Sobre o Iraque

Especial para
*Gramsci e o Brasil*




1
Choque e pavor
Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde, São Paulo, mar. 2003.

O que o mundo pode esperar de um governo que bombardeia durante dois dias seguidos uma cidade quase indefesa e se dá ao luxo de batizar a operação de “choque e pavor”? O que esperar de governantes que não perdem a pose ao falar nos US$ 384 milhões gastos com os 320 mísseis Tomahawk despejados sobre Bagdá no último dia 21 de março?
A guerra de Bush contra o Iraque é um episódio que cerca de vergonha e maus presságios o início do século XXI. Serão consumidos rios de tinta para analisar as “razões de Estado” que teriam levado a maior nação do planeta, incontrastável em seu poderio bélico e em sua pujança econômica, a se lançar “numa escala nunca antes vista” sobre um povo miserável em nome do mal que um regime político estaria causando à humanidade e à segurança do mundo. Talvez não se consiga entender tudo com clareza, tamanha é a insensatez. Certamente haverá quem se ponha a falar em “guerra justa” ou a justificar os atos militares como fazendo parte de alguma “necessidade estratégica” ou das responsabilidades de um país-império obrigado a agir como senhor do universo. Mas há muito pouco de justo, justificável ou compreensível na operação.
A guerra de Bush é um monumental erro político. Antes de tudo porque despoja os EUA de uma política externa coerente e os leva ao isolamento e à desmoralização. Obriga a América a romper com aliados preciosos, a agredir a opinião pública mundial e a arcar com o ônus de ter sabotado e humilhado a ONU, empurrando-a para uma crise que se anuncia como terminal. Como ficará a diplomacia norte-americana de agora em diante? A doutrina Bush não se mostra à altura das exigências históricas do período atual. É provinciana e arrogante, num contexto sempre mais cosmopolita e desejoso de entendimento. Não converte os EUA em fator de paz e construção, mas em ator unilateral, que só pode se afirmar à base de intimidação e destruição, que parece almejar um mundo onde não existam diálogos e interações, mas apenas hierarquias e submissões, onde a lógica implacável do mercado se combine com a lógica perversa do império, onde “a guerra leva mercados à euforia”, como disseram as manchetes dias atrás.
As manifestações que encheram as ruas e praças do mundo foram um eloqüente sinal de que a guerra de Bush parece destinada a ampliar o fosso que separa os norte-americanos do resto do mundo, um fosso que só já não é maior porque a cultura americana é rica demais e está presente demais na vida dos povos, mediante ícones e valores que se tornaram uma espécie de “segunda natureza” em todos os continentes.
O mundo que assumiu a forma de um império não pode viver sem o protagonismo norte-americano, sua principal potência. Mas também não pode conviver com protagonismos burros e obstinados. Talvez ainda não se tenha, hoje, como ir além da fantasia abstrata de um mundo organizado por critérios de equilíbrio e sensatez, mas é fácil imaginar em que mundo se viverá se depois do Iraque os EUA passarem a determinar que regimes políticos são bons ou aceitáveis, que governos merecem subsistir, que líderes podem ser admitidos ou tolerados, quais deles são legítimos, quais precisam desaparecer, num absoluto desprezo pelas instituições e tradições de uma sociedade, por suas escolhas políticas e maneiras de ver a vida. Este será um mundo regressivo, no qual se respirará um único ar, se falará uma só língua e se terá apenas um código de conduta. Já se chamou este cenário de totalitário. E ele será mesmo a tradução de um totalitarismo radicalizado, onde não haverá apenas disciplina e obediência, mas acima de tudo uma engrenagem sofisticada de controles biopolíticos e ideológicos. Um mundo movido a choque e pavor.
Este seria um mundo tão absurdo e paradoxal que não é razoável imaginar que venha a se produzir. A história dos impérios não é feita apenas de louros, glórias e vitórias, mas também de decadência, fracasso e degradação. Por trás dos mortos de Bagdá não há como antever, ainda, nenhum oásis. Mas a história trafega por pistas irregulares e de velocidades instáveis.
As vozes poliglotas que nas últimas semanas disseram não à guerra de Bush, que acenaram com a paz e a recusa à violência, que celebraram a força do diálogo e da indignação, indicam a presença, no império, de um outro mundo in nuce, pronto para vir à luz e avançar.

2
"Não" ao antiamericanismo
Luiz Sérgio Henriques
O Tempo, Belo Horizonte, abr. 2003.

Basta abrir ao acaso qualquer jornal para encontrar motivos sérios de indignação contra a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Crianças mutiladas, hospitais e museus depredados, uma regressão civilizatória aparentemente sem limites, sob o olhar complacente das tropas de ocupação, preocupadas apenas em defender poços de petróleo e os respectivos órgãos de gestão dessa riqueza iraquiana.
A indignação moral, mais do que justificada, tem produzido por toda a parte uma mobilização pacifista extremamente promissora, reunindo velhas e novas gerações, pessoas e instituições das mais diferentes orientações políticas, culturais e religiosas. Talvez seja o início, em escala global, de uma vigorosa consciência crítica em relação aos rumos da globalização neoliberal e, muito particularmente, da atual direção americana e do seu papel nesse tipo de globalização.
A indignação moral, pois, deve se traduzir em política - na verdade, deve se traduzir em “grande política”, com a noção clara de que um dos seus principais objetivos é isolar, política e culturalmente, o atual grupo dirigente reunido em torno de Georg W. Bush, a começar pela conquista da opinião pública dentro dos próprios Estados Unidos.
Este grupo dirigente constitui uma estranha - e explosiva - mistura de homens de mercado e fundamentalistas religiosos, absolutamente incapazes de compreender as exigências de um novo mundo globalizado. É provável que, pela primeira vez na história moderna, um império tenha à sua frente não políticos experimentados, capazes de exercer alguma mediação entre os interesses fundamentais do “centro” e os da “periferia”, em nome de uma estabilidade mais duradoura e, conseqüentemente, melhor para todos. Pelo contrário, a nova direita americana aparece, crescentemente, como uma força que apregoa, com um cinismo raro, seus interesses mais imediatos, seus contratos de “reconstrução” exclusivos, sua vontade de controle de recursos naturais de terceiros, atropelando, de passagem, conquistas importantíssimas, como as instituições nascidas das ruínas do nazifascismo.
Para isolar este grupo agressivo, é preciso - não paradoxalmente - contar com os imensos recursos políticos da grande democracia americana. Um choque de fundamentalismos, o apelo ao terror, a simpatia por estratégias como as representadas por um bin Laden, por exemplo - nada disso interessa ao novo movimento pacifista e às diferentes formações políticas que começam a se movimentar por todo o mundo. Como se trata de uma luta pela civilização, ninguém pode ser excluído, seja representantes da direita moderada, como Jacques Chirac, seja expoentes de instituições tradicionais, dotadas de nenhum canhão ou míssil mas de imenso poder simbólico, como João Paulo II.
Uma estratégia desse porte, aberta e plural, é a melhor garantia contra o antiamericanismo primário: o seu método são os mais variados modos pacíficos de resistência e ação, transformando em arma a não-violência e a participação ativa de milhões de homens e mulheres, inclusive americanos. Esta, sim, uma arma poderosa, inesperada e inteligente.