucas são as incrustações que assinalam o novo clima existente na Internacional, a situação que - com expressão sumária, mas facilmente compreensível - se costuma designar como “stalinismo”. Gramsci se tornava um “leninista e stalinista fiel” [26], que lançava do cárcere “a palavra de ordem bastante significativa: Trotski é a puta do fascismo” [27]; Bordiga, um “canalha trotskista”, de quem se acusava o comprometimento com o fascismo [28]. Mas esta também era uma tentativa de salvarguardar o nome de Gramsci, para ligá-lo à Internacional então dominada por Stalin, e de defender a especificidade de uma tradição política que, dali a poucos meses, Togliatti deveria salvar contra o próprio grupo dirigente do PCI. Com efeito, em 1938, em plena onda repressiva staliniana, durante a qual foi dissolvido pelo Komintern o comitê central do partido italiano, sob as críticas da Internacional e na ausência de Togliatti, alguns dirigentes de primeiro plano exprimiram, numa reunião da secretaria (em 12 de agosto de 1938), a opinião de rever criticamente as “oscilações” que o partido - isto é, primeiro Gramsci, depois Togliatti - teria demonstrado, em 1926 e em 1928-1929, quanto à luta no grupo dirigente bolchevique, bem como a exigência de tomar publicamente uma posição contra a carta de Gramsci de 1926, há pouco divulgada pela primeira vez, na França, por Angelo Tasca. Togliatti se opôs a esta orientação, impedindo logo no início uma revisão das posições de Gramsci que teria implicado a “condenação” do dirigente sardo no âmbito do movimento comunista internacional [29]. Um episódio fundamental, que indica como a “gestão togliattiana” da herança de Gramsci não fosse, nem em 1938, um dado definitivo.
Se formos além de certas expressões que encontramos nestes textos, ligadas aos tristes condicionamentos da época, não se pode deixar de relevar como Togliatti delineia, de um modo ou de outro, um quadro substancialmente exato do pensamento e da obra de Gramsci a partir dos anos da I Guerra Mundial. Não só um mártir assassinado pelo fascismo (como Amendola, Gobetti, Matteotti), não só um “grande italiano” combatente pela liberdade (como Dante e Galileu, Bruno e Campanella, Mazzini e Garibaldi), mas também um marxista e um revolucionário conseqüente: não só um intelectual, mas um combatente político. Eram assim reconstruídos - com o pensamento gramsciano - a recepção do Outubro na Itália e o período dos conselhos, a alternativa entre reação e revolução, a questão meridional e a perspectiva da aliança entre operários e camponeses (as “forças motrizes da revolução italiana” [30]), a concepção do partido como partido de massas e não de elite. E não se trata de um escrito puramente celebrativo: Gramsci também tinha cometido erros (e, para Togliatti, era também uma autocrítica), quando, por exemplo, o grupo de L’Ordine Nuovo, no “biênio vermelho” de 1919-1920, não se havia organizado em base nacional, deixando assim a Bordiga a direção da ala comunista do PSI, ou quando, em 1922, não havia começado logo a batalha política contra a direção bordiguiana. Apesar de algumas distorções, a reconstrução dos acontecimentos históricos colhia a substância dos processos vividos em comum pelos dois dirigentes comunistas. Restavam em silêncio as divergências de 1926 e de 1929-1930: um preço pago no altar da salvaguarda da memória de Gramsci e de sua herança através das vicissitudes do stalinismo. Um preço não desprezível, o qual, no entanto, não pode ser superestimado, a não ser se equipararmos indevidamente nossa consciência e liberdade - nós, leitores de hoje - com as dos atores de então.
Acima de tudo, o que deve ser sublinhado no escrito de 1937-1938 é que o núcleo do ensinamento gramsciano era colhido por Togliatti - e constituía uma indicação que a leitura subseqüente dos Cadernos iria reforçar notavelmente e que hoje, erradamente, se tende a negar ou inverter de modo desenvolto, numa ânsia equívoca de “atualização” - na indicação “da classe operária como a primeira, a única, a verdadeira classe nacional, à qual cabe resolver todos os problemas que não foram resolvidos pela burguesia e pela revolução burguesa” [31]. A capacidade de compreender como o movimento comunista, mesmo continuando a ser internacionalista, não podia deixar de se inserir profundamente na realidade nacional, para desempenhar um papel efetivo e não se reduzir a puro testemunho ou agitação minoritária, será o eixo do ensinamento gramsciano que Togliatti vai pôr no centro da própria ação política e que vai assinalar um período importante de lutas e de conquistas, sobretudo a partir do fim do fascismo [32]. Portanto, uma convicção que não só está presente desde os anos trinta, mas que desde então estava diretamente ligada ao pensamento de Gramsci, elaboração que Togliatti podia valorizar plenamente no novo período do movimento comunista internacional iniciado em 1934-1935. “Nos últimos tempos - a afirmação de Togliatti já está no discurso feito em Moscou um mês depois da morte do comunista sardo -, tendo tido sinal do VII Congresso da Internacional, todo o seu pensamento estava orientado para a busca das formas de realização da frente popular antifascista na Itália [...]. A sua idéia fundamental era que, depois de quinze anos de ditadura fascista que desorganizou a classe operária, não é possível que a luta de classes contra a burguesia reacionária recomece a se desenvolver a partir das posições que o proletariado tinha alcançado no imediato pós-guerra. Indispensável é um período de luta pelas liberdades democráticas e a classe operária deve estar à frente desta luta” [33]. O Gramsci togliattiano e a política togliattiana do pós-guerra - uma política democrática e nacional - já estavam claramente presentes desde 1937-1938.

3. De volta à Itália em março de 1944, Togliatti imprimiu aquela “virada de Salerno”, que não significou apenas uma mudança da política comunista quanto à monarquia e à questão institucional, no âmbito da luta contra o nazifascismo, mas também o início de um novo modo de ser do Partido Comunista Italiano, sob muitos aspectos distante da tradição e da matriz terceiro-internacionalista da qual provinha. As novidades da política togliattiana podem ser resumidas, antes de mais nada, na concepção do “partido novo” e na ênfase sobre o caráter democrático e nacional da ação do PCI. E, embora tal formulação talvez encontrasse suas raízes sobretudo em alguns momentos do percurso togliattiano dos anos trinta (a época das frentes populares, a experiência da guerra civil espanhola, a reflexão sobre as novas características do fascismo e da sociedade de massas), as referências a Gramsci, em busca de apoio a esta nova política, eram muito freqüentes neste período [34].
Não devem ser subestimadas as indiscutíveis distinções existentes entre a elaboração de Gramsci no cárcere e a elaboração teórico-política togliattiana: a “guerra de posição” gramsciana era uma estratégia de alcance mais amplo em relação à “política de unidade antifascista” do PCI no pós-guerra, ela indicava modos novos de luta anticapitalista e de transição ao socialismo que Togliatti e seu partido só em parte souberam e puderam tentar. E não deve ser esquecido que as características da política que Togliatti pôde desenvolver a partir de Salerno, numa situação por muitos aspectos nova, também se distanciam de Gramsci quanto à aceitação do pluralismo e da democracia política. Pode-se afirmar que Togliatti realizou amplamente uma política de inspiração gramsciana, nos limites em que isso lhe era permitido por seu realismo no mundo pós-Yalta.
Em 1944, Gramsci era, para a maioria, e até para os próprios militantes do PCI, um desconhecido. Foi Togliatti quem dele fez, ao cabo de poucos anos, o ponto de referência da política e da cultura dos comunistas italianos. Não foi um caminho obrigatório mas uma escolha precisa, que se explica, antes de mais nada, com a formação política e cultural comum e com a reflexão distinta, mas não divergente, dos anos trinta: uma relação complexa, com luzes e sombras, mas também profunda. Ao lado disso, houve a necessidade de reiterar a peculiaridade do comunismo italiano, de reafirmar (ainda que sem romper com a URSS, inclusive à custa de inúmeros sincretismos) uma linha política que Togliatti havia levado adiante sempre que as relações de força, internas ou externas ao movimento comunista internacional, lhe possibilitaram. A tentativa togliattiana era também a de dar uma tradição histórica a seu partido e às massas que o seguiam, bem como a de ligar àquele e a estas últimas os intelectuais antifascistas, indicando o exemplo de um “grande intelectual” a ser seguido. Se é verdade que, apresentando a própria política como “a política de Gramsci”, Togliatti cometia (só em parte) uma distorção historiográfica, também é verdade que ele assim fornecia uma ancoragem forte ao “partido novo”, vencendo as resistências dos setores mais ligados à URSS ou às ilusões insurrecionais.
Desde o momento em que pôde falar de Gramsci na Itália libertada (ou parcialmente libertada) pelo nazifascismo, Togliatti recordou sua indicação de uma política “nacional” [35], de uma política de alianças entre operários, camponeses e intelectuais [36], baseada na “função nacional da classe operária” [37]. Assim, a “política de Salerno” se identificava com a leitura de Gramsci, apontando um fio condutor que já começava - segundo Togliatti - com L’Ordine Nuovo, cuja interpretação, já contida nos escritos dos anos trinta, era esboçada e seria repetida várias vezes. A mensagem que a referência a Gramsci devia veicular ia além do corpo dos militantes do PCI, buscava atingir a todos os italianos. A política de unidade antifascista, na qual Togliatti se basearia por todo o pós-guerra, tinha em Gramsci um ponto de referência fundamental. No discurso pronunciado no Teatro San Carlo, de Nápoles, em 29 de abril de 1945, referindo-se a 1924-1926, Togliatti afirmava que “a idéia central da ação política de Gramsci foi a idéia da unidade: unidade dos partidos operários na luta pela defesa das instituições democráticas e pela derrubada do fascismo; unidade dos partidos operários com as forças democráticas [...]; unidade das massas trabalhadoras socialistas com as massas trabalhadoras católicas da cidade e do campo, unidade dos operários, unidade de operários e camponeses, unidade de trabalhadores manuais e intelectuais, para a criação de um grande bloco de forças nacionais, com base no qual fosse possível barrar o caminho de novos avanços do fascismo e salvar - como então ainda teria sido possível - o nosso país” [38]. Na realidade, esta linha política da unidade - claramente projetada para a situação do pós-guerra - tinha fundamento, sobretudo, nas reflexões carcerárias do Gramsci que indicava o objetivo da Constituinte. Seja como for, Togliatti permanecia dentro de um caminho, de uma tradição, de uma metodologia, de indicações que eram as de Gramsci, ainda que pouco ou nada este pudesse dizer, na metade dos anos trinta, para não falar da década anterior, sobre a situação inteiramente nova que se criaria com a derrota do nazifascismo. Togliatti permaneceu coerente com esta formulação política, mesmo num quadro nacional e internacional que mudava rapidamente. Ainda em 1947, ele advertia: “Ai de nós, comunistas, se acreditássemos que o patrimônio de Antonio Gramsci é somente nosso. Não, este patrimônio é de todos, de todos os sardos, de todos os italianos, de todos os trabalhadores que combatem pela sua emancipação, seja qual for a sua fé religiosa, seja qual for a sua crença política” [39]. Este “Gramsci de todos”, contra o qual por muito tempo se iria polemizar “à esquerda” nos anos sessenta e setenta, era momento importante de uma luta pela hegemonia, que, então, Togliatti considerava mais aberta do que fosse na realidade. Em poucos meses, com o fim da unidade das forças antifascistas, se fecharia um período histórico e mudaria, mas só em parte, a leitura togliattiana do comunista sardo. Apesar de limites e certos deslocamentos, a operação em torno de Gramsci resta uma operação político-cultural de amplo fôlego, cujo alcance se mostraria ainda mais evidente nos anos sombrios da guerra fria.
Naqueles anos, além disso, Gramsci serviu a Togliatti e ao PCI para instaurar uma relação com os intelectuais, então tornada complexa até mesmo pelas fortes diferenciações que caracterizavam estes últimos. A todos eles, mas sobretudo aos de cultura neo-idealista, o PCI tentou falar através de Gramsci, sua figura, seus escritos, tentando dar a muitos um terreno de unidade-distinção com a formação crociana anterior e, assim, também permitindo um parcial “transformismo dos intelectuais” [40]. Acima de tudo, na formulação togliattiana, cabia “aos intelectuais de vanguarda” ser “herdeiros de tudo aquilo que existe de positivo e de progressista no desenvolvimento da cultura do nosso país” [41]. A atitude em relação ao próprio Croce não estava isenta de oscilações, com a alternância de tons mais conciliadores e de tons mais duros. Entre os primeiros, pode-se encontrar o juízo segundo o qual Gramsci havia compreendido “que a nova cultura idealista italiana representava um passo adiante no desenvolvimento da nossa cultura nacional [...], que não era possível adotar uma atitude estritamente negativa em relação a esta nova corrente intelectual, mas ele afirmava que devemos realizar, diante desta corrente filosófica, uma operação análoga àquela que Marx e Engels realizaram em seu tempo, quando, em relação às fórmulas hegelianas, fizeram o que definiram como inversão da dialética hegeliana” [42]. Entre os segundos, para continuar no âmbito dos escritos sobre Gramsci, a própria reação à resenha que Croce havia escrito sobre as Cartas do cárcere, tentando contrapor Gramsci ao PCI [43]. “Como homem de pensamento, ele foi um dos nossos”, havia escrito o filósofo liberal, relacionando as características que aproximavam Gramsci do neo-idealismo (“O renovado conceito da filosofia na sua tradição especulativa e dialética, e não positivista e classificatória, a ampla visão da história, a união da erudição e do filosofar, o sentimento vivíssimo da poesia e da arte no seu caráter original, e, com isso, o caminho aberto para reconhecer, na sua originalidade e autonomia, todas as categorias ideais”) e contrapondo-o “aos intelectuais comunistas de hoje”, que “muito se afastam do exemplo de Gramsci”. Talvez por causa desta última afirmação instrumental, mas, mais provavelmente, por causa de um outro (pouco contestável) juízo de Croce, que contrapusera Gramsci ao “catecismo filosófico escrito por Stalin”, Togliatti reagiu com um tom incomumente rude à estocada de “Dom Benedetto” [44].
De todo modo, a semente do marxismo gramsciano tinha sido lançada: um marxismo antidogmático, antideterminista, antifatalista, portanto muito mais vital e destinado a durar do que tantos “catecismos filosóficos”. Como, de resto, o próprio Togliatti tinha sublinhado desde 1945, em polêmica com Ernesto Buonaiuti, historiador católico-modernista. A este, que havia afirmado que o método da análise gramsciana era “não-marxista”, porque mais atento aos fatos superestruturais do que aos estruturais, Togliatti respondia que “o marxista não reduz e não pode reduzir a análise dos fatos históricos e políticos ao destaque de uma simples relação de causa e efeito entre uma situação econômica e uma situação político-social”, porque “a própria relação de causalidade é algo muito complicado e implica ação e reação, interdependência e contraste” [45]. E indicava o traço distintivo de Gramsci justamente na compreensão do sistema de mediações através do qual se chega da “economia” às “correntes de pensamento e de cultura”, permitindo “intervir ativamente, como vanguarda organizada, para modificar o desenvolvimento histórico”. Uma precisa acentuação da riqueza do método gramsciano e de seus traços salientes, ainda hoje fundamental para compreender a lição dos Cadernos.

4. Depois de 1948 e do início da “guerra fria”, mudava em parte a política do PCI: a “política de Salerno” se enfraquecia com a dureza da luta, a política cultural, a batalha ideológica, a própria relação com os intelectuais sofriam um enrijecimento. A originalidade dos comunistas italianos não desaparecia, mas a contradição entre a “via italiana” e a apaixonada adesão à linha comunista estabelecida em torno da URSS provocava, também no PCI e em Togliatti, o surgimento e o ressurgimento de pesadas hipotecas stalinistas e zdanovianas. A estratégia togliattiana baseava-se na hipótese de um longo período de colaboração entre os partidos democráticos, ditada não só pelos acordos de Yalta mas por uma análise do fascismo como fase epocal, que levava Togliatti a temer a possibilidade de um retorno a formas abertamente reacionárias de hegemonia burguesa. Pelo menos até 1953, a ênfase sobre o risco de involução era tão forte que tornava os comunistas pouco sensíveis diante dos processos de modernização que estavam em curso no país [46]. Tal atitude também nascia de uma equivocada convicção básica de toda a cultura terceiro-internacionalista, segundo a qual era impossível um novo desenvolvimento do capitalismo. Este erro de avaliação, que talvez tenha constituído o limite principal do “marxismo de Togliatti” durante uma longa fase, revela-se ainda mais grave porque precisamente em Gramsci, em Americanismo e fordismo, estava disponível uma leitura bem diversa da capacidade expansiva do capitalismo. Não casualmente, este texto permaneceu por muito tempo letra morta, estranho como era à visão estagnacionista dos comunistas; ao contrário, o prefácio escrito em 1949 por Felice Platone para uma edição de divulgação do Caderno 22 [47], depois de lembrar L’Ordine Nuovo e antes de encerrar com uma referência à “questão meridional”, se preocupava em advertir o leitor contra a idéia de também considerar ainda atuais as análises de Gramsci no tocante aos Estados Unidos: “Hoje, depois de uma segunda guerra mundial, temos diante dos nossos olhos um país do fordismo bastante diferente daquele que Gramsci conhecia [...]. A América vive hoje sob o pesadelo de uma nova crise econômica, olha com apreensão a massa crescente dos seus desempregados” [48]. Seria preciso esperar até o início dos anos setenta para que se começasse a reconhecer a importância das notas de Americanismo e fordismo [49].
Nesta fase, entre 1948 e 1953, acentuou-se a convicção da necessidade de estabelecer uma relação com uma tradição nacional-democrática (sobretudo, ao longo do eixo De Sanctis-Labriola), da qual o marxismo italiano podia se tornar o herdeiro graças ao papel de conexão constituído por Gramsci. E, se em 1945 Togliatti - na polêmica com Buonaiuti - tinha problematizado muito a relação Labriola-Gramsci, a partir de 1948 insistirá sobre sua continuidade: Gramsci será definido como “o maior discípulo e continuador de Labriola” [50].
A publicação dos Cadernos do cárcere entre 1948 e 1951, pela Ed. Einaudi, acontecida, portanto, num período de grandes dificuldades, entre riscos de isolamento e perigos de involução stalinista, contribuiu para dar de modo definitivo uma identidade peculiar ao PCI [51]. E, precisamente por isso, não deixou de suscitar surpresa e mesmo desorientação [52]. Os Cadernos, de fato, se apresentavam como alternativa radical ao marxismo mecanicista do Diamat, à ortodoxia marxista-leninista de marca staliniana. Togliatti estava consciente das conseqüências problemáticas que a publicação podia comportar [53]. Assim, a divisão temática, o tipo de “montagem” e disposição dos textos por ele escolhidos também eram o meio pelo qual se compatibilizava de algum modo (mas não inteiramente, segundo os testemunhos citados) ortodoxia soviética e legado gramsciano, orientando a leitura deste último na direção da “especificidade nacional” e não na das grandes disputas do movimento operário internacional dos anos vinte e trinta.
Seja como for, a subdivisão dos Cadernos segundo bases temáticas, ainda que filologicamente criticável e não isenta de algumas censuras, teve o mérito de favorecer enormemente sua difusão e impacto cultural, ainda que provocasse inúmeros fenômeno de sincretismo [54]. Em relação ao mundo da cultura, reiterava-se, sobretudo, uma divisão clássica do saber, ocultando em grande parte o nexo entre reflexão carcerária e história do movimento comunista. O efeito de ruptura que os Cadernos tiveram no panorama intelectual italiano foi enorme, produzindo uma renovação profunda em vários campos, da história à literatura, dos estudos sobre o folclore ao pensamento político, à pedagogia, etc. Em geral, pode-se dizer que “o reconhecimento do terreno nacional”, pretendido por Gramsci, foi sobretudo um reexame historiográfico: do Risorgimento à questão meridional e à história dos intelectuais. De resto, era o próprio Togliatti quem propugnava esta direção: ainda intervindo na reunião da comissão cultural nacional do PCI, em 3 de abril de 1952, ele sublinhava a necessidade de uma investigação marxista sobre a história da Itália e da valorização dos fins progressistas da tradição cultural nacional, como busca de um terreno de encontro com a cultura de nosso país [55]. O que também era o modo e o meio para se distanciar do modelo staliniano-zdanovista, sem, ao mesmo tempo, determinar uma ruptura aberta, politicamente insustentável.
Um episódio significativo, que demonstra como Gramsci e sua lição no campo historiográfico não fossem algo dado, mas constituíam objeto de disputa com aqueles que permaneciam fiéis aos vários “catecismos” marxistas-leninistas, é o episódio da divergência entre um grupo de historiadores comunistas e Arturo Colombi. Este (chamado pelo diretor Ambrogio Donini a apresentar uma reunião de especialistas no Instituto Gramsci) acusou os historiadores de se afastarem demais do modelo fornecido pelo Breve curso de história do PC(b), de Stalin, preferindo usar as categorias e a terminologia dos Cadernos. Na carta que, depois deste episódio, Togliatti escreveu a Donini, em apoio às posições daqueles historiadores, lê-se entre outras coisas: “Se hoje, na Itália, conseguimos estabelecer amplos contatos com o mundo da cultura e nele penetrar, isso se deve ao fato de que evitamos a posição de juízes que se colocam de fora e tentamos desenvolver a nossa competência, favorecemos e realizamos investigações objetivas, não rechaçamos ou, pior ainda, ignoramos o que vem de outras áreas, entramos e permanecemos no debate sem ostentar pretensões de infalibilidade. Aqui está, de resto, um dos motivos do grande sucesso da obra de Gramsci, que chegou até os juízos mais duros, mas sempre seguindo passo a passo o adversário, com escrúpulo de filólogo e de verdadeiro estudioso [...]. Gramsci inaugurou uma historiografia marxista do nosso país e, portanto, também do nosso movimento operário. Talvez fosse melhor partir de Gramsci e captar bem a novidade do seu pensamento historiográfico. Quanto à crítica ao uso de uma terminologia inexata por parte de Gramsci [...], este se expressa tal como os estudiosos do seu tempo e do seu país, sem fazer nenhuma concessão na substância dos juízos. Daí a sua eficácia e mesmo a vitalidade e a vivacidade das suas posições. Por isso, o marxismo, nele, se torna instrumento de uma luta destrutiva e construtiva que a cultura italiana não pôde ignorar. Em cada país, o marxismo deve saber lutar no terreno da cultura nacional, das suas tradições, do seu modo de ser e desenvolver, se quiser se tornar elemento ativo e determinante deste desenvolvimento” [56].
Por um lado, Togliatti reiterava a especificidade da contribuição cultural gramsciana, por outro, nas intervenções interpretativas dos anos 1948-1954, ele voltava sempre a repetir que a investigação de Gramsci partia da política, das necessidades da luta. Em 1949, na Universidade de Turim, num discurso que certamente trazia a marca do lugar e do público diante do qual era pronunciado, Togliatti se deteve na formação cultural de Gramsci, relembrando o clima no qual ela tinha ocorrido; os limites de tal formação só podiam ser superados “fazendo com que os homens reencontrassem a unidade de ser e pensar, e fazendo com que reencontrassem esta unidade na história concreta, nas lutas concretas para conseguir transformar e renovar o país, criando nele novas relações econômicas e sociais” [57]. Mas, se L’Ordine Nuovo “tinha nascido na Universidade de Turim”, isto fora possível porque “havia uma outra realidade, que, então, atingiu Gramsci e outros entre nós, profundamente”: o movimento operário e, em seguida, o impacto decisivo da revolução bolchevique. Da separação entre intelectuais e povo no início do século XX ao novo nexo tentado por L’Ordine Nuovo e à hipótese de uma reaproximação nos anos difíceis da “guerra fria”, que Togliatti estimulava com a referência ao pensamento e à ação de Gramsci: este é o sentido da operação político-cultural posta em prática pelo líder do PCI, marcada por limites indiscutíveis mas rica de resultados significativos.
A conferência de 1952 sobre “O antifascismo de Antonio Gramsci”, em Bari, era ainda mais densa de motivos históricos, políticos e teóricos. Também aqui o sentido básico dos Cadernos era indicado com clareza. Com efeito, Togliatti afirmava: “Uma pergunta não formulada nos acompanha, se soubermos ler, caderno por caderno, página por página: como isso foi possível; como isso poderá desaparecer?” [58]. Um ano havia passado desde a publicação completa da edição temática, a qual, no entanto - junto com as Cartas -, produzira alguns equívocos, levando muitos a ver em Gramsci sobretudo o intelectual que tinha escrito für ewig. Ao contrário, Togliatti indicava claramente que toda a reflexão do cárcere tinha partido de uma questão política - a necessidade de explicar a derrota epocal do movimento operário - e de um desafio para a práxis: como reerguer-se, como voltar à ofensiva? Tudo - a história da Itália, a investigação sobre os intelectuais - tinha aqui o próprio centro, a própria mola propulsora. Daqui partia “uma nova ciência, da nossa história e da nossa política” [59]. Já antes de 1956, pois, Togliatti indicava o terreno inteiramente político da investigação gramsciana. E em 1954, resenhando o primeiro volume dos escritos pré-carcerários, relativo aos anos 1919-1920, recém-publicado pela Ed. Einaudi, o motivo era reiterado com vigor: “Os escritos do cárcere, portanto, não estão fora da luta política que os antecedeu; são parte integrante, quase o coroamento dela” [60]. Com isso, abria-se o caminho (embora percorrido apenas depois da desestalinização) para contextualizar a figura e a obra de Gramsci, retirando-a da luz quase legendária na qual ainda estava envolvida, e para promover uma releitura dos Cadernos mais atenta à realidade histórico-política à qual se referiam.

5. Depois de 1956, começa uma nova fase não só na história das leituras togliattianas de Gramsci, mas de toda a elaboração do dirigente comunista, fase que iria culminar no Memorial de Yalta. Tanto a necessidade de repensar a política do PCI - não só relançando o traço mais original e característico da “política de Salerno”, mas buscando os caminhos de uma nova estratégia, depois da crise e da falência do caminho experimentado no “Oriente” - quanto a crise profunda das relações com os intelectuais levaram a fazer novas perguntas também a Gramsci. A reflexão sobre as razões da derrota da revolução no Ocidente fazia de Gramsci um ponto de referência original, ainda que defendendo a tradição teórica e política que vinha de Outubro: ele - afirmava Togliatti - “abre o caminho para o estudo das diferentes formas que a própria ditadura da classe operária assume nas suas diferentes fases e pode assumir em países diferentes. É um novo capítulo do leninismo que se discute, aquele em cuja elaboração completa está hoje trabalhando o movimento operário internacional” [61]. Gramsci havia indicado hipóteses novas de luta pelo socialismo, as quais, depois do dramático impasse do caminho soviético, retomavam vigor com toda a evidência. Se a isso acrescentarmos a publicação dos escritos pré-carcerários, o interesse antidogmático manifestado pelas novas tendências marxistas que cada vez mais se difundiam a partir de 1956, assim como o fim do longo período no qual a historiografia do movimento comunista tinha sido de fato subtraída aos historiadores comunistas e reservada aos dirigentes de partido, compreende-se bem como o conjunto destes fatores levasse a arquivar inteiramente a imagem do “grande intelectual” interessado no für ewig, para fazer surgir o Gramsci teórico da política, e teórico para a práxis.
Portanto, não é casual que muitas intervenções diretamente políticas de Togliatti (relatórios em várias reuniões de comitê central ou também em importantes assembléias congressuais), naquele ano de 1956, fizessem menção ao autor dos Cadernos. Um Gramsci relido e interrogado em estreita relação com os problemas estratégicos do movimento comunista, cujo dever ser “nacional” era colocado num preciso panorama internacional e internacionalista; um Gramsci ao qual se fazia remontar a origem da “via italiana para o socialismo”; um Gramsci, enfim, que também se tornava objeto de disputa política, com aquelas tendências, internas e externas ao PCI, que eram de algum modo críticas em relação à gestão togliattiana da desestalinização [62].
A interpretação de Gramsci formulada por Togliatti nos anos 1956-1958 estava construída sobre o nexo entre Gramsci e o leninismo [63]. Ser “leninista” significava reafirmar a relação com a tradição bolchevique e revolucionária, reduzindo o papel de Stalin, voltando às razões de ser originais do movimento comunista. Mas também relançar a “via italiana para o socialismo”, isto é, ser “nacional” de modo novo: retomando a leitura criativa do leninismo, que Gramsci havia levado adiante com base na distinção entre “Oriente” e “Ocidente” (guerra de posição, hegemonia, bloco histórico), com um “reconhecimento do terreno nacional” semelhante ao que Lenin havia realizado na Rússia. Mais precisamente, Togliatti fazia remontar a Lenin a convicção de que “são possíveis e necessários diferentes caminhos de desenvolvimento do movimento revolucionário da classe operária, em diferentes situações históricas” [64]. Portanto, era preciso ser leninista sobretudo no sentido de ser capaz de traduzir - como Gramsci havia tentado - o leninismo na Itália: “Assim, no modo como Gramsci interpreta e renova a doutrina do marxismo revolucionário - afirmava Togliatti - está implícita a afirmação da necessidade do avanço para o socialismo por um caminho nacional, determinado pelas condições históricas do nosso país. É esta via nacional que ele nos quis abrir” [65]. Daqui partia a perspectiva de uma elaboração cada vez mais autônoma dos comunistas italianos, que tinha fundamento em Gramsci, que fora parcialmente abandonada e, agora, era necessário voltar a experimentar. Um nexo de continuidade e inovação com a tradição, que, no entanto, apresentava dois limites. Antes de tudo, ficavam bem na sombra precisamente as peculiaridades que impediam colocar Gramsci no âmbito de um horizonte puramente leninista, uma vez que ele não é uma “variante” do leninismo, mas o autor de uma teoria e de uma estratégia sem dúvida ligadas historicamente às do líder bolchevique, mas também autonomamente significativas. Em segundo lugar, insistir em Gramsci como ponto de origem da “via italiana para o socialismo” significava renunciar, de fato, a indicá-lo como novo ponto de referência possível de todo o movimento comunista, pelo menos ocidental. Havia, pois, em Togliatti, um historicismo prudente, que permitia na Itália inovações teórico-políticas de grande relevo [66], mas que, como norma, tomava o cuidado de não acirrar os elementos de atrito com Moscou, de não romper com o modelo soviético. Esta escolha levava Togliatti até a enrijecer o nexo estrutura-superestrutura, com o fim de defender a suposta superioridade da “democracia” soviética: se a mudança no plano estrutural havia acontecido, não podia deixar também de ocorrer na URSS, cedo ou tarde, uma plena libertação no plano superestrutural, político [67]. No entanto, sobre o caráter dialético da relação estrutura-superestrutura, sobre o caráter não-unidirecional e não-mecânico de seu nexo (claramente indicados por Gramsci), Togliatti havia várias vezes insistido e mesmo aqui voltava a insistir, afirmando que já em L’Ordine Nuovo estavam “em germe as reflexões mais profundas dos Cadernos sobre a relação recíproca entre estrutura e superestrutura, sobre a unidade de economia e de política no conjunto da realidade social” [68]. Uma observação ainda hoje de grande importância, se pensarmos em como é recorrente - por exemplo, diante do fenômeno da mundialização - a tentação de sublinhar a prioridade absoluta do “econômico” e do “social” (tal como, em outros momentos, do “político”), sem considerar suficientemente o fato de que a distinção entre eles - recordava Togliatti, na trilha de Gramsci - “é somente metodológica, não orgânica” [69].
A interpretação que Togliatti propunha em 1956-1958 era, de todo modo, um notável passo adiante no caminho de uma leitura de “Gramsci segundo Gramsci”, rica de indicações e sugestões ainda hoje válidas. Começava aqui a descoberta de um Gramsci diferente, “teórico da política, mas sobretudo [...] político prático, isto é, um combatente [...]. Na política - afirmava Togliatti - deve ser buscada a unidade da vida de Antonio Gramsci” [70]. Um fio condutor que partia “dos tempos da juventude” e se desenvolvia “até a detenção e mesmo depois”. Uma indicação, esta última, que ilumina a leitura dos Cadernos: Togliatti antecipava a difusa concepção que seria mais tarde alcançada a este respeito. Ele dava início a um novo período de estudos, situando-o num plano novo, aquele construído a partir da trama da militância política. Apesar das simplificações presentes, um passo à frente decisivo para superar o Gramsci da edição temática, o grande intelectual, ora filósofo, ora historiador, ora estudioso da literatura, etc., para delinear a figura de um grande pensador do movimento comunista inserido no debate internacional, que alcança a própria maturidade teórica no âmbito de um preciso horizonte e de uma colocação historicamente determinada.

6. O último capítulo das leituras togliattianas de Gramsci está dedicado, em geral, a uma importante obra de balanço ao mesmo tempo historiográfico e teórico, que acompanha e estimula a publicação das obras gramscianas ou sua reedição [71]. A nova fase historiográfica, possibilitada pela desestalinização, tem um momento fundamental no ensaio togliattiano “A formação do grupo dirigente do Partido Comunista Italiano em 1923-1924”. Devido à grande importância que a tradição histórica tinha tido tanto na história do comunismo internacional quanto na do PCI, reexaminar, de modo crítico, episódios e figuras de tal história significava tentar redefinir a identidade do partido em sentido laico, dessacralizado. Libertando a reconstrução histórica da influência direta da política e de suas exigências (o módulo típico do stalinismo, ao qual até mesmo Togliatti se submetera parcialmente em fases anteriores), uma verdadeira “revolução historiográfica” era encorajada e teorizado pelo próprio Togliatti, que escrevia: “Considero que é um grave erro, ao expor a história do movimento operário e, particularmente, do partido no qual se milita e do qual se foi e é dirigente, sustentar e fazer esforços para demonstrar que este partido e sua direção sempre se conduziram bem, no melhor modo possível. Deste modo, termina-se por fazer a representação de uma ininterrupta procissão triunfal. E é uma representação falsa, longe da realidade e por esta refutada [...]. A linha justa provavelmente foi sempre buscada com o ânimo e a boa-fé do combatente. Mas a solução justa foi encontrada [...] através de hesitações e debates, e também cometendo erros, seguindo às vezes orientações incorretas ou não correspondentes, de modo concreto, às situações e às tarefas a estas adequadas” [72]. No ensaio que introduzia a correspondência entre Gramsci (de Moscou e Viena) e Togliatti, Scoccimarro, Terracini e Leonetti, bem como a publicação de documentos e artigos da época, material em grande parte inédito, proveniente do Arquivo Tasca e do Arquivo do PCI, Togliatti procedia menos a uma correção das linhas interpretativas de suas intervenções anteriores sobre Gramsci e os primeiros anos de vida do PCI do que a um preenchimento dos vazios de conhecimento, a uma iluminação de zonas de sombra, a uma explicitação dos elementos e juízos anteriormente só mencionados ou subentendidos, a uma reiteração dos juízos críticos, mas de modo novo, de forma não demonizadora, mais equilibrada nas análises e avaliações. Uma lição de estilo, fortemente inovadora da prática até então seguida pelas cúpulas dos partidos comunistas, que ajudou a renovação da historiografia comunista. À parte as questões de mérito, restava um método historiográfico, que não seria mais rechaçado. A este respeito, não sem valor é o fato de que as páginas de Rinascita é que vão abrigar, por todo o decorrer dos anos sessenta, documentos, cartas, análises relativas às vicissitudes históricas do PCI: basta mencionar o caso, entre os mais significativos, da publicação - ainda vivo Togliatti - da troca de cartas de 1926 sobre a luta interna do PCUS [73].
Entre as contribuições “historiográficas”, inclusive pelas implicações relativas a Gramsci (cuja fundamental categoria de “revolução passiva” era pela primeira vez ressaltada), deve-se recordar a conferência “As classes populares do Risorgimento”, proferida em Turim, em 13 de abril de 1962, na qual Togliatti afirmava, polemizando com Rosario Romeo: “Ao contrário, o pensamento de Gramsci nos orienta no sentido de reconhecer qual foi a verdadeira natureza do bloco histórico risorgimentale, fundamento do novo Estado, resultante da combinação de uma vontade (da direita) com uma incapacidade (da esquerda). Nesta combinação, estava latente uma colaboração, que se efetivou, no vértice do novo Estado, com a política transformista. Com efeito, as duas alas tinham agido para fazer do Risorgimento uma ‘revolução passiva’, isto é, uma revolução sem revolução, sem aquela contribuição decisiva e contínua do movimento das massas, que não permite parar e leva às transformações mais profundas” [74]. Comentando em seguida a citada antologia de L’Ordine Nuovo, Togliatti voltava à relação conselhos-partido, rechaçando mais uma vez a tese da subestimação do partido por parte do jovem Gramsci. É verdade, o comunista sardo estava longe de considerar “que a instauração do poder proletário [pudesse] ser concebida como uma ditadura das seções do partido” (o que também era uma clara tomada de distância em face de um certo modelo que veio a prevalecer historicamente na União Soviética). Mas - acrescentava Togliatti logo em seguida -, para Gramsci, o processo revolucionário “requer uma direção consciente. O partido é o ‘agente máximo’ deste processo. A nova consciência histórica dos trabalhadores [...] tem na força política, na organização do partido, aquele baluarte poderoso sem o qual não poderia se afirmar e triunfar” [75].
O último escrito de Togliatti dedicado a Gramsci é um breve artigo, publicado no Paese Sera por ocasião do lançamento de 2.000 pagine di Gramsci, dois meses antes da morte do dirigente comunista em Yalta. Como se disse no início desta introdução, era a oportunidade para um balanço, até mesmo parcialmente autocrítico, sobre a relação entre o pensador sardo e os dirigentes e os intelectuais de seu partido, em primeiro lugar Togliatti, que haviam interpretado sua obra em relação às preocupações e exigências derivadas da práxis, da política [76]. Gramsci não se esgota na fundamentação da “via italiana para o socialismo” - afirmava Togliatti -, tem uma densidade capaz de promover uma reflexão mais geral, tornada mais urgente pela crise profunda que vive o movimento comunista internacional.
Também emergia a recordação comovida não só de Gramsci como teórico e militante político, mas como “homem”, exemplo dramático de tensão entre teoria e práxis, entre limites da pessoa e luta por sua superação. Um exemplo para o qual Togliatti não havia nunca deixado de olhar com admiração e reverência. Muitos elementos interpretativos dos anos compreendidos entre 1927 e 1964 ressentem-se, como é óbvio, do tempo de que são o produto e, hoje, nos aparecem sobretudo em sua caducidade. Mas outros permanecem fundamentais para compreender Gramsci e seu legado. A indicação da política como motor de toda a sua investigação; a visão dialética do nexo estrutura-superestrutura e sociedade-Estado como centro de seu marxismo; a convicção de que o momento “nacional” dificilmente pode ser evitado na luta pela hegemonia: como não ver a correção e a utilidade de tais chaves hermenêuticas, diante de tantas interpretações modernas, culturalistas, neo-idealistas, “liberais”, às vezes interessantes e até mesmo prova intrínseca da grandeza de um autor capaz de atrair públicos diversos, mas também, freqüentemente, excessivamente desenvoltas em esquecer os contornos reais da figura e da investigação do pensador sardo? Também por isso os pontos centrais da leitura togliattiana de Gramsci ainda podem ser úteis e não devem ser esquecidos.

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Guido Liguori, vice-presidente da International Gramsci Society, ensina História do Pensamento Político na Universidade da Calábria. Este texto foi publicado originalmente como introdução a Palmiro Togliatti. Scritti su Gramsci. Roma, Riuniti, 2001.
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Notas

[1] O próprio Togliatti organizou as duas primeiras coletâneas de seus escritos, lançadas, respectivamente, em 1949 e em 1955. Uma coletânea mais ampla foi organizada por Ernesto Ragionieri em 1967.

[2] Cf. Bibliografia gramsciana 1922-1988, organizada por John Cammett. Roma, Riuniti, 1991; Bibliografia gramsciana. Supplement updated to 1993, organizada por John Cammett e Maria Luisa Righi. Roma, Fondazione Istituto Gramsci, 1995. Uma atualização até o ano 2000, de próxima publicação, eleva o total de entradas da bibliografia das obras sobre Gramsci para cerca de 15 mil.

[3] Tentei uma reconstrução da história das interpretações gramscianas em Gramsci conteso. Storia di un dibattito 1922-1996 (Roma, Riuniti, 1996), onde também abordei o tema das leituras togliattianas. Não pude deixar de reapresentar aqui algumas das análises e considerações já formuladas naquele livro. No entanto, sobre outros pontos amadureci convicções parcialmente diversas.

[4] “Hoje, depois de percorrer uma a uma as páginas desta antologia, atravessadas por tantos motivos diferentes, que se entrelaçam e às vezes se confundem, mas nunca se perdem - pareceu-me que a pessoa de Antonio Gramsci se deve colocar numa luz mais viva, que transcende as vicissitudes históricas do nosso partido” (Palmiro Togliatti. “Gramsci, un uomo” [1964]).

[5] Michele Pistillo. Gramsci-Togliatti. Polemiche e dissensi nel 1926. Manduria-Bari-Roma, Lacaita, 1996; Giuseppe Vacca. Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca. Il carteggio del 1926. Chiara Daniele (Org.). Turim, Einaudi, 1999; Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci. Roma, Carocci, 1999, sobretudo p. 71 s.

[6] Cf. Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca. Il carteggio del 1926, cit., p. 153 s.

[7] Ib., p. 404-12 (carta de Gramsci de 14 de outubro de 1926).

[8] Ib., p. 402-3 (bilhete anexado à carta de 14 de outubro).

[9] Ib., p. 413 (fonograma de Togliatti ao birô político do PCI, 16 de outubro).

[10] Ib., p. 434 (fonograma do birô político a Togliatti, 26 de outubro).

[11] Ib., p. 435-9 (carta de Gramsci de 26 de outubro).

[12] Cf. Michele Pistillo. Gramsci-Togliatti. Polemiche e dissensi nel 1926, cit., p. 120-40; Id. “Gramsci, Togliatti, Grieco e lo scontro politico del 1926”. Critica marxista, 2000, n. 6.

[13] Cf. Antonio Gramsci. Quaderni del carcere. Valentino Gerratana (Ed.). Turim, Einaudi, 1975, p. 489 [Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001. v. 4, p. 265 s.]

[14] Biagio De Giovanni. La nottola di Minerva. Roma, Riuniti, 1989, p. 27.
[15] Cf., por exemplo, sobre o conhecido episódio da publicação do atestado do Dr. Arcangeli por parte de L’Humanité, Paolo Spriano. Gramsci in carcere e il partito. Roma, Riuniti, 1977, p. 155 s.; Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 79 e 117; mais em geral, sobre a questão das campanhas em favor de Gramsci: Claudio Natoli. “Gramsci in carcere: le campagne per la liberazione, il partito, l’Internazionale (1932-1933)”. Studi storici, 1995, n. 2; Id. “Le campagne per la liberazione di Gramsci, il Pcd’I e l’Internazionale (1934)”. Studi storici, 1999, n. 1.

[16] Cf., por exemplo, Aldo Natoli. “Introduzione”. In: Antonio Gramsci-Tatiana Schucht. Lettere 1926-1935. Aldo Natoli e Chiara Daniele (Eds.). Turim, Einaudi, 1997.

[17] Para a correta reconstrução do episódio, cf. Paolo Spriano. Gramsci in carcere, cit.; L’ultima ricerca di Paolo Spriano. Roma, L’Unità, 1988; Giuseppe Fiori. Gramsci, Togliatti, Stalin. Roma-Bari, Laterza, 1991; Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 78-106.

[18] Cf. o documento em Paolo Spriano. Gramsci in carcere... , cit., p. 155-6; cf. também Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 120.

[19] Palmiro Togliatti. “Antonio Gramsci un capo della classe operaia” [1927].

[20] Ainda em julho de 1929, na décima plenária da Internacional Comunista, Togliatti, Grieco e Di Vittorio tentaram defender a lição de Gramsci, ou seja, a visão não sectária e ligada à especificidade nacional, “popular” e não puramente “proletária”, da “revolução italiana”, diante das pressões da Internacional, capitulando com uma declaração de princípios, quase como um registro para o futuro. Disse Togliatti: “Será correto ou não colocar estes problemas nas discussões com os companheiros no centro do partido? Se o Komintern diz que não é correto, nós não os colocaremos mais; cada um de nós pensará estas coisas e não irá mais falar delas; dir-se-á somente que a revolução antifascista será uma revolução proletária. Mas cada um de nós vai pensar que não é de modo algum certo que teremos a sua direção desde o primeiro momento e vai pensar que poderemos conquistá-la só no decorrer da luta.” E mais ainda: “Sempre dissemos que era tarefa do nosso partido estudar a situação particular da Itália [...]. Se o Komintern nos pede que não mais o façamos, não vamos mais fazê-lo [...], mas, como não não se pode impedir que pensemos, vamos guardar estas coisas para nós e nos limitar a fazer afirmações gerais. Mas eu afirmo que este estudo deve ser feito” (Cf. Ernesto Ragionieri. Palmiro Togliatti. Per una biografia politica e intellettuale. Roma, Riuniti, 1976, p. 717). Sobre o episódio, cf. as equilibradas avaliações de Aldo Agosti. Palmiro Togliatti. Turim, Utet, 1996, p. 126-9.

[21] Até um estudioso como Aldo Natoli, freqüentemente excessivamente “suspeitoso” em relação a Togliatti e ao PCI, admitiu, falando dos primeiros anos 1930, que “Gramsci, por sua parte, demonstrou nutrir confiança em Sraffa e certamente sabia bem que este tinha uma relação direta com Togliatti” (Aldo Natoli. “Introduzione”. In: A. Gramsci-Tatiana Schucht. Lettere 1926-1935, cit. p. XXXIV).

[22] Permito-me mencionar meu livro Gramsci conteso, cit. p. 10 s.

[23] Bruno Tosin. Con Gramsci. Ricordi di uno della “vecchia guardia”. Roma, Riuniti, 1976, p. 98. Cf. também Athos Lisa. Memorie. Dall’ergastolo di Santo Stefano alla casa penale di Turi di Bari. Milão, Feltrinelli, 1973; e os testemunhos de Giovanni Lai, Sandro Pertini, Angelo Scucchia e Gustavo Trombetti. Gramsci vivo nelle testimonianze dei suoi contemporanei. Mimma Paulesu Quercioli (Ed.). Milão, Feltrinelli, 1977.

[24] Sobre esta questão, cf. os mencionados artigos de Claudio Natoli, que também destaca os atrasos, as lacunas e as contradições da ação em favor de Gramsci por parte dos comunistas.

[25] Além de “Antonio Gramsci capo della classe operaia italiana”, escrito publicado entre 1937 e 1938, fazemos referência aqui a “In memoria di Antonio Gramsci”, texto de um discurso comemorativo pronunciado em Moscou, em 27 de maio de 1937, e pouco depois lançado em russo. Este último escrito foi pela primeira vez indicado e publicado na Itália por Michele Pistillo, em Critica marxista, 1991, n. 6. Remetemos à introdução de Pistillo (“Un discorso sconosciuto di Togliatti su Gramsci del 1937”, na mesma revista) para informações adicionais e hipóteses de datação precisa de todos os escritos togliattianos de 1937-1938.

[26] Palmiro Togliatti. “In memoria di Antonio Gramsci”, cit.

[27] Id. “Antonio Gramsci capo della classe operaia”, cit.

[28] Ib.

[29] Cf. Paolo Spriano. Gramsci in carcere..., cit., p. 118-21, e Aldo Agosti. Palmiro Togliatti, cit., p. 214. Cf. também as interessantes descobertas historiográficas e as oportunas considerações contidas em Michele Pistillo. “Grieco ‘corresponsabile’ della lettera di Gramsci al Pcr del 1926”. Critica marxista, 2001, n. 1.

[30] Palmiro Togliatti. “Antonio Gramsci capo della classe operaia”, cit.

[31] Ib.

[32] Gramsci extrai esta convicção de Lenin: “O ponto que em minha opinião deve ser desenvolvido é o seguinte: como, segundo a filosofia da práxis (em sua manifestação política), seja na formulação de seu fundador, mas especialmente nos esclarecimentos dados por seu mais recente grande teórico, a situação internacional deve ser considerada em seu aspecto nacional. Realmente, a relação ‘nacional’ é o resultado de uma combinação ‘original’ única (em certo sentido), que deve ser compreendida e concebida nesta originalidade e unicidade se se quer dominá-la e dirigi-la. Por certo, o desenvolvimento é no sentido do internacionalismo, mas o ponto de partida é ‘nacional’, e é deste ponto de partida que se deve partir. Mas a perspectiva é internacional e não pode deixar de ser. É preciso, portanto, estudar exatamente a combinação de forças nacionais que a classe internacional deverá dirigir e desenvolver segundo a perspectiva e as diretrizes internacionais. A classe dirigente só será dirigente se interpretar exatamente esta combinação” (Cadernos do cárcere, cit., v. 4, p. 314). Em seguida, há uma referência direta à luta entre Stalin e Trotski e ao conceito de hegemonia como “aquele em que se reúnem as exigências de caráter nacional” (Ib., p. 315).

[33] Palmiro Togliatti, “Antonio Gramsci capo della classe operaia”, cit.

[34] Cf. Guido Liguori. Gramsci conteso, cit., p. 28 s.

[35] Cf. Palmiro Togliatti. “La politica di Gramsci” [1944] e “Discorso su Gramsci nei giorni della Liberazione” [1945].

[36] Id. “L’insegnamento di Antonio Gramsci” [1945].

[37] Id. “La politica di Gramsci”, cit.

[38] Id. “Discorso su Gramsci nei giorni della Liberazione”, cit.

[39] Id. “Gramsci, la Sardegna, l’Italia” [1947].

[40] Cf. Leonardo Paggi. Antonio Gramsci e il moderno principe. Roma, Riuniti, 1970, p. XIII.

[41] Palmiro Togliatti. “Discorso su Gramsci nei giorni della Liberazione”, cit.

[42] Ib.

[43] Benedetto Croce. “Antonio Gramsci - Lettere dal carcere”. Quaderni della ‘Critica’, 1947, n. 8, p. 86-8.

[44] Cf. Palmiro Togliatti. “Antonio Gramsci e don Benedetto” [1947].

[45] Id. “Lezioni di marxismo” [1945].

[46] “Não quer dizer a análise, não querem dizer as conclusões de Gramsci que o fascismo, no período atual da nossa vida nacional, é algo sempre presente, como perigo e ameaça que pesa sobre nós? Sim, esta dedução é correta [...]. O propósito de voltar a uma hegemonia reacionária de velho tipo, liquidando até as formas da democracia, está presente na camada dirigente capitalista numa medida mais ampla do que se acredita” (Palmiro Togliatti. “L’antifascismo di Antonio Gramsci” [1952]).

[47] Antonio Gramsci. Americanismo e fordismo. Prefácio e organização de Felice Platone. Milão, Universale economica, 1950.

[48] Felice Platone. “Prefazione”. In: Id., ib., p. 15. Cf. também a referência togliattiana ao cotejo americanismo-fascismo em “L’antifascismo di Antonio Gramsci”, cit.

[49] O mérito desta fundamental reavaliação é de Franco De Felice. “Una chiave di lettura in Americanismo e fordismo”. Rinascita, 1972, n. 42. Cf. Id. “Introduzione”. In: Antonio Gramsci. Quaderno 22. Americanismo e fordismo. Turim, Einaudi, 1978.

[50] Palmiro Togliatti. “Per una giusta comprensione del pensiero di Antonio Labriola” [1954]. Agora em Id. La politica culturale. Luciano Gruppi (Ed.). Roma, Riuniti, 1974, p. 324.

[51] Sobre os problemas e a repercussão relativos à primeira publicação tanto das Cartas quanto dos Cadernos, permito-me remeter a meu livro Gramsci conteso, cit. Veja-se também, em Luisa Mangoni (Pensare i libri. La casa editrice Einaudi dagli anni trenta agli anni sessanta. Turim, Bollati Boringhieri, 1999, p. 217 e 232 s.), a atenção dispensada por Togliatti até mesmo aos aspectos formais da publicação dos escritos gramscianos, com o objetivo de contribuir de todas as maneiras para assegurar o prestígio dos textos.

[52] Cf. os testemunhos de Alessandro Natta (“Conclusioni”. In: VV.AA. Egemonia, Stato, partito in Gramsci. Roma, Riuniti, 1977, p. 274) e Cesare Luporini (“Introduzione”. In: Id. Dialettica e materialismo. Roma, Riuniti, 1974, p. XXVIII).

[53] Como está documentado pela carta que Togliatti escreveu ao dirigente do Komintern, Dimitrov, já em 25 de abril de 1941, na qual advertia que “os cadernos de Gramsci [...] contêm materiais que só podem ser utilizados depois de uma cuidadosa elaboração [...] algumas partes, se fossem utilizadas na forma em que se encontram atualmente, poderiam não ser úteis ao partido” (cf. Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 130-1).

[54] Valentino Gerratana, artífice da edição crítica, sempre fez questão de reconhecer os méritos da edição temática dos Cadernos e nunca foi tolerante com sua “demonização”. Veja-se, por exemplo, seu equilibrado juízo no prefácio a A. Gramsci. Quaderni del carcere, cit., p. XXXIII.

[55] Cf. Palmiro Togliatti. “Intervento alla Commissione culturale nazionale” [1952]. In: Id. La politica culturale, cit., p. 201 s.

[56] Cf. “Lettera di Palmiro Togliatti ad Ambrogio Donini, Istituto Gramsci (Roma, 11 dicembre 1954)”. In: Albertina Vittoria. Togliatti e gli intellettuali. Storia dell’Istituto Gramsci negli anni Cinquanta e Sessanta. Roma, Riuniti, 1992, p. 275-6. Para a reconstrução de todo o episódio, cf. ib., p. 46 s.

[57] Palmiro Togliatti. “Pensatore e uomo d’azione” [1949].

[58] Id. “L’antifascismo di Antonio Gramsci”, cit.

[59] Ib.

[60] Palmiro Togliatti. “Storia come pensiero ed azione” [1954].

[61] Id. “Il leninismo nel pensiero e nell’azione di A. Gramsci (Appunti)” [1958].

[62] Durante o VIII Congresso, por exemplo, a polêmica com Antonio Giolitti também envolveu Gramsci (cf. a intervenção de Giolitti e a réplica togliattiana em VIII Congresso del Partito comunista italiano. Atti e risoluzioni. Roma, Riuniti, 1957). No plano dos estudos gramscianos, entre aqueles de orientação polêmica em relação ao togliattismo, deve-se recordar pelo menos o volume La città futura. Saggi sulla figura e il pensiero di Antonio Gramsci. Alberto Caracciolo e Gianni Scalia (Eds). Milão, Feltrinelli, 1959 (textos, entre outros, de Agazzi, Caracciolo, Guiducci, Tamburrano, Tronti).

[63] Os três ensaios togliattianos aos quais me refiro - “Attualità del pensiero e dell’azione di Gramsci” [1957], “Il leninismo nel pensiero e nell’azione di A. Gramsci (Appunti)” e “Gramsci e il leninismo” [1958] -, escritos por ocasião das celebração dos vinte anos da morte do pensador sardo, podem ser considerados como um corpus unitário.

[64] Palmiro Togliatti. “Gramsci e il leninismo”, cit.

[65] Id. “Attualità del pensiero e dell’azione...”, cit.

[66] Vejam-se as considerações sobre o parlamentarismo em “Gramsci e il leninismo”, cit.

[67] Cf. “Attualità del pensiero e dell’azione...”, cit.

[68] Ib.

[69] Palmiro Togliatti. “Il leninismo...”, cit.

[70] Ib.

[71] Pela Einaudi, a publicação dos escritos gramscianos anteriores à prisão, iniciada com os volumes L’Ordine Nuovo (1919-1920) e Scritti giovanili (1914-1918), respectivamente em 1954 e 1958, prosseguiu em 1960 com Sotto la Mole (1916-1920). Em 1960 e 1961, foi publicada a correspondência sobre La formazione del gruppo dirigente del Partito comunista italiano nel 1923-1924, primeiramente pela Feltrinelli, depois de forma ampliada pela Riuniti. Em 1963 e 1964, foram lançadas as antologias organizadas por Paolo Spriano - L’Ordine Nuovo (1919-1920, pela Einaudi - e por Giansiro Ferrata e Niccolò Gallo - 2000 pagine di Gramsci, pela Saggiatore. Em 1965, sairia, sempre pela Einaudi, a nova edição das Cartas do cárcere, organizada por Sergio Caprioglio e Elsa Fubini, revista e complementada pelos trechos omitidos em 1947 e com o acréscimo de 119 cartas inéditas (decidida e estruturada obviamente antes da morte de Togliatti).

[72] Palmiro Togliatti. La formazione del gruppo dirigente... , cit.

[73] Cf. Rinascita, 1964, n. 22. Cf. também o breve balanço togliattiano relativo à mesma questão em ib., 1964, n. 24. Em Rinascita (1962, n. 9), também tinha sido publicado o texto do único discurso parlamentar de Gramsci (pronunciado em 16 de maio de 1925) sobre o projeto de lei governamental “contra as sociedades secretas”, com nota introdutória de Togliatti.

[74] Palmiro Togliatti. “Le classi popolari nel Risorgimento”. Studi storici, 1964, n. 3, p. 447.

[75] Id. “Rileggendo L’Ordine Nuovo” [1964].

[76] Cf. nota 4.