O Gramsci de Buey

Luiz Sérgio Henriques
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Francisco Fernández Buey. Leyendo a Gramsci. Barcelona: El Viejo Topo, 2001.


Há livros que podem ser descritos - externamente - de um modo muito simples, e tal é o caso deste Leyendo a Gramsci, um volume de pouco mais de duzentas páginas nas quais Francisco Fernández Buey (colaborador desta página) recolheu quatro ensaios sobre a vida e a obra do comunista sardo, especialmente sobre as cartas e os cadernos escritos no cárcere fascista entre 1926 e 1937. Um comentarista mais apressado poderia até mesmo desfiar alguns elogios de praxe, enfatizando, por exemplo, a longa convivência do autor com o objeto do seu estudo, circunstância que faz do livro não uma coletânea casual, mas um trabalho mais “orgânico”, em que os temas e motivos são retomados e aprofundados, aparecem tratados de vários ângulos, reforçam-se mutuamente em cada passo, etc.
Nenhuma dessas observações sumárias estaria errada em si mesma e, no entanto, em seu conjunto elas constituiriam uma percepção bastante inadequada da aparente simplicidade deste livro. Para começar, o primeiro dos ensaios, “Amor y revolución”, é uma das contribuições mais penetrantes sobre a tragédia do homem Gramsci, tal como se revela na correspondência prisional: com sensibilidade e inteligência, Buey reconstrói as vicissitudes de Gramsci, sua luta metódica e paciente - mas despida de heroísmo e retórica convencionais - para não desaparecer sem vestígios, como “uma pedra no oceano”. E não bastasse este ensaio primoroso, que é “Amor y revolución”, os demais ensaios - “El proyecto ético-político de Antonio Gramsci”, “Plan, estrutuctura y temas de los Cuadernos de la cárcel” e “Lengua, lenguaje y política en Gramsci” - atestam como ainda é possível, hoje, aliar rigor filológico e paixão política, atributos tão caros a Gramsci, mas tão difíceis de aplicar a fenômenos ainda muito controversos, como o marxismo comunista do século XX e, em particular, a própria obra gramsciana.
Esta dificuldade tem muitas faces e, nos termos de Buey, pode ser descrita aproximadamente da maneira que se segue. Antes de mais nada, vivemos um tempo particulamente propenso a trivialidades, simulacros e instrumentalizações políticas freqüentemente grosseiras. Se, até há alguns poucos anos, era praticamente impossível encontrar, até mesmo nas livrarias italianas, a edição crítica dos Cadernos, cuidadosamente preparada em 1975 por um estudioso da estatura de Valentino Gerratana, sucediam-se pequenos “escândalos” jornalísticos - de mau jornalismo - em torno de Gramsci, das relações com os seus familiares mais próximos no período da prisão, das suas relações com os comunistas em geral e Togliatti em particular: em cada escândalo, cada um dos familiares ou dos companheiros mais próximos era sucessivamente apontado como frio agente stalinista, de modo que se tentatava apagar a verdade óbvia de que Gramsci foi prisioneiro e vítima do fascismo, não do stalinismo. Este último cometeu muitíssimos crimes, especialmente a partir da sua consolidação como sistema, por volta de 1928, mas efetivamente não prendeu nem matou Gramsci. E, salvo documentação em contrário, hoje cada vez mais disponível nos arquivos da ex-União Soviética, todas as especulações, quer de “esquerda”, quer de direita, têm a marca da má-fé ou da sua irmã gêmea, a ignorância.
Tudo se passava - e, infelizmente, ainda se passa - como se não fosse de conhecimento público, há um tempo mais do que suficiente, o trabalho de gente séria, como Paolo Spriano, Giuseppe Vacca, Giuseppe Fiori, Claudio Natoli, Aldo Agosti, Guido Liguori, Michele Pistillo e muitos outros, que conseguiram iluminar, com razoável segurança, aspectos decisivos dos desencontros entre “Gramsci no cárcere e o PCI”, para mencionar o indispensável livro de Spriano. Tais desencontros giraram, basicamente, em torno da “virada” staliniana de 1928, responsável pela desafortunada política de “classe contra classe” e pelo isolamento político dos comunistas no Ocidente, na previsão equivocada de um colapso iminente e inevitável do capitalismo. Em contraposição frontal ao sectarismo burocrático staliniano, Gramsci escrevia mais ou menos na mesma época algumas das notas que depois reuniria no famoso caderno 22, sobre Americanismo e fordismo, vendo na grande crise do capitalismo não a causa econômica inevitável de uma catástrofe política mas a ocasião de toda uma reestruturação do mundo produtivo e da sociedade burguesa, ainda longe da decadência ou do apodrecimento.
Em tempos de crise - não custa repetir -, tais trivialidades não se limitam à manipulação interessada da grande mídia, mas reaparecem, surpreendentemente, em ambientes “insuspeitos”, “de esquerda”, herdeiros talvez inconscientes do que de pior aconteceu na tradição comunista do século XX (isto é, herdeiros do stalinismo) e certamente incapazes do exercício do rigor filológico que está na base de toda investigação séria. Num procedimento inteiramente contrário, Buey se apóia solidamente nas explicações mais recentes e dignas de crédito sobre as atribulações de Gramsci nos cárceres e clínicas até a sua morte; e, com elegância, anota de passagem “que a trivialização da tragédia do homem Gramsci em sua relação com Giulia Schucht, a que temos assistindo nestes últimos anos, sobretudo na Itália, produz náuseas e tira a vontade de continuar escrevendo. Diante deste espetáculo, só cabe repetir as palavras, pungentes, um tanto melancólicas, mas verdadeiras, escritas por Valentino Gerratana em 1992: ‘Quando só existe um simulacro de cultura, como agora é o caso, não pode haver um diálogo verdadeiro com Gramsci nem com nenhum outro’.” Evidentemente, para tornar o quadro ainda mais melancólico, não só a relação do prisioneiro com a mulher tem estado submetida à banalização e à instrumentalização vulgar.
Mas, como acima dissemos, a dificuldade de analisar o legado gramsciano tem muitas faces e pode ser vista de outros ângulos. O fato é que Gramsci - um clássico da política do século XX e, como tal, merecedor de ser lido por todos, porque integra o patrimônio comum da cultura moderna, como intuiu pioneiramente Togliatti - pertenceu a uma tradição cujas normas e costumes lingüísticos se perderam no tempo e se romperam inapelavelmente. De fato, a trágica experiência do socialismo real desonrou conceitos essenciais - para usar uma expressão muito apreciada por Buey - e tornou problemática a relação entre democracia política e socialismo, entre liberdade e mudança social, entre a tradição dos direitos - civis, políticos, sociais e os demais direitos de novíssima geração - e a tradição do socialismo. Se, como queria Gramsci, a ruptura de 1917 tinha não apenas uma dimensão política mas também gnosiológica e filosófica, contribuindo para a emergência de possíveis novos modos de pensar, sentir e viver, então o fracasso daquela experiência não poderia deixar de ter impacto devastador - e, admitamos, destinado a durar por um tempo que ainda não podemos medir.
Na verdade, este fracasso é o terreno no qual viceja - com uma solidez que nos espanta a cada dia, a cada leitura de jornal, a cada conversa com homens e mulheres “comuns” - a presente e opressiva hegemonia neoliberal, transformada em senso comum que se espalhou em escala globalizada, não obstante os óbvios e crescentes sinais de mal-estar e a percepção difusa de que, como diz ironicamente um poeta brasileiro, alguma coisa ou, por certo, muita coisa “está fora da nova ordem mundial”. Assim, o ambiente de simulacro em que vivemos e a desonra de conceitos ligados à trajetória do comunismo histórico tornam particularmente difícil a recepção de Gramsci e a possibilidade de fazer com que seu legado faça parte da bagagem teórica das novas gerações.
Talvez resida neste ponto a raiz mais profunda do persistente interesse de Buey em ressaltar como o tema da língua e das linguagens percorre, como um fio vermelho, o mosaico das reflexões carcerárias de Gramsci, dando-lhe unidade e coerência, fazendo do seu autor um verdadeiro inovador da tradição socialista marxista. Mais além de formulações ou opiniões particulares, que podem até mesmo ser hoje insustentáveis - como, por exemplo, o caráter totalitário e auto-suficiente da “filosofia da práxis” -, em Gramsci existe uma lição de método: ele não foi, seguramente, o mais erudito dos chamados marxistas ocidentais, mas é provável que tenha sido o mais preocupado em traduzir e, portanto, trair criadoramente, a lição marxiana e leniniana, recriando-a em contextos novos, enriquecendo e modificando-a em pontos claramente não secundários.
Buey sublinha, acertadamente, o fato de Gramsci ter sido o político e teórico comunista que melhor entendeu o pensamento problemático do último Lenin, preocupado, no fim da vida, com as insuficiências da “russificação” dos partidos comunistas ocidentais, que operavam em condições extraordinariamente distintas daquelas que haviam favorecido a revolução de 1917. No início dos anos 1920, no III e IV Congressos da Internacional, por exemplo, apareceu com vigor a questão da política de frente única com os socialistas e demais forças de esquerda não comunista. Internamente, na política soviética, a NEP representava uma tentativa de relação menos tensa e coercitiva com o imenso “oceano” camponês em que consistia o mundo soviético. Gramsci recolheu todas estas sugestões e deu início a uma análise inovadora da morfologia de classes e das formas da política em sociedades “ocidentais”, mais complexas e articuladas do que a sociedade russa e soviética; empreendeu também uma ousada interpretação do sistema de alianças que o partido operário devia operar (daí a análise da questão meridional e da função dos intelectuais italianos), indo, obviamente, além de Lenin e muito, muito além do que se convencionou chamar de leninismo ou, pior ainda, marxismo-leninismo. “Revolucionário sem revolução”, prisioneiro do fascismo de posse apenas de alguns precários cadernos escolares e livros controlados pela censura carcerária, Gramsci esboçou - em grandes linhas - um primeiro reconhecimento analítico das estruturas políticas de sociedades complexas, a partir de um inalterado compromisso de mudança que, reconhecendo também a particularidade de cada terreno nacional, implicava uma profunda reforma intelectual e moral, bem como buscava anular tendencialmente a divisão entre governantes e governados, entre intelectuais e simples, entre dirigentes e dirigidos.
Repetir Gramsci mecanicamente ou contribuir, hoje, para criar um “gramscismo” extemporâneo seria a maneira mais rápida de matá-lo uma segunda vez. A grande batalha do nosso tempo, segundo Buey, consiste em “dar sentido às palavras da própria tradição”, em esforçar-se para nomear, para dar nome às coisas, o que seria “[...] provavelmente o primeiro ato autônomo da batalha de idéias” (Leyendo a Gramsci, p. 186). De um modo analógico, e consciente das limitações de toda analogia, Buey evoca a atitude de Girolamo Savonarola, nas origens da modernidade européia, diante da degeneração do cristianismo oficial: para o religioso e político florentino, não se devia jogar fora, pura e simplesmente, as palavras da própria tradição, que haviam se perdido no uso da maioria; devia-se continuar a usá-las, recuperando “o sentido preciso do conceito, que só uma minoria conservava” (Ib.). É evidente que temos, aqui, a indicação de um horizonte que não se esgota no campo das palavras ou da filologia, mas implica uma profunda ação renovadora político-cultural. E a importância do livro de Buey reside, também, em nos levar a ver Gramsci como um dos pontos de referência desta ação, ao chamar permanentemente a atenção para o estilo, a expressão, a forma - naquilo que questões desse tipo têm de mais profundo, de mais relevante e, por isso, na verdade, são questões de método e concepção de mundo.
Gramsci, por exemplo, mesmo advogando polemicamente o caráter autônomo da filosofia da práxis, não é um pensador que se encerra, de modo autista, nos limites da sua tradição. Com efeito, a filosofia da práxis é vista como uma “heresia” do liberalismo clássico, como uma teoria que explora as aporias do pensamento liberal, não no sentido de cancelar ou denunciar destrutivamente as liberdades “burguesas”, mas no de aprofundá-las e assegurar sua realização tendencialmente mais coerente e “orgânica” numa sociedade auto-regulada, o que só seria possível, evidentemente, num processo histórico de longa duração e ao cabo de um duro enfrentamento “molecular” com tudo aquilo que divide irracionalmente a história e a sociedade humana. Não tem outro sentido a escolha de um interlocutor como Croce, ponto alto do pensamento liberal do seu tempo: sem o corpo-a-corpo crítico com Croce, emblema da hegemonia liberal-conservadora, a filosofia da práxis gramsciana seria um catecismo estéril, uma repetição de frases marxianas tornadas platitudes. Dessa atitude de Gramsci não há como deduzir outra coisa: o diálogo com as tradições do nosso próprio tempo fica metodologicamente indicado como o caminho real para aquela necessária ação político-cultural de renovação da tradição marxista (ou dos diferentes marxismos, como é muito mais apropriado dizer, à vista dos fatos).
Mais importante ainda: como indicado pelo próprio Gramsci, em questões de cultura não vale nada medir forças com os pontos fracos das outras correntes, adversárias ou simplesmente diversas. Militarmente, sempre se procura golpear o inimigo nos pontos mais vulneráveis, rompendo as suas linhas de defesa e semeando a desordem nas suas trincheiras. A cultura pertence a uma ordem inteiramente diferente de considerações: trata-se de medir forças com os pontos altos das demais tradições (com os Croces do nosso tempo, por assim dizer), e medir forças usando o método da crítica interna, que só “destrói”, se é que destrói, aquilo que paradoxalmente conserva e eleva a um nível superior. E, neste embate, só os dogmáticos pensam que podem sair da mesma maneira como entraram, sem nenhuma modificação de si mesmos. A alternativa a este procedimento dialético - para empregar em sua radicalidade um termo absolutamente fora de moda - é o marxismo vulgar, exemplificado, nos Cadernos, pelo Bukharin do manual sobre o materialismo histórico. (E, aqui, não cabe examinar a complexidade da figura histórica de Bukharin, teórico e defensor da NEP, derrotado em 1928 pela terrível estratégia stalinista da coletivização forçada.)
Buey colhe outro momento essencial da forma mentis gramsciana, ao sublinhar a especificidade do seu discurso essencialmente polêmico e dialógico (Ib., p. 189). Não há como evitar a sensação de surpresa - e até um certo desconforto - diante do caráter imediatamente fragmentário das anotações dos Cadernos ou da persistente e trágica busca de diálogo afetivo e intelectual com os familiares mais próximos e, através deste admirável Piero Sraffa, com o seu partido, tal como se revela nas Cartas, singularíssima obra-prima da modernidade do século XX. Como afirma corajosamente Buey, este não é o marxismo tendencialmente “arquitetônico” buscado pelo próprio Marx; não é aquele de formato “sistêmico” pretendido em algumas obras de Engels muito difundidas no movimento comunista, como o Anti-Dühring, a Dialética da natureza ou a análise da passagem do socialismo utópico ao científico; também não tem o caráter diretamente político, e muitas vezes instrumental, de Lenin nem tem a forma ensaística própria do marxismo ocidental. A forma dialógica do pensamento gramsciano, além de ser extremamente moderna, talvez seja a mais adequada num mundo que se faz cada vez mais “grande, terrível e complicado”, como costumava se expressar o próprio Gramsci. Não está isenta de riscos, como nada está na vida, mas traz em si, estruturalmente, alguns antídotos poderosos contra a tentação dogmática e autoritária.
Dizer que a peculiaridade gramsciana esteve condicionada às circunstâncias externas do cárcere é uma meia verdade enganosa: mais precisamente, os fragmentos gramscianos correspondem a um peculiar ritmo do pensamento, muito atento a particularidades e a aspectos (culturais, políticos, existenciais) aparentemente menores e, inversamente, pouco afeito a generalizações apressadas e vazias. Aprender esta lição de coisas e de método é, sem dúvida, uma precondição para seguirmos com Gramsci, mas muito além de Gramsci, porque assim é: vemos e vivemos muitas coisas que ele não viveu, não viu nem podia prever. Mas esta é, ainda, uma verdade muito genérica e, portanto, parcial. Ao fazermos uma leitura cuidadosa de Leyendo a Gramsci, vamos encontrar uma infinidade de outros exemplos e situações que ajudam a tornar mais concreta e efetiva essa nossa verdade ainda muito unilateral e abstrata.
O que mais se pode pedir de um livro?

______________

Luiz Sérgio Henriques é um dos editores de *Gramsci e o Brasil*
______________