O nó tático & Reformismo radical

Marco Aurélio Nogueira
Textos reunidos para
*Gramsci e o Brasil*






1. O nó tático.
(Jornal da Tarde, 1 jun. 2003)

Passados os primeiros cem dias do novo governo, não seria despropositado dizer que a Presidência Luiz Inácio Lula da Silva caracterizou-se por ter aplicado um verdadeiro “nó tático” na opinião pública e na política nacional.
Antes de tudo porque procedeu de modo surpreendente, em certa medida fazendo o que ninguém acreditava que seria capaz de fazer. Preservou a ortodoxia liberal na área econômica, quando todos davam como certo que ela seria alcançada por uma forte inflexão reformadora. Mostrou contar com um dirigente de inquestionável estatura política, capaz de exibir, de imediato, atributos de habilidade, inteligência e sagacidade que se costumava atribuir apenas a representantes do centro liberal-democrático. Não atirou o país no precipício da crise econômica e financeira, conseguindo, ao contrário, inverter a tendência em setores carregados de força simbólica: o câmbio, o “risco Brasil”, a confiabilidade dos investidores, a inflação. É possível que tudo isso não passe de um castelo de cartas e que a manutenção dos fundamentos do modelo econômico continue a empurrar o país para um cenário complicado e assustador, como chegaram a assinalar importantes economistas alinhados com o governo, como Maria da Conceição Tavares. Mas não se pode negar que, particularmente nessa área, produziu-se uma expressiva reversão de expectativas.
O governo petista mostrou-se mais ativo no econômico que no social. Revelou ter melhor “pegada” naquele setor que se considerava mais refratário às tradições históricas, à cultura política e aos compromissos do partido, demonstrando falta de imaginação nas áreas “clássicas” da esquerda: educação, saúde, emprego e renda. O próprio Presidente da República reconheceu o fato, ao cobrar maior iniciativa e criatividade de seus ministros, semanas atrás. Não houve também muita coordenação intragovernamental. Além disso, o partido mostrou-se menos unido e unificado do que se imaginava. Não apenas porque os núcleos “radicais” se revelaram pouco dispostos a acatar em silêncio as orientações governamentais, mas também porque não se formou uma opinião pública petista organicamente favorável às propostas encaminhadas pelo governo. Hoje, a “sociedade civil” petista está confusa diante do governo, ainda que isso não anuncie necessariamente uma decepção.
Em suma, o “nó tático” confundiu não somente os adversários do governo, mas também seus aliados e seguidores.
Nada impede que se pense a política mediante a metáfora do jogo: quem governa luta contra diferentes adversários, problemas e circunstâncias, em diferentes etapas ou fases que se inserem numa operação estendida em um tempo longo. O nó tático aplicado pela cúpula governamental, com maior ou menor intenção e consciência, garantiu o sucesso do governo numa primeira etapa do jogo. Hoje, estão todos paralisados e “encantados” com o que se faz a partir de Brasília. Há pouca crítica e poucas vozes de contestação, as oposições não conseguiram se posicionar e a esperança embutida no voto petista de 2002 se estabilizou, ainda que, agora, esteja combinada com doses inesperadas de medo e preocupação, como no caso, por exemplo, do modo como a opinião pública está reagindo à reforma previdenciária.
Abre-se agora a questão de saber quanto tempo durarão os efeitos do nó tático inicial. Até quando as forças políticas e sociais continuarão paralisadas ou confusas diante do governo? O que mais haverá no arsenal do Planalto para ser utilizado na produção de fatos e decisões governamentais? Por quanto tempo mais o governo poderá se valer de expedientes táticos sem correr o risco de chegar derrotado ao final da partida? Qual sua estratégia?
Todo governo está sempre obrigado a se rever como “jogador”. Não será diferente com o PT. O governo Lula sabe que só vencerá se houver inteligência política e apoio social, muita negociação e vontade política, coordenação governamental e competência gerencial. Terá de continuar inventando “nós táticos” para surpreender seus adversários. Mas terá de fazer isso sem traumatizar seus aliados e seguidores, e sem dificultar a formação de um consenso ativo entre os governados. Os feitiços acionados pelo governo não poderão contra ele se voltar. Mais do que nunca, precisará agir em termos políticos e pedagógicos sem deixar de ser realista e pragmático.

2. Reformismo radical.
(Jornal da Tarde, 14 jun. 2003)

Deve-se atribuir ao presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoíno, a mais sistemática defesa do PT como partido de esquerda. Em suas intervenções públicas (como, por exemplo, no artigo “A esquerda e as reformas”, publicado em O Estado de S. Paulo no último dia 7/6), o ex-deputado não tem cessado de repetir que o PT permanece firme no campo da esquerda, de onde provém e do qual não se afastará. Por extensão, o governo Lula também estaria à esquerda, ainda que sustentado por uma articulação de centro-esquerda.
Para ele, o PT mantém clara fidelidade tanto à luta pelos direitos de cidadania dos mais fracos, dos excluídos e dos trabalhadores, quanto a princípios e valores como o humanismo, a paz, a justiça social, a solidariedade. O PT não se prende a um desenho pronto e acabado de sociedade ideal, pois sua meta é participar de um movimento que procura encontrar formas de produzir uma igualdade crescente sem abrir mão da democracia e da liberdade. É uma causa em permanente construção.
O partido hoje no governo pertenceria à esquerda democrática e, com isso, teria deixado para trás a intransigência revolucionária e o “radicalismo estridente”. Não lutaria mais pela eliminação da ordem existente, mas sim pela hegemonia política, cultural e moral, ou seja, pela possibilidade de dirigir ético-politicamente as mais amplas camadas da população brasileira. Remetendo-se a Gramsci, o refinado marxista italiano que se dedicou à renovação teórica da esquerda comunista, Genoíno concebe o controle do governo apenas como detalhe de uma operação maior, a da conquista da hegemonia.
Com essas formulações, Genoíno não vê outro caminho para o PT que não o do reformismo radical. Para ele, nas sociedades capitalistas contemporâneas, repletas de conflitos e diferenciações, ser de esquerda é propor reformas com radicalidade, ou seja, sem romper com os compromissos fundamentais da esquerda (a igualdade, a justiça, a democracia) e sem fazer concessões a interesses particulares, pressões casuísticas ou privilégios. As reformas defendidas pelo governo Lula, particularmente na área da Previdência, se encaixariam nesse figurino.
É uma posição corajosa e contundente, merecedora de muitas reflexões.
O problema é que a política não é feita só de proposições coerentes. Nela, há sempre um contraste entre os discursos, as boas intenções, os princípios e a vida. O PT de hoje, por exemplo, não é idêntico ao de ontem, por mais que se diga o contrário. Sua trajetória não foi apenas a da continuidade, mas também a da ruptura. Ao longo dos anos, o partido se modificou, ganhou novas expressões, reformulou seu credo político. O reformismo radical e democrático que professa hoje é filho dessa evolução e espelha a opção feita, anos atrás, pela chegada ao governo e pela aposta na possibilidade de se administrar de outro modo o capitalismo, confrontando-o a partir de dentro, não de fora.
Por ter sido forte a guinada, é de se perguntar se a direção partidária (que é, afinal, quem elabora e implementa uma nova orientação) preocupou-se, ao longo do tempo, em estimular, no partido, a constituição de uma cultura política correspondente à reformulação que se empreendia.
Se não se deu a devida atenção a isso, não há porque se surpreender quando as bases partidárias, seus militantes, simpatizantes e intelectuais se recusam a referendar o que se passa na cúpula, isto é, na parte do partido que está efetivamente no governo. Afinal, toda e qualquer conversão política colide com interesses e imaginários consolidados e só se viabiliza a partir de complexos processos de educação e persuasão.
Não há como ser de esquerda no mundo de hoje sem fazer algum tipo de pacto com o inimigo. O capitalismo não está por um fio nem corre risco de vida, tanto quanto não existe uma força social categoricamente posicionada em favor de uma nova sociedade. Por isso, é impossível chegar ao governo e se recusar a jogar o jogo com as regras já definidas. Pensar de outro modo é fugir do terreno da política.
Não se trata de ter paciência infinita ou refugar na crítica, em nome de um governo que mal completou meio ano de vida. Mas sim de compreender os fatos duros da vida e os tempos específicos da política, contra os quais são completamente inócuas as manifestações de indignação ética, moralizante ou filosófica.
De qualquer modo, é preciso fixar com clareza os limites do pacto com o inimigo. Parece ser exatamente essa a dificuldade atual do PT e de seu governo. Não se está conseguindo estabelecer até onde irá o empenho em gerir a crise, acalmar os mercados e arrumar a casa para o take off reformador. Sem isso, uma esquerda de governo acaba por se dissolver como esquerda de luta. Passa a não visualizar mais qualquer ruptura ou superação, mas apenas uma mais competente gestão do existente.

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Marco Aurélio Nogueira é professor de Ciência Política da Unesp/Araraquara e um dos editores de *Gramsci e o Brasil*.
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