Uma vida a três

Luiz Werneck Vianna
Folha de S. Paulo,
8 mar. 2003














Luiz Carlos Prestes. Anos Tormentosos, Correspondência da Prisão (1936-1945). Anita Leocádia Prestes e Lygia Prestes (orgs.). V. 3. São Paulo, Paz e Terra, 685 p.
O inferno existe e há muitas descrições dele nos mitos, nas fabulações da literatura e na vida real, que, também aí, por vezes, se esmera em copiar a arte. Ao mergulhar nas páginas das cartas do cárcere - ativas e passivas - de Luiz Carlos Prestes com seus familiares, sua mulher Olga, seu advogado, companheiros e amigos, o leitor pode se preparar para uma descida ao reino das sombras e se comover com os padecimentos de uma família brasileira - gaúchos um tanto nostálgicos de sua cultura e natureza regionais - e com o amor de um casal que parece ter saído de romances de cavalaria, bem no centro dos "anos tormentosos" de 1936 a 1945, os de auge e queda do nazifascismo.
Contudo, e não se espante o leitor, nessas cartas não há lugar para lamentos e rendições. São textos de luta, especialmente a de um homem e a de uma mulher em defesa dos seus sentimentos e dignidade como pessoas, expostos a uma realidade sem esperança, agravada a cada dia pela institucionalização da barbárie nazista na Alemanha, em particular após o começo da Segunda Guerra Mundial, em 1939, a queda de Paris e a invasão da União Soviética, em 1941, tendo, no Brasil, como pano de fundo, a imposição do Estado Novo, que nos trouxe, em 1937, uma Constituição de inspiração fascista. No caso de Olga, que era de origem judaica, situação ainda mais dramatizada pela decisão de Hitler de proceder à "solução final" da chamada questão judia.
Luta tão mais difícil porque os dois personagens principais dessa saga se encontram em duras condições carcerárias, com sua comunicação epistolar sujeita à censura e - suprema dificuldade para os dois amantes - sem domínio do idioma do outro. Assim, entre todas as barreiras que precisam vencer, a da linguagem é mais uma, impondo aos dois a penosa tarefa, nas condições em que se acham, de estudarem um novo idioma.
É verdade que as cartas de Olga, por ordem das autoridades carcerárias, tinham que ser escritas em alemão, mas o diálogo entre eles, porque também compreendia comentários recíprocos sobre autores e temas da literatura brasileira e alemã, exigia o esforço da aprendizagem. Linguagem contida, a demandar pleno domínio no uso das palavras e uma espartana educação dos sentimentos a fim de impedir que a dor pessoal de um se transferisse para o outro, é a que compõe um diálogo marcado pela atitude de mútua proteção, em que o otimismo não cede mesmo diante do diagnóstico mais cruel sobre as suas respectivas situações.
A carta de Olga de 28 de setembro de 1939 é exemplar do seu estoicismo, de sua grandeza moral e da sua sofisticada sensibilidade:
"Meu querido Karli! Após longos meses, cheios de ansiedade, entregaram-me hoje tuas três cartas de 21/3, 20/6 e 29/6. Um peso me foi tirado do coração, quando soube que estás bem de saúde. E como estou orgulhosa com a tua primeira carta em alemão, que não contém um erro ortográfico e apenas muito poucos erros gramaticais. Karli, já soubeste que há pouco tempo passei dois meses fora do Campo, em Berlim? Tive que passar essas semanas em ‘prisão individual’ [isolamento, prisão celular] e, com maior intensidade do que nunca, meus pensamentos vagavam entre ti e a nossa querida filhinha” [Anita, a filha do casal, nascida no cárcere, depois de uma grande movimentação da opinião pública internacional, já tinha sido confiada à avó paterna, Leocádia Prestes].
”A pouca esperança numa rápida libertação, que cheguei a alimentar em Berlim, voltei a sepultar depois de meu regresso ao Campo. [...] Sabes, meu querido Carlos, às vezes digo a mim mesma que devemos estar preparados para nunca mais nos voltarmos a ver, apesar de que o coração proteste contra isso. [...] Mas existe uma coisa que deves saber: não deixo que o meu ânimo caia, e o sentimento de minha total unidade contigo me dá as forças necessárias para isso."
Fora das cartas, também há luta, e o leitor, enquanto as lê, precisa reconstruir o mundo dos nossos heróis, mal percebido nas entrelinhas do que escrevem - Olga, prisioneira em um campo de concentração nazista, sujeita a trabalhos forçados, Prestes, inimigo público número 1 do Estado Novo.
É Olga quem, na mesma carta de 28/9/1939, depois de expor o diagnóstico pessimista sobre a sua situação, fala do compromisso com suas companheiras de campo de concentração: "Hoje não me sobra mais tempo para referir-me às suas cartas. Mas podes estar certo de que ando com uma fisionomia tão feliz que, ao que parece, as minhas companheiras extraem daí novas forças e esperanças". Daí que a leitura dessa extraordinária documentação exija a participação do leitor, que deverá tecer, com suas informações, o cenário de horrores da época, enquanto acompanha, nas cartas, o cotidiano amargo dos personagens, cada um deles aferrado aos seus valores mais profundos e aos sentimentos que nutrem entre si.
O esforço de Olga para instalar humanidade em meio ao horror é uma página épica da capacidade de resistência do ser humano diante da adversidade, como na carta de 24/9/1937, em que procura compartilhar com seu companheiro os cuidados com a criação da filha: "Meu querido Carli! [com C no original, em outras cartas Olga usa o K] Há alguns dias recebi tua carta de 18 de agosto e estou muito triste porque tua carta de 31 de julho não me chegou às mãos. Quem sabe se ainda as receberei. Um pedaço de papel pode trazer tanta felicidade! Tuas queridas palavras me aquecem o coração. [...] Felizmente a Anita ainda pode permanecer comigo. Ainda recentemente, o médico da prisão desaconselhou a separação, tendo em vista que ainda estou em condições de amamentá-la. Jamais pensei possuir tal faculdade de ‘vaca leiteira’. Podemos nos felicitar com isso, pois até agora a pequenina não teve um resfriado. Alegra-me saber que segues a curva do peso da pequenina. [...] Podes, portanto, estar tranqüilo a este respeito". Mais à frente, Olga descreve a Prestes, como se estivesse em uma nursery de bairro londrino, como transcorre no cárcere, hora por hora, "um dia na prisão" nazista para ela e sua filha e os sonhos noturnos, que, afinal, a embalam, sobre o que deveria ser uma vida a três, que, como se sabe, não haverá.
Em sua última carta a Prestes, em 05/11/ 1941 - e se pode imaginar o que deveriam ser as condições prisionais de uma revolucionária comunista, ademais de judia, nos cárceres do nazismo triunfante na Europa -, a preocupação de Olga se volta inteira para a sorte do seu companheiro: "A idéia da solidão em que vives há quase seis anos é [...] um constante pesadelo que me aflige". Mas o inferno pode não ser lugar de queda, e sim de redenção: "Muitas vezes também não deixo de rir quando penso na surpresa que te causará a mulher que vais recobrar. Não terá nada de parecido com a figura de ‘boa enfermeira’. Mas uma coisa que tenho aqui especialmente aprendido é a conhecer o verdadeiro valor de tudo o que é humano, de toda a elevação e energia de que é capaz a alma humana, altura que é, antes de tudo, para nós mesmos difícil de alcançar" (carta de 21/9/41).
As cartas de Prestes obedecem ao mesmo andamento, sendo que, no seu caso, nas e pelas cartas, tenta realizar os "sonhos noturnos" de Olga de viverem uma vida a três. Assim, em 30/7/1937, Prestes indaga a Olga sobre a necessidade de "começar a dar um pouco de leite de vaca à nossa pequenina". Tendo organizado, com a pachorra de um militar, um quadro com as informações recolhidas das cartas de Olga, Prestes acompanha a evolução do peso de Anita e assim constata que, no mês de junho, a média mensal caiu em mais de 50%. Ele indaga: "O que está acontecendo? Sei muito bem que apenas os números não dizem grande coisa, mas, como acompanho com grande amor todas as suas informações, penso que não será inútil chamar a sua atenção para esse fato. A nossa pequena já tem mais de oito meses! Imagino a tua alegria com os novos progressos da nossa querida. A fatalidade da vida roubou-me esses grandes prazeres: vê-la começar a falar, vê-la, pela primeira vez, sentar-se e, com suas pequeninas mãos nos joelhos, rir alegremente [...]. Ah! minha querida, como eu seria feliz se pudesse brincar com a nossa pequena [...]. Já pensaste o que seria a nossa vida a três?".
Prestes e Olga, talvez mais ele do que ela, inclusive porque estão em contextos políticos distintos - decerto que a situação alemã era bem mais terrificante que a brasileira - se esforçam por construir, no mundo simbólico das letras, uma rotina conjugal. E esse esforço trágico de dois desvalidos da sorte em defenderem os seus sentimentos privados em um momento de conflagração mundial, mesmo quando tudo parecia irremediavelmente perdido para eles, fica como mais um exemplo de que a esperança pode desafiar o destino. Por que vivem de letras, a literatura, e especialmente a poesia, participa do repertório de temas evocados ao longo dos diálogos de Olga e Prestes. Goethe é uma grande referência para ambos -um autor bem próprio, por sinal, para os nossos heróis, que procuravam alimentar o seu espírito de resistência com os valores da Ilustração celebrados pelo poeta, entre os quais a crença em um caminho de aperfeiçoamento contínuo para o homem.
Diderot, Molière, Dickens, Fielding, entre outros, fazem parte do elenco preferido de Prestes e, entre os nacionais, denotando um gosto pré-modernista, o culto a Gonçalves Dias, Castro Alves e aos poetas da Inconfidência, relação a que não faltam Coelho Neto e Olavo Bilac...
Registre-se, de passagem, que, apesar de as cartas de Prestes não revelarem apreço especial do autor pelos modernistas, ele soube valorizar, contra o senso comum de sua época, a contribuição de Mário de Andrade à cultura nacional, dizendo, por ocasião de sua morte, que "seu nome na literatura nacional equivale ao de Siqueira Campos em nossas lutas políticas", o que não é pouco para quem tinha o antigo tenente da Coluna como um dos seus heróis favoritos (carta a Lygia Prestes, de 01/3/1945). Uma outra observação sobre as leituras de Prestes não pode faltar, pelo seu caráter intrigante, pois, relendo O Misantropo, de Molière, reteve como frase de grande sabedoria a que ia em rota oposta ao seu comportamento de militante revolucionário: "Nenhuma loucura maior do que se pretender corrigir o mundo" (carta a Lygia Prestes, de 14/9/1944).
A circulação de sentimentos e de idéias entre os nossos heróis reclamou a existência de um pequeno núcleo de familiares e amigos que, em vários cantos do mundo, procuravam proteger o casal e salvar Anita Leocádia das masmorras do nazismo. Entre eles, Leocádia, a mãe de Prestes, que não faz parte desse epistolário, Sobral Pinto, o seu dedicado advogado, e, sobretudo, Lygia, irmã de Prestes, que, baseada no México, não somente viria a criar Anita como se mostrou a grande referência afetiva e política do irmão, organizando o trabalho de solidariedade a ele. As cartas de Lygia consistem em um testemunho, sem paralelo em nossa literatura, de dedicação fraternal.
A coleção de cartas, em sua cronologia, conforma uma história contada a partir da expressividade dos sentimentos dos envolvidos, porque da história mesma não podiam falar, sofrendo apenas os seus efeitos. Mas lê-las é refazer, desse ângulo tão particular e verdadeiro, a história efetiva daqueles "anos tormentosos" - uma espécie de etnografia, a partir dos casos de Prestes e de Olga, de como o nazifascismo se contrapunha ao inventário dos valores humanos. A história ruma para um desenlace, à medida que os acontecimentos se aproximam do ano de 1945. De um certo ponto de vista, um desfecho feliz - os aliados venceram o eixo totalitário do nazifascismo.
Para nós brasileiros também, porque, com a ida da Força Expedicionária Brasileira aos campos de guerra europeus para se juntar às tropas aliadas, criaram-se as condições para a redemocratização do país. Mas essas cartas focam, sobretudo, o desempenho das pessoas, e não dos fatos - são elas e suas vidas exemplares que nos importam aqui.
O trabalho de Anita Leocádia Prestes e Lygia Prestes, com o apoio do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, já nasce como obra de referência para os que desejarem entender os soturnos anos em que o nazifascismo ameaçava dominar o mundo. O traço mais forte que fica da leitura dessa correspondência, que tanto se aproxima, pela altitude ético-moral do que é dito e vivido, às Cartas do Cárcere, de Antonio Gramsci, reside na profundidade dos sentimentos e dos valores humanos dos seus personagens, inventário a que os brasileiros, desde agora, podem recorrer para que, na construção de sua identidade coletiva, o especificamente humano se imponha contra quaisquer forças que tenham a pretensão de negá-lo.

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Luiz Werneck Vianna é professor de sociologia no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).
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