Revolução e liberdade em Herzen

Daniel Aarão Reis Filho
Especial para *Gramsci e o Brasil*














I - Anos russos: a formação de um rebelde

Alexandre Ivanovitch Herzen nasceu em Moscou, em 25 de março/6 de abril de 1812 [1]. Três meses depois, em julho, o Grande Exército começou a invasão napoleônica da Rússia. Em setembro, houve a grandiosa e incerta batalha de Borodino, deixando 100 mil mortos de ambos os lados. Mais alguns dias, a entrada de Napoleão na velha capital russa, onde a família de Herzen, por inadvertência, ainda se encontrava, pareceu selar o fim da guerra. Mas o Tsar não se rendeu. Sequer aceitou conversar ou negociar nos termos propostos pelo Imperador dos franceses. Seguiu-se um terrível incêndio, deflagrado pelos russos, que arrasou a velha capital e impôs aos franceses o início de uma longa e penosa retirada, que, após o desastre de Berezina (fins de novembro), desdobrou-se numa derrota catastrófica para Napoleão [2].
Os exércitos russos marchavam agora, céleres, pela Europa Central. Em torno deles, uma ampla aliança, constituída por prussianos e austríacos, apoiados também pelos ingleses. Estavam criadas as condições para a batalha de Leipzig, em outubro de 1813, e para a entrada gloriosa em Paris, em 31 de março de 1814.
Napoleão ainda teria uma sobrevida, depois de escapar da ilha de Elba, mas durou pouco: de março a junho de 1815, quando Waterloo encerrou definitivamente sua aventura.
O Congresso de Viena, entre setembro de 1814 e junho de 1815, reorganizaria a Europa nos termos ditados pelos vencedores. A restauração e a Santa Aliança sob a égide dos exércitos do Tsar. A Rússia, campeã da paz, da legitimidade e da ordem. Dias de glória para a nação e para as águias russas. Nunca houvera nada parecido no passado, nem haveria no futuro.
Os relatos desta saga, contados e cantados em prosa e verso, povoariam a infância e a adolescência de Herzen, marcando-o com o ferro em brasa das experiências primevas, conferindo à sua personalidade traços permanentes, que o tempo não desfaria: a consciência e o orgulho de pertencer a um povo ímpar e de ter, de algum modo, participado de acontecimentos históricos. A celebração da vontade que não se deixa abater, por maior que fora a adversidade. O caráter épico da tremenda resistência e da gloriosa vitória.
Os primeiros anos do século XIX não foram anos de glória apenas para a Rússia e para o Tsar, mas também, talvez principalmente, para a nobreza russa. Com efeito, culminava então um longo processo, o da emancipação da nobreza em relação ao Estado, formalizado em 18 de fevereiro/1 de março de 1762, quando a obrigatoriedade do serviço de Estado foi abolida, consagrando o século XVIII como um século de ouro para a nobreza russa, duplamente fortalecida: ao mesmo tempo que se emancipou do Estado, consolidaram-se as estruturas da servidão na Rússia [3]. De um lado, a liberdade, reforçada pela instauração de instituições de poder local dominadas pela nobreza. De outro lado, a força conferida pela transferência progressiva da vida de milhões de almas para o controle discricionário dos nobres [4].
Gradativamente emancipados e também ocidentalizados. Viagens de estudos, viagens de exploração, aprendizado de línguas estrangeiras (principalmente o francês, mas também o alemão), múltiplos intercâmbios, guerras e conquistas, a nobreza russa adquiria ciência e técnicas, boas maneiras, modismos e idéias do Ocidente europeu. O fato de muitos prestarem-se ao ridículo, meros pedantes, imitadores e repetidores, sendo objeto de sátiras contundentes, não obscurece o processo real de troca, ensejando o aparecimento de uma cultura moderna na Rússia, específica, capaz de sínteses criativas, e que cedo projetaria vultos de estatura intelectual comparável ao que havia de mais sofisticado no mundo de então.
O pai de Herzen, Ivan Alexeevitch Iakovlev (1767-1846), fez parte da primeira geração de nobres formalmente emancipados e que seriam, de certa forma, precursores da intelligentsia russa do século XIX [5]. Herdeiro de uma das famílias mais tradicionais da nobreza russa, imensas terras, milhares de servos, ricos cabedais, cedo se desligou, como passara a ser seu direito, do serviço de Estado para se dedicar a viagens e ao cultivo do espírito, tornando-se, como tantos outros de seu meio, um homem supérfluo: "Estrangeiros no próprio país, estrangeiros em outros países, espectadores ociosos, imprestáveis na Rússia em virtude de seus preconceitos ocidentais, imprestáveis no Ocidente por causa de seus costumes russos, representavam uma espécie de inteligência supérflua e se perdiam numa existência factícia, nas delícias dos sentidos e num egoísmo desenfreado [6]."
Preocupado com a formação do filho, cercou-o, na tradição da época, de tutores, preceptores e servos, alguns, caricaturais, outros, sábios, conferindo-lhe uma formação humanista, com vernizes religiosos, mais rituais e "literários", consolidada no domínio seguro do russo, do alemão e do francês [7].
Desde cedo Alexandre Herzen respondeu bem a estes estímulos, mostrando-se vivo, perspicaz, crítico e criativo. No entanto, embora filho de nobre, não era um nobre comme il faut, como os outros da sua estirpe, e cedo percebeu sua falsa posição: a mãe, Henriette-Wilhelmine Luisa Haag (1795-1851), doce e inteligente criatura, embora não cultivada, não era nobre, mas plebéia. Alemã de Stuttgart, aos 17 anos fora trazida grávida para a Rússia, à socapa, onde pariu Herzen e onde permaneceria até o fim de seus dias. Ivan Alexeevitch lhe concederia abrigo e pensão, mas não amor nem casamento [8].
A situação poderia ter abatido nosso personagem, mas produziu o efeito contrário: estimulou nele uma sensação de estranhamento e a vontade, o orgulho e o sentimento de independência, outros traços de caráter, indeléveis, que se manteriam ao longo de toda a vida [9].
Os exércitos russos, como foi referido, levaram para o Ocidente, com o fogo e o ferro, a restauração e a ordem. Entretanto, oficiais mais críticos, todos nobres, perceberam o contraste entre o que se se pensava e se dizia a oeste do Reno e a leste do Vístula. Entre a França e a Rússia. Não era apenas uma questão de riqueza material. Mas de modo de se comportar e de se organizar, de viver. De instituições, de memórias, de expectativas, de perspectivas.
Na volta, organizaram associações clandestinas. Em dezembro de 1825, após a morte de Alexandre I, aproveitando-se de um imbróglio sucessório, tipicamente russo, tentaram um golpe [10]. Falavam em reformas e em liberdade, na abolição da servidão, a maioria queria limitar os poderes do Tsar (monarquia constitucional), alguns já preconizavam a República. A revolta nasceu frágil e foi esmagada. Seguiu-se a repressão brutal, exemplar. Os cinco líderes principais, depois de batidos e quebrados, foram enforcados. Trinta e um mais receberam penas perpétuas ou condenações de 25 anos de prisão. E mais degredos na Sibéria, sem contar inúmeros rebaixados à condição de soldados, mas sem direito a promoções, enviados para frentes de risco, destinados à morte [11].
Passaram à história com o nome do mês da tentativa malograda: os decembristas.
O impacto da revolta foi profundo em Herzen. A brutalidade da repressão provocou nele horror e asco. Impregnado de referências românticas (alemãs e francesas), animado pelos versos de Schiller e de Pushkin, elaborou um ódio concentrado ao poder arbitrário e à opressão.
E jurou ódio eterno à tirania. Com seu recente amigo, Nicolau Platonovitch Ogarev, que o acompanharia até o fim da vida, do alto das Colinas dos Pardais, nas cercanias de Moscou, "sós, superiores e gloriosos", juraram lutar, onde estivessem, para todo o sempre, com todas as suas forças, contra todas as formas de tirania [12].
Herzen tinha então tão-somente 15 anos. Mas aparentava dispor de firmes convicções. E, ao longo de toda uma vida, honraria o juramento. Num momento em que muitos apenas esboçam pontos de vista, ele já se formara como rebelde.
O contexto não podia ser mais desfavorável.
O reino de Nicolau I, iniciado com o massacre dos decembristas, em 1825, prolongar-se-ia por longos trinta anos. Foi um tempo de trevas, "...onde cada comissário de polícia é um soberano e em que o soberano é um comissário de polícia coroado" [13]. Nada mais emblemático do que a formulação do Conde Uvarov [14], autor da doutrina oficial do nacionalismo tsarista, e ministro da Instrução Pública entre 1833 e 1849: “Eu teria o sentimento do dever cumprido, se conseguisse empurrar a Rússia para trás cinqüenta anos em relação ao que prevêem para ela certas teorias [15]."
Entretanto, apesar do obscurantismo do Autocrata e de muitos de seus acólitos, o Império não deixara de mudar e de se transformar.
A população, de 36 milhões de súditos, em fins do século XVIII, aumentara para 67 milhões, em 1851. É verdade que os servos, em 1858, ainda constituíam 44,5% da população, mas a população urbana, embora ainda muito minoritária, quase dobrara, de 4,1%, no começo do século XIX, para 7,8% do total, em 1851. A produção agrícola e industrial registrou uma significativa progressão, assim como o comércio interno e externo (aumento das exportações de cereais), começando a fazer da Rússia o "celeiro" da Europa.
No plano cultural, a primeira metade do século XIX foi uma época de afirmação das ciências, das artes e da literatura russas. Em muitas áreas surgiram vultos notáveis, como, entre muitos outros, N. Lobatchevski (matemática), B. Petrov (física), N. Zinin (química), N. Karamzin (História), A. Pushkin e N. Gogol (Literatura), B. Jukovski e M. Lermontov (poesia) [16].
Esta elite não era expressão de um processo de massificação da educação e da cultura, mas também não se poderia imaginá-la como emanando do vácuo. Na verdade, uma crescente efervescência intelectual, expressa no florescimento de revistas e jornais [17], agitava a sociedade, desembocando na chamada "década notável" dos anos 40 do século XIX [18]. Um de seus centros principais foram as universidades, que, a despeito das restrições e da censura, mantiveram-se e se desenvolveram como núcleos de formulação e de debates. Neste ambiente, minimamente propício à crítica, combinavam-se filhos da alta e da pequena nobreza e - fato novo - filhos de classes e setores sociais plebeus (os raznachintsi), produzindo combinações inéditas, potencialmente explosivas.
Ao lado do coro da Autocracia, reunindo a maioria de sempre, formada por toda a classe de adesistas, e do pessimismo negativista de um Tchadaiev, profundamente descrente das possibilidades da Rússia e dos russos [19], aparecia uma geração crítica, formando círculos intelectuais, onde se sobressaía, estimulando, criticando e incentivando, a notável figura do crítico V. Belinsky [20].
Quando ingressou na Universidade, em Moscou, em 1829, Herzen viveria os primeiros eflúvios desta atmosfera, tornando-se rapidamente um de seus protagonistas.
Por se destacar, com suas características de crítico e de rebelde, e depois de receber admoestações e uma pena de prisão na própria universidade, Herzen foi novamente preso, desta vez pela polícia política, por ordem do governador-geral de Moscou [21].
A polícia invadindo seu domicílio, bisbilhotando e revirando papéis, vasculhando, o arbítrio no detalhe, traduzido em pequenos, assustadores e banais gestos e ordens, destinados a intimidar e a assustar, a apequenar, mas que, no caso, só fariam crescer a indignação e a revolta [22].
Herzen permaneceu nas grades entre julho de 1834 e abril de 1835. Processado, acusado de "ofender Sua Majestade", considerado "nocivo e absolutamente irrecuperável" pelo promotor, foi condenado, por período indeterminado, ao exílio interno, onde serviria como funcionário sob controle das autoridades locais [23].
Cinco anos durou este exílio. Três passados na longínqua e áspera Viatka, a meio caminho dos Urais, e mais dois, na mais amena e próxima Vladimir.
Nele, Herzen amadureceu algumas escolhas e orientações. A idéia de que a Rússia tinha uma "missão", a de civilizar a Ásia, enlaçando-a com a Europa, a de que a Rússia dispunha de um grande trunfo - a juventude, o que a predisporia favoravelmente em relação ao futuro. Assim, embora o país só proporcionasse "tormentos" às generosas aspirações de sua população, não estava gravado, como as velhas e cansadas nações européias, por tradições pesadas e incontornáveis. O ter feito muito pouco na história universal aparecia como uma virtude do ponto de vista do enfrentamento dos desafios colocados pelo futuro [24].
Mas não apenas a política povoou os pensamentos e as emoções de Herzen. No exílio, através de intensa correspondência, amadureceram as relações amorosas com Natália, uma prima cinco anos mais moça, também bastarda, e que se tornaria amiga e confidente. Ele, expansivo, com variados interesses intelectuais, cultivando ambições políticas. Ela, introspectiva, a própria encarnação do fervoroso amor, quase religioso. O machismo tradicional, em estado puro, sem reservas e culpas, marcaria as relações afetivas entre os dois, conduzindo ao "rapto" de Natália e ao casamento, realizado em maio de 1838 [25].
Herzen tinha então 26 anos, Natália, 21. Viveriam uma fase de amor auto-encapsulado, a primeira gravidez, o primeiro filho, a felicidade sem limites, tipicamente romântica, a vida imitando a arte [26].
Em 2 de março de 1840, finalmente, este mundo a dois se desfaria. Sobreveio a autorização do Tsar permitindo a volta de Herzen a Moscou, o retorno aos debates, à vida mundana, ao grande mundo para o qual ele tanto se imaginava talhado. Ao mesmo tempo, o "coração apertado", a apreensão, o sentimento de que certas velas estavam sendo recolhidas para nunca mais [27].
Estava se iniciando a "década notável" [28].
A descoberta de Hegel, a conversão "frenética" ao filósofo alemão [29]. Diálogo e querelas com Belinsky e Bakunin. O mundo e os entreveros dos círculos e dos salões. A histórica polêmica entre eslavófilos e ocidentalistas. A efervescência delirante de uma intelectualidade brilhante cercada pelos muros da prisão autocrática, o surpreendente amálgama da escravidão política envolvente e da emancipação intelectual interna [30].
Já instalado em São Petersburgo, cedo Herzen se veria novamente com a polícia política em seu encalço... e destinado a um novo exílio, desta vez, é verdade, bem mais suave, em Novgorod, e bem mais curto, cerca de um ano e meio [31].
De volta a Moscou, a partir de julho de 1842, ali permaneceria, participando dos debates e escrevendo seus primeiros artigos, até janeiro de 1847, quando, meses depois da morte do pai, ocorrida em maio do ano anterior, e tendo herdado uma sólida fortuna, decide partir para o exterior.
Foi um tempo importante na formação de Herzen. Entre muitos aspectos, o que o singulariza, a meu ver, é a tentativa de síntese no grande debate que opôs ocidentalistas e eslavófilos.
Em termos gerais, sem dúvida, Herzen era um ocidentalista. No sentido da crítica contundente que formulava sobre a Rússia, o sistema da servidão, o obscurantismo da opressão autocrática, a censura, a polícia política, o atraso sufocante e asfixiante. A celebração da liberdade em todos os seus aspectos: de pensamento, de expressão, de organização, também e essencialmente o aproximaria da experiência e das tradições recentes de algumas nações da Europa Ocidental e faria dele um cidadão universal, cosmopolita.
Numa outra dimensão, entretanto, Herzen mantinha vínculos profundos com seu país, cultivava grandes expectativas e esperanças na "missão" histórica da Rússia. Neste sentido, era, e se orgulhava de ser, um russo. Daí a possibilidade de pontes e laços com os eslavófilos. Não compartilhava com eles concepções religiosas nem o ódio pelo Ocidente, porque via neste viés um ódio pela liberdade, mas prezava algumas de suas contribuições, como, por exemplo, a crítica ao capitalismo individualista europeu, a valorização da comuna agrária, organização tradicional fundada em torno dos valores comunitários e solidários, a idéia de sobornost, onde se enraizava uma visão orgânica, fraterna e comunitária da sociedade, e, finalmente, mas não menos importante, a idéia de narodnost (nacionalidade/povo), o elogio da nacionalidade e da classe nacional, por excelência, o campesinato, distinto da autocracia [32]. Aqui se revelava o patriotismo de Herzen.
Cosmopolita ou patriota? Por paradoxal que possa ressoar: cosmopolita e patriota.
Ambigüidades análogas apareceriam na visão de Herzen sobre o povo russo e sobre a revolução social.
De um lado, os mujiques surgem como "gentes perdidas, atrasadas, miseráveis, um traço na história". A veia ocidental. Ao mesmo tempo, no mesmo texto, a idéia de que o futuro lhes pertence, pois sua história apenas está começando, o que lhes confere "dois títulos à vida: a juventude e o socialismo" [33]. A veia eslavófila.
A esperança e o receio de uma revolução social, o que não o impedia, como Belinsky, e antes mesmo de partir da Rússia, de formular e defender a idéia de sotsialnost (socialismo).

II - Anos ocidentais: o revolucionário no exílio

Com a família - Natália, três filhos, a mãe, e respectiva criadagem -, Herzen chegou a Paris em 25 de março de 1847, sessenta longos dias depois de partir de Moscou [34].
O maravilhamento e o encontro com velhos camaradas: Bakunin, Sazonov...: "Eu estava louco de alegria!" Em seguida, menos de seis meses depois, a decepção com a monarquia financeira, o clima de negócios e a corrupção, o materialismo tacanho do regime de Luís Filipe [35]. E a nova partida, desta vez para Roma, onde Herzen encontrou a efervescência revolucionária de uma Itália balbuciante, em formação, a ante-sala de grandes enfrentamentos vindouros, a atmosfera épica e revolucionária.
A revolução de fevereiro de 1848 o surpreendeu, acendendo nele a sensação de estar perdendo a história, embora, desde as primeiras notícias, manifestasse dúvidas a respeito da solidez do movimento vitorioso [36]. Desde começos de maio em Paris, Herzen assistiu ao massacre de junho e se horrorizou com ele: "Os cossacos e os croatas são mansos como cordeiros em comparação com a Guarda Nacional burguesa francesa [37]."
Foi um trauma, histórico e pessoal.
A crítica contundente à burguesia contra-revolucionária, acusada de representar uma emancipação pela metade e de encarnar um "insolente ataque ao passado, combinado com o desejo de herdar os seus direitos" [38]. O mesmo em relação às tentativas reformistas derrotadas: "As pequenas revoluções, as pequenas reformas, as pequenas repúblicas são insuficientes... estão todas infectadas pelo conservadorismo... são paliativos nocivos; por um alívio momentâneo, fazem esquecer a doença [39]." A perspectiva de uma superação radical das tradições: "O Terror executava homens: nossa tarefa é mais fácil: estamos chamados a executar instituições, a demolir crenças, a acabar com a esperança no que é velho, a quebrar os preconceitos, a estremecer todas as relíquias, sem concessões, sem misericórdia [40]."
Não imaginava Herzen a complexidade e a enormidade do que concebia como uma "tarefa mais fácil"? Ou seria apenas uma maneira elíptica de mostrar o quão prezava as vidas humanas e o quão difícil lhe parecia aniquilar sequer uma delas?
Nas reflexões sobre as revoluções frustradas de 1848, pensando nos movimentos das plebes urbanas das grandes cidades européias, ou, talvez, tendo em consideração os mujiques russos, Herzen voltaria a manifestar dúvidas e sentimentos ambíguos.
Em relação às massas, que despontavam como protagonistas da história, muita esperança, mas também desconfiança e um certo ceticismo: "As massas são indiferentes à liberdade e à independência individual e desconfiam do talento; elas desejam um governo que exerça o poder em benefício delas e não... contra elas. Mas governarem-se a si mesmas não lhes entra na cabeça." E ainda: "O comunismo varrerá o mundo como uma violenta tempestade - pavorosa, sangrenta, injusta, veloz [41]..."
A responsabilidade, no entanto, seria menos delas e mais das elites dominantes, acusadas de manter instituições que nada traziam às massas, senão "lágrimas, penúria, ignorância e humilhação" [42].
O grande desafio seria estabelecer uma ponte entre as elites esclarecidas e as grandes massas do povo, mas como fazê-lo, uma vez que aquelas se encontravam fechadas em suas própria esfera [43]?
A derrota das revoluções combinar-se-ia com trágicas perdas pessoais: as aventuras extraconjugais de Natália, transformadas em escândalo mundano [44]; a perda da nacionalidade russa, decretada em 1850, e a luta para impedir o confisco da fortuna pessoal; a morte num naufrágio acidental da mãe (Luisa Haag) e do pequeno filho surdo-mudo (Nicolau/Kolia); finalmente, a morte da própria Natália, em 25 de agosto de 1852, vítima de pneumonia...
Insucesso político, tormentos pessoais. Abalado por eles, Herzen e o que restava da família arribaram na Inglaterra em 25 de agosto de 1852. Um novo exílio: um exílio dentro do exílio.
Com quarenta anos, um novo recomeço?
Para este homem, de vontade inabalável, um novo ciclo, ascensional, em direção ao auge da celebridade e do prestígio, antes que o alcançassem, na última etapa da vida, o declínio e a rejeição dos contemporâneos.
Entre 1852 e 1861, quando, após longa preparação, por um decreto do Tsar, foi abolida a servidão na Rússia, desdobrou-se o período mais ativo, criativo e brilhante de Herzen.
Residindo numa das duas maiores metrópoles do mundo de então, transformado em grande agitador político e cultural, relacionado com as elites revolucionárias e exiladas de sua época, dispondo de completa liberdade para articular e publicar suas idéias, e de riqueza suficiente para viabilizar os projetos que formulava, Alexandre Herzen alcançou a maturidade num lugar e numa conjuntura extraordinariamente propícios a sua aventura intelectual e revolucionária.
Na Rússia, a guerra da Criméia (1853-1856) e a terrível derrota da Rússia evidenciaram o anacronismo do regime da servidão. As múltiplas crises que precederam, acompanharam e sucederam à guerra impunham reformas urgentes, consideradas agora inadiáveis. A morte de Tsar Nicolau I, em 1855, removendo o autocrata reacionário, par excellence, criara condições favoráveis, no topo do poder, à implementação de mudanças, às quais o novo Tsar, Alexandre II, cedo se manifestaria sensível.
Com efeito, em sua primeira fala do Trono, depois do anúncio oficial do fim da guerra, em março de 1856, o Tsar diria sem delongas: "Mais vale fazer as reformas pelo alto antes que venham por baixo [45]."
Seguiu-se intensa discussão na sociedade, com margens apreciáveis de liberdade, considerando-se as tradições russas.
Por baixo, na expressão empregada pelo Tsar, a pressão aumentava de forma crescente: relatórios da sinistra Terceira Seção registraram 550 revoltas camponesas entre 1800 e 1861 [46]. Mais tarde, especialistas trabalhando com arquivos locais computaram 1467 rebeliões, crescentes em suas intensidade, gerando mais perdas materiais e humanas e necessitando de mais tropas para reprimi-las: 281 (19%), entre 1801 e 1825; 712 (49%), entre 1826 e 1854; 474 (32%), entre 1854 e 1860 [47]. Além das revoltas, desordens e fugas, em massa, para as livres regiões da vasta Sibéria.
Entre as elites, sucediam-se os projetos: da nobreza lituana; do Professor Kavelin, divulgado pelo Contemporâneo; de N. Miliutin, apresentado pela grã-duquesa Helena Pavlovna ao Tsar; do próprio irmão do Tsar, Constantino; de Nazimov, governador-geral de Vilna.
Em janeiro de 1857, um comitê secreto foi constituído para debater os projetos de Kavelin [48] e de Miliutin [49]. Em fins deste mesmo ano, o Tsar determinou que a nobreza lituana discutisse e preparasse um projeto de emancipação atribuindo terras aos camponeses. No ano seguinte, um passo decisivo: constituíram-se comitês em todas as províncias para discutir o assunto, organizando-se em São Petersburgo um comitê coordenador formado por 9 pessoas nomeadas pelo Tsar.
Intensificava-se e se acelerava o debate em torno de três grandes questões: a emancipação seria feita de uma vez ou gradualmente? Os nobres seriam, ou não, indenizados? Os camponeses seriam emancipados com ou sem terras?
Afinal, o ukase (decreto) emancipador viria em 19 de fevereiro/3 de março de 1861, beneficiando, segundo os autores, entre 47 e 52 milhões de servos [50].
Entretanto, a perspectiva de atender a uma pluralidade de interesses contraditórios e o desejo de fortalecer o Estado resultaram numa reforma híbrida e complexa, gerando, desde então, e até os dias de hoje, avaliações diversas e contraditórias.
Com efeito, se emancipação houve, da servidão, nem por isso os mujiques adquiriram a condição de cidadãos livres, como os demais, pois permaneceram vinculados à comuna, submetidos à captação, a responsabilidades coletivas (pelas quais deveriam responder solidariamente), à proibição de livre deslocamento (salvo com autorização das autoridades da comuna), e julgados, em eventuais querelas, conforme as normas do direito costumeiro.
Por outro lado, e segundo as regiões, a emancipação não foi imediata: teve um prazo variável de aplicação. Finalmente, os camponeses eram obrigados a pagar pelas terras que lhes foram atribuídas, em 49 prestações anuais, provocando questionamentos e denúncias a respeito da qualidade das mesmas e dos preços arbitrados por elas [51].
Entre as elites, interesses contrariados denunciariam o caráter desagregador da reforma, vendo nela o triunfo de um partido vermelho, encabeçado, entre outros, pelos irmãos Dimitri e Nicolau Miliutin, responsável pelo enfraquecimento econômico decisivo, histórico, da nobreza russa.
A rigor, o debate historiográfico evidencia múltiplas nuanças. Segundo alguns, a maioria dos servos, com destaque para os vinculados ao Estado, ganhou terras suficientes para viver, restando, porém, uma expressiva parcela com fundadas razões para descontentamento. Em algumas regiões, o déficit em relação às disposições da própria lei chegou a patamares elevados. Desigualdades gritantes subsistiram, com os nobres mantendo o controle de extensões desproporcionais das melhores terras, obrigando-se freqüentemente os camponeses a pagar muito mais do que o valor de mercado por terras medíocres [52].
Entre os revolucionários, no entanto, estas nuanças não impressionaram: depois de uma fase de expectativas favoráveis, que antecedeu a decretação da reforma, prevaleceu a amargura e a frustração: a reforma fora uma farsa.
Todo este período, dos últimos anos de Nicolau I, incluindo-se, naturalmente, as tensões e crises provocadas pela guerra da Criméia, aos primeiros anos de Alexandre II, até a decretação da reforma que aboliu a servidão, em 1861, foram, como referido, os anos de maior brilho, e glória, de Alexandre Herzen.
Em seu exílio londrino, ajudado, desde 1856, por seu velho e querido amigo, N. Ogarev, Herzen, transbordando de energia e vitalidade, estaria sempre na linha de frente, recebendo e animando os exilados, clamando pela abolição da servidão, fustigando o Tsar e o tsarismo, paladino das liberdades, amigo dos oprimidos, porta-voz de todo tipo de denúncias, sempre contundente na crítica ao regime russo.
Logo depois de chegar a Londres, em fevereiro de 1853, fundara a Imprensa Livre Russa, uma verdadeira editora alternativa, publicando e traduzindo autores russos e estrangeiros, contrabandeando os textos para dentro do território russo.
Mas seria com uma revista: a Estrela Polar (Poliarnaia zvezda), desde agosto de 1855, e, sobretudo, com um jornal, a partir de julho de 1857, o Sino (Kolokol), que Herzen atingiria o ponto culminante.
Tentando combinar referências do socialismo libertário e do reformismo liberal, Herzen imaginou, em certo momento, que uma síntese poderia ser construída a partir do reformismo pelo alto de Alexandre II, reunindo, em torno de objetivos comuns, um amplo espectro, dos nobres liberais, passando pelos intelectocratas reformistas, aos revolucionários socialistas [53].
Estas expectativas frustraram-se.
O próprio Herzen, depois de um momento de euforia, quando vieram as primeiras notícias a respeito do ukase emancipador, foi tomado pelo sentimento de decepção e de amargura.
A reforma não correspondera a suas expectativas, muito menos às das alas mais radicais, lideradas por N. Tchernichevsky que, já antes de fevereiro de 1861, a viam com descrença crescente e que apenas tiveram confirmadas suas convicções com a leitura do decreto tsarista.
Outras reformas ainda viriam nos anos vindouros: nas administrações locais (1864 e 1870), na estrutura judiciária (1864), na educação (anos 60 e 70), nas finanças públicas (1866), nas forças armadas (1874). Apesar de sua importância histórica, já não acenderam as imaginações, não despertaram as paixões dos contemporâneos nem muito menos reverteram as expectativas favoráveis construídas no período anterior à abolição da servidão.
Desencadeara-se uma reação antiliberal no plano maior da sociedade: retorno da censura estrita e estreita, perseguição de oposicionistas e críticos, simbolizada pelo fechamento do Contemporâneo (Sovremenik) e pela prisão de N. Tchernichevsky, demissão do principal líder do partido vermelho, inspirador da grande reforma, N. Miliutin.
Movimento pendular do Tsar, tentando recuperar bases políticas perdidas na nobreza insatisfeita? Mera compensação à reação e ao movimento contra-reformistas?
O fato é que mudara a atmosfera política.
Os revolucionários, desiludidos e amargurados, passariam à ofensiva. Novas formulações, radicais, se definiam. Novas figuras se consolidavam como referências, outros símbolos, como o representado por Tchernichevsky, solitário, ascético, "puro e duro" em sua prisão perpétua. A idéia do enfrentamento violento, armado, amadurecia.
Herzen sentiu o chão escapar.
As novas gerações, como previra Turguenev em seu clássico romance (Pais e filhos), recusavam suas orientações e conselhos [54]. Escarneciam dele. Consideravam-no velho, anacrônico. Superado.
Em 1863, um novo choque. A insurreição polonesa, esmagada com a tradicional brutalidade, estimulou uma onda nacionalista na Rússia. Os revolucionários encontrariam no episódio argumentos suplementares para atitudes e práticas radicais. Herzen, como sempre, ao lado da Polônia livre, sem conseguir recuperar influência entre os jovens, perderia apoios agora entre os nacionalistas da tradição eslavófila, acentuando a sensação de isolamento.
Ainda tentou uma última cartada, transferindo-se com a revista e o jornal, para Genebra, em 1865. O esboço de uma reaproximação com os exilados russos, então cada vez mais concentrados nas cidades suíças.
Não obteve resultados tangíveis. E parecia, cada vez mais, falando num deserto. Um primeiro atentado ao Tsar (Karakosov, 1866), embora fracassado, acentuou a radicalização dos espíritos, aprofundando o isolamento político de Herzen.
Por escassez de leitores, o Sino e a Estrela Polar deixaram de ser publicados, em 1868 e 1869. A grande voz, à míngua de audiência.
Quase silenciado, Alexandre Herzen morreu em 1870, às vésperas da guerra franco-prussiana e da Comuna de Paris. Ainda materialmente muito rico, mas já sem fortuna, conservou, porém, arraigadas, as grandes referências que haviam guiado e orientado sua vida, pelas quais havia jurado nas colinas de Moscou e às quais se mantivera fiel através do tempo. Morreu convencido de que haveriam de prevalecer e de que ele, Herzen, seria, então, e para além do tempo imediato, reconhecido por ter sabido guardar fidelidade a valores universais.
O respeito pela dignidade humana. A luta intransigente contra a tirania. A defesa do indivíduo e a celebração de seus direitos de escolha. A liberdade. E o socialismo com liberdade.
Desafios ainda de pé, neste limiar do século XXI.

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Daniel Aarão Reis Filho é professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Este artigo, preparado para a reunião da Anpuh do Rio de Janeiro, realizada entre 14 e 18 de outubro de 2002, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro/Uerj, apresenta resultados preliminares da pesquisa "Intelectuais, política e poder", desenvolvida sob os auspícios de bolsa do CNPq.
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Notas

[1] Então, em virtude da defasagem de calendários, havia uma diferença de 12 dias entre o calendário Juliano, ao qual se mantinham fiéis os russos, e o calendário Gregoriano, adotado na Europa Ocidental.

[2] Dos 600 mil invasores, apenas entre 30 a 50 mil conseguiram cruzar a fronteira do Império tsarista no caminho de volta.

[3] Em 1736, fora dado um primeiro golpe no serviço obrigatório, com a redução do mesmo a um período de 25 anos. Cf. N.V. Riasanovsky, 1997.

[4] Cf. N.V. Riasanovsky, op. cit., p. 275 s.

[5] Uma das mais ilustres personalidades desta primeira geração foi Alexandre Radichtchev, autor de um livro clássico de crítica social: Viagem de St. Petersbourg a Moscou, um libelo contra a servidão, que lhe valeria a prisão e a condenação à morte, depois comutada em pena de exílio. Cf. Daniel Aarão Reis Filho, 2000

[6] Cf. Alexandre Herzen, 1974, v. 1, p. 116.

[7] Cf. id., ib., p. 74 s.

[8] Não sem amargura, Herzen refere-se ao choque da "descoberta" de suas origens em sua clássica autobiografia: Byloie i Dumy (Passado e Meditações). Cf. Alexandre Herzen, 1974, v. 1, cap. 2, p. 59-60.

[9] Depois de saber de sua falsa posição (a expressão é dele mesmo), Herzen confidenciou: "Eu me senti livre em relação a uma sociedade que não conhecia… entregue a minhas próprias forças… com uma presunção um tanto infantil, eu me dizia que ainda mostraria… quem eu era." Cf. Alexandre Herzen, 1974, v. 1, p. 60.

[10] À morte de Alexandre I, o sucessor legítimo era Constantino, segundo filho do imperador Paulo I, já que Alexandre não teve descendência. Mas ele há muito renunciara ao trono, embora secretamente. Até que isto fosse devidamente esclarecido, houve um hiato no poder supremo, do que se aproveitariam os decembristas para empreender sua revolta.

[11] P.N. Miliukov, 1932. O estudo é feito por M. Miakotin, v. 2, cap. XV, p. 717-33.

[12] A descrição detalhada do episódio, extremamente romântico, que marcou para sempre os dois amigos, encontra-se em Alexandre Herzen, 1974, v. 1, p. 109.

[13] Alexandre Herzen, 1853, p. 96

[14] Conde Serge Semionovitch Uvarov (1786-1855), alto funcionário, presidente da Academia de Ciências, ministro da Instrução Pública de 1836 a 1849. Nacionalista extremado, é dele a famosa divisa: "Autocracia, Ortodoxia, Nacionalidade."

[15] N.V. Riasanovsky, op. cit., p. 370.

[16] N. Riasanovsky, op. cit., p. 375 s.

[17] Entre outros, o Telégrafo de Moscou, O Mensageiro de Moscou, O Mensageiro da Europa, O Telescópio, O Europeu, todos fundados entre 1825 e 1832, por intelectuais e/ou professores universitários. Cf. M. Malia, 1975, p. 60.

[18] I. Berlin, 1988, dedica vários ensaios, sob este título, à análise das correntes intelectuais e dos debates então ocorridos na Rússia.

[19] Cf. a fórmula antológica de Tchadaeiv: "Digo à Rússia: seu passado foi inútil, seu presente é supérfluo e seu futuro é nenhum." In: Alexandre Herzen, 1853, p. 95.

[20] Cf. o excelente ensaio a respeito de Belinsky formulado por I. Berlin, op. cit., p. 158-91.

[21] Herzen e mais cinco colegas foram acusados de liderar uma monumental vaia ao Professor Malov, detestado por suas maneiras rudes e por sua ignorância. A vaia, iniciada no anfiteatro, interrompeu a aula e "acompanhou" o professor até o portão da universidade. A punição, decretada pelo Conselho Superior da Universidade, consistiu em detenção, na cave da Universidade, a pão e água, por alguns dias. Na prática, os estudantes driblavam a vigilância e organizaram grandes tertúlias, regadas a vinho, dormindo de dia. Cf. Alexandre Herzen, v. 1, p. 152 s.

[22] Cf. A Herzen, 1974, v. 1, p. 215 s.

[23] Cf. op. cit., p. 249 e 251.

[24] Cf. Alexandre Herzen, 1853, p. 95-6.

[25] Cf. E.H.Carr, 1968, p. 21. Herzen desloca-se ilegalmente a Moscou e, num episódio teatral e romântico, rapta Natália, levando-a para o seu novo lugar de exílio - Vladimir - para onde fora recentemente transferido e onde se efetuaria finalmente o casamento.

[26] Alexandre (Sacha) nasceu em 13 de junho de 1839.

[27] Cf. Alexandre Herzen, 1974, v. 2, p. 13 s.

[28] Cf. nota 18.

[29] "A filosofia de Hegel é a álgebra da revolução; ela liberta extraordinariamente o homem e não deixa pedra sobre pedra do universo cristão, do universo das tradições remanescentes." Alexandre Herzen, 1974, v. 2, p. 28.

[30] Cf. N.V. Riasanovsky, op. cit., p. 390 s. Da situação, A. Herzen diria: "Nós estamos muito habituados a nos distrair entre as paredes de uma prisão." Cf. A. Herzen, 1853, p. 95.

[31] A descrição detalhada do episódio está narrada pelo próprio Hezen; cf. op. cit., v. 2, p. 70 s.

[32] Cf. Martin Malia, 1975, capítulo XII, e esta interessante "confissão" de Herzen sobre suas relaçòes com os eslavófilos: "Nós tínhamos o mesmo amor, mas não amávamos da mesma forma, éramos como a águia de duas cabeças, ou Janus, olhando simultaneamente em duas direções opostas, mas, por baixo, no corpo, o coração batia em uníssono." Cf. op. cit., p. 312.

[33] Cf. Alexandre Herzen, 1853, op. cit., Introdução, p. X e XXIII.

[34] Além de Sacha, o primogênito, Natália e Herzen teriam ainda três filhos na Rússia: Ivan, nascido em fevereiro de 1841, que não sobreviveu, e mais Nicolau (nascido surdo-mudo, em 30 de dezembro de 1843) e Natalia (Tata, nascida em 13 de dezembro de 1844).

[35] Cf. Alexandre Herzen, 1974, v. 2, p. 291.

[36] "Eu teria traído minhas convicções, se não tivesse retornado a Paris, onde se instaurara a República." Cf. Alexandre Herzen, op. cit., p. 293.

[37] E.H. Carr, op. cit., p. 38.

[38] Alexandre Herzen, 1871, p. 82.

[39] Id., p. 107.

[40] Id., p. 123.

[41] Cf. I. Berlin, op. cit., p. 203.

[42] Id., p. 203-4.

[43] "No presente, como no passado, vejo o saber, a verdade, a força moral, a aspiração à independência, o amor da estética - tudo isto num pequeno punhado de homens que são antipáticos à maioria, que não simpatizam com ela, fechados em sua própria esfera." Cf. Alexandre Herzen, 1871, p. 150.

[44] Cf. E.H.Carr, op. cit., principalmente cap. 3 e 4; e o relato do próprio Herzen: Alexandre Herzen, 1974, v. 3, p. 109-207.

[45] Cf. N.V.Riasanovsky, op. cit., p. 401-2.

[46] A Terceira Seção da Chancelaria Particular de Sua Majestade, polícia política secreta instituída por Nicolau I, verdadeiro ministério, subordinada diretamente ao autocrata. Seria suprimida nos anos 80, substituída pela não menos temível Okhrana, abolida em 1917 para dar lugar às não menos eficientes e assustadoras polícias políticas do regime soviético. Uma tradição.

[47] Observar a multiplicação das revoltas na conjuntura que antecede imediatamente à abolição da servidão, uma vez que as primeiras cifras referem-se a períodos de 25 anos ou mais, enquanto a última cifra refere-se a um período de apenas 6 anos. Cf. N.V. Riasanovsky, op. cit. p. 400.

[48] Constantino Dmitrievitch Kavelin (1818-1885), historiador e jurista, publicista liberal. Professor da Universidade de Moscou desde 1844.

[49] Nicolau A. Miliutin, funcionário do Estado tsarista, considerado pelos conservadores líder do partido reformista.

[50] Cf. N.V. Riasanovsky, op. cit., p. 400 s., e M. Mirkin-Guetzevitch, in P.M. Miliukov, 1932, tomo III, cap. XVII, p. 829-85.

[51] Os pagamentos foram feitos ao Estado, já que as terras atribuídas aos mujiques, embora propriedade dos nobres, estavam hipotecadas por dívidas colossais. Assim, a nobreza perdeu terras, mas quem recebeu por elas foi o Estado.

[52] Khodsky calculou que 13% dos servos foram bem aquinhoados; 45% ganharam o suficiente para viver, mas em 42% dos casos os lotes atribuídos teriam sido insuficientes. A questão dos pagamentos também seria enfatizada: quando, em 1905, suspendeu-se o pagamento das anuidades, os mujiques já haviam pago 1,5 bilhão de rublos por terras avaliadas em 1 bilhão de rublos… Cf. N.V. Riasanovsky, op. cit., p. 400 s.

[53] Chamo de "intelectocratas reformistas" os funcionários do Estado empenhados no processo de reformas pelo alto. Entre muitos outros, destacaram-se os irmãos Miliutin. Cf. Daniel Aarão Reis Filho, 2000. A trajetória de Herzen no exílio londrino está particularmente bem narrada pelo próprio Herzen em sua obra clássica, 1974, v. IV, parte VII, p. 255-388. Cf., igualmente, a obra de F. Venturi, 1972, p. 103-58.

[54] Emprego o termo "geração" no sentido construído por J. F. Sirinelli, ou seja, um grupo de pessoas menos referido a marcos cronológicos do que a determinados períodos/acontecimentos decisivos, que estruturam e nucleiam sua memória. Assim, Herzen seria um filho da geração dos decembristas, ou da década notável (anos 40), enquanto os filhos - radicais - seriam nucleados pela frustração da reforma de 1861. Cf. J. F. Sirinelli, 1986.

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