Jornalismo público

Marco Aurélio Nogueira

Jornal da Tarde,
26 abr. 2003




Assistimos chocados ao bombardeio do hotel iraquiano em que estavam hospedados diversos jornalistas internacionais. A morte dos que lutavam por uma notícia revelou um aspecto a mais do massacre empreendido pelos norte-americanos nesta que seguramente é uma das mais insanas e injustificáveis operações militares dos tempos modernos.
Há sempre uma guerra de informação nas guerras de nossa época. Com o avanço das comunicações e a espetacularização da vida, a tendência se reforçou. O impacto sobre a atividade jornalística é inevitável. A mídia globalizada, o tempo real, o mercado da notícia, tudo está modificando as bases do trabalho do jornalista. Há menos espaço para o caçador de notícias, o analista rigoroso de fatos e informações, o formador de opinião. O jornalista tornou-se um especialista, treinado nas mais recentes técnicas redacionais, de algum modo estandartizado.
Tal situação comprime o que se costuma chamar de jornalismo público. Quer dizer, aquele que está a serviço do público, livre tanto de compromissos com interesses particulares, mercados ou governos, quanto de compromissos com o ego ou as motivações pessoais do jornalista. O jornalista público está amarrado à verdade, à informação que ajuda a construir civicamente uma comunidade e a formar cidadãos republicanos. Situa-se num terreno radicalmente distante do jornalismo sensacionalista, que veicula crimes hediondos ou cenas escabrosas em nome da necessidade de denunciar e alertar a opinião pública. O jornalismo público não se pretende um quarto poder, não se põe numa esfera superior, a partir da qual imagine ser possível pautar a opinião de todos, governantes e governados. Ele é uma espécie de voz ativa da cidadania, e se mistura com ela. Por isso, não costuma ser muito apreciado pelos poderosos ou pelos que se julgam acima do bem e do mal.
Quase ao mesmo tempo em que as bombas norte-americanas matavam jornalistas em Bagdá, uma condenação atingia, em Belém do Pará, no Brasil, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, da velha e brava escola do jornalismo investigativo e de opinião.
Lúcio é profissional há mais de trinta anos. De 1971 a 1988, trabalhou em O Estado de S. Paulo. Até fevereiro passado, foi colunista da Agência Estado, respondendo pela elaboração da coluna semanal “Carta da Amazônia”. Hoje, edita praticamente sozinho o Jornal Pessoal, combativo tablóide de Belém.
Ao longo desta longa militância profissional, Lúcio não se cansou de acompanhar os assuntos amazônicos, erguendo uma sólida e polêmica trincheira de debate, denúncia e análise. Por sua pena apaixonada e ferina passaram os mais diversos fatos e personagens da história regional, independentemente de partidos ou ideologias. Durante o período militar, foi processado uma única vez, em 1976. O processo não chegou a esquentar na Auditoria Militar. Foi logo desqualificado e remetido para a Justiça comum, onde acabou arquivado.
Curiosamente, nos últimos onze anos, respondeu a 15 processos judiciais, 13 dos quais permanecem ativos. Em março passado, foi condenado a um ano de prisão, pena convertida para duas cestas básicas, de um salário mínimo cada, durante seis meses, em função da primariedade do réu.
Não há por que objetar a uma decisão da Justiça ou estranhar que eventuais prejudicados procurem os tribunais para se defender. Tais ações e decisões integram o Estado democrático de direito, e precisam ser sempre valorizadas. Porém, se queremos ser rigorosos no trato da questão, deveríamos valorizar também a sua plena discussão no espaço público, locus principal das decisões referentes a pessoas públicas envolvidas em temas de interesse público.
As pessoas que acionaram Lúcio Flávio Pinto na Justiça não foram atacadas em sua vida privada, acusadas de criminosas ou ofendidas com adjetivos. Todas foram criticadas porque o jornalista considerou que seus atos - referidos, quase sempre, a disputas de terras e a extração ilegal de mogno no vale do rio Xingu - desobedeciam à lei ou ameaçavam o patrimônio da coletividade. Não procuraram exercer o direito de resposta ou entabular, pela própria imprensa, um diálogo franco com o jornalista. A controvérsia, base da democracia, acabou por não se efetivar.
O pouco destaque que se tem dado aos processos contra Lúcio Flávio Pinto não ajuda à educação política dos cidadãos e pode arranhar o próprio jornalismo público. Ainda que em outra dimensão e com distinta carga dramática, o tema deveria nos preocupar tanto quanto as explosões de Bagdá.

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Marco Aurélio Nogueira é professor de Ciência Política da Unesp/Araraquara e um dos editores de *Gramsci e o Brasil*. Mais informações sobre o caso do jornalista Lúcio Flávio Pinto podem ser buscados na edição 215, 12 mar. 2003, do Observatório da Imprensa [www.observatoriodaimprensa.com.br]
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