A esquerda, a sua memória e a política

Luiz Werneck Vianna
Jornal do Brasil,
14 ago. 1998, p. 11




A literatura especializada, a crônica jornalística e os próprios partidos políticos parecem não dar maior importância ao papel que, historicamente, a esquerda vem desempenhando na modernização e democratização da sociedade brasileira desde os anos 20, quando se observa uma confluência entre frações do sindicalismo operário e do tenentismo com intelectuais egressos do modernismo ou herdeiros daquele movimento cultural. Astrojildo, Prestes, os irmãos Lacerda, Octávio Brandão, entre tantos nomes, representam esse encontro, que, em que pesem todas as limitações contextuais da época, deu início à conformação de um novo bloco de intelectuais, diferenciado da tradição do positivismo das antigas elites republicanas e do jacobinismo caricatural dos movimentos urbanos de protesto social do começo do século. Foi aquela esquerda que pôs em evidência o tema do interesse dos setores subalternos da sociedade, fazendo da sua livre expressão o aspecto central da construção de uma democracia no país, ao mesmo tempo em que se credenciava à formulação de um projeto político de alcance generalizador, muito especialmente no tocante à questão da identidade nacional. Assim, no Brasil, as condições de nascimento de uma esquerda, longe de importarem uma dissociação entre o plano do interesse social e o da política, operaram em favor da sua reunião, o que ficou fartamente evidenciado no papel de articulação da resistência ao autoritarismo nos anos 30, e, na década seguinte, da grande coalizão em favor da entrada na guerra contra o nazi-fascismo.

O longo inventário de erros da esquerda pré-64, contudo, é sempre lembrado, como se fosse possível driblar o fato de que não há como contar a história do movimento operário sem ela, menos ainda a das lutas pela democratização do acesso à terra, e de que, no terreno das idéias e da cultura, é da sua lavra o melhor repertório de realizações e de interpretações, à época, sobre o nosso país, apresentando-o, ao contrário do ângulo depreciativo, pessimista e desqualificador que caracterizava a opinião dominante até então, como um lugar em que cabia um amplo, generoso e afirmativo empreendimento humano. Mas, sobretudo, não se pode entender o Brasil moderno sem as lutas da esquerda pela industrialização, pela defesa do mercado e da economia nacionais, embora – e esta é uma das lições permanentes, extraídas da sua experiência – representasse uma corrente política minoritária, quase sempre sem expressão partidária legal, sem votos e sem bancada parlamentar própria. A distância, porém, entre a sua influência social e política e o seu reduzido contingente de militantes, apenas na aparência exprimia um paradoxo, na medida em que sua política universalista, indo do tema do desenvolvimento da economia nacional ao dos direitos, e orientada, na maioria dos casos, para a consecução de amplas alianças, permitia-lhe transcender a sua escassa representação e se impor como um ator relevante na arena política. As suas derrotas, inclusive a do golpe militar de 1964, que lhe foi fatal, sempre estiveram associadas ao abandono dessa linha de ação, quando optava, em linguagem de jargão, pela "frente de esquerda" em prejuízo da "frente democrática".

Como tudo que é vivo merece morrer, aquela esquerda inicia o seu declínio quando a questão nacional é apropriada, se bem que de modo transfigurado e pervertido, pelo regime da ditadura militar. Àquela esquerda sucedeu, então, uma outra, de início mais vocacionada à representação dos movimentos sociais do que propriamente investida de um papel de ator político, descontínua em relação à anterior, sem cultivar a sua memória e a sua política de alianças pluriclassistas, as quais recusava radicalmente, e bem mais preocupada em vocalizar as aspirações imediatas dos segmentos sociais que pretendia representar, uma vez que vinha sendo moldada na crença de que o social guardava uma relação de primazia quanto à política – a sua arena privilegiada deveria ser a da sociedade civil e não a do Estado. Essa esquerda, como notório, inovou profundamente a agenda da política brasileira, e, em razão dos seus méritos em interpretar aspectos emergentes da vida social, ganhou estrada, passando a contar com uma militância de massas, influente nos principais movimentos sociais do país, com uma significativa representação parlamentar em todos os níveis da Federação, a que não faltam posições de comando em importantes governos estaduais e municipais, estando, hoje, empenhada em disputar a sua terceira eleição presidencial consecutiva. Mas, apesar disso, vinha sendo mantida, ao menos até aqui, a uma distância maior do poder do que a esquerda no contexto do pré-64, a qual, em algumas oportunidades, parecia estar na iminência de conquistá-lo.

Trocar uma concepção que leva ao distanciamento em relação ao poder por uma que, alternativamente, conduz à proximidade com ele, é o que está na base das motivações para as alianças políticas, como se dá, hoje, com a coalizão eleitoral entre o PT e o PDT, cuja repercussão deverá ser bem mais permanente do que circunstancial, sobretudo para a história futura da esquerda e das suas relações com o centro político. Em primeiro lugar, porque gera uma dinâmica que tende a suprimir o hiato histórico no interior do trabalhismo brasileiro, recriando uma história de fundo comum, na qual se deixe de ver apenas rupturas e descontinuidades e se ponha em perspectiva a elaboração de uma rica síntese entre diferentes tradições da esquerda brasileira, capaz de compreender o PTB dos direitos sociais dos assalariados urbanos e da questão nacional, o que, por sua vez, induziria a um novo inventário do PCB, estabelecendo-se, ao final, uma comunicação ativa entre momentos diversos de todo um acervo de práticas e cultura políticas, com equívocos mas também com muitos acertos. São décadas de história, separadas artificialmente, até então, por uma muralha da China, e que cumpre reconstituir como uma peça única, embora tecida a partir de retalhos recolhidos nas diferentes lutas que se sucederam ao longo do tempo. Síntese difícil, mas desejável, e, além disso, tempestiva e atualíssima, na medida em que nos põe diante da exigência contemporânea de formularmos a nossa resolução para o enigma que consiste em combinar a matriz do republicanismo cívico (que nos vêm da esquerda pré-64) com a do universalismo pluralista (que nos vêm dos anos 80) – enigma esse deflagrado pela dinâmica das democracias consolidadas e que, no Brasil, encontra uma vitalidade singular.

Em segundo lugar, porque essa coalizão vem importando um movimento em direção ao centro político, cuja tendência natural é a do aprofundamento, inclusive pelo fato de esse lugar estratégico na política brasileira se encontrar sem candidatura presidencial própria, desorganizado, sistematicamente, pela ação governamental que o fragmenta e coopta quadros importantes seus. Nesse sentido, por vocação, pela própria natureza dos acontecimentos em curso – o vazio no centro político –, e também pela necessidade de se impor como uma alternativa real de governo, tal coalizão não deverá limitar-se a operar seus efeitos nestas eleições, sendo, ainda, mais importante em caso de sucesso eleitoral.

A conquista da memória e a reflexão crítica sobre ela não são apenas benfazejas para as personalidades individuais, exercendo iguais efeitos sobre as coletivas, especialmente quando vigem as condições para o livre exame das idéias. O caminho da recuperação da memória é o da avaliação dos valores estocados em cada sociedade, motivando-a à reinterpretação deles, a fim de encontrar respostas para os desafios com que se defronta no presente. A vocação de intérprete em geral da sua sociedade tem participado da carga valorativa da esquerda brasileira, a qual consagrou, como uma de suas marcas históricas, a recusa ao papel de portadora dos interesses e dos projetos de uma parte apenas dela. Os ideais igualitários e de uma convivência republicana eticamente orientada dizem respeito a toda a sociedade, não se chegando a eles fora do campo da política, pois somente aí podem se achar e inventar os meios e os modos para que se convertam em realidade, mesmo que se tenha de fazer ouvidos moucos às vozes agourentas das cassandras, que tomam por fim do mundo o seu recomeço.