Canudos: história e literatura

Michel Zaidan
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Simone Garcia. Canudos: história e literatura. Florianópolis: HD Livros, 2002. 128p.
Foi com imenso prazer que aceitei a incumbência de fazer a resenha crítica do livro Canudos: história e literatura, de Simone Garcia, originalmente uma dissertação de mestrado em História, apresentada ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco.
A pesquisa da professora Simone Garcia é um dos raros exemplos de interdisciplinaridade no campo dos estudos históricos, uma vez que alia a reflexão filosófica, a crítica historiográfica e um estilo de análise literária com uma coerência metodológica e uma riqueza de resultados impressionante. Mas isso só se tornou possível em função das referências e pressupostos teóricos adotados pela autora. Quero me referir aqui à obra de um dos mais importantes racionalistas críticos que conhecemos, a obra do pensador alemão Walter Benjamin, particularmente a sua concepção da crítica literária barroca como forma de conhecimento histórico. Esta concepção foi proposta, sobretudo, no livro A origem do drama barroco alemão e nas teses sobre o conceito de história. É da leitura crítica desses textos fecundos e densos que Simone Garcia elabora as suas grades conceituais para empreender a sua análise de experiência histórico-literária da epopéia de Canudos.
Toda a primeira parte de sua obra se concentra numa apresentação didática e sistemática dos principais conceitos e categorias da crítica reconstrutiva de Walter Benjamin. Aqui, a noção central refere-se ao conceito barroco de alegoria como palavra-chave tanto para uma crítica literária inovadora, como para uma historiografia preocupada em resgatar os possíveis da História. Uma tentativa ensaiada, aliás, por Nicolau Sevcenko em sua tese sobre Lima Barreto e Euclides da Cunha, mas sem a coerência e a clareza que caracterizam a obra de Simone Garcia. Utilizando o conceito de alegoria para falar da abertura essencial de toda obra, seja histórica, seja literária, Simone Garcia faz uma exegese desconstrutivista e reconstrutivista da literatura existente sobre o Arraial de Canudos, acompanhando fielmente os passos indicados por Benjamin no ensaio sobre as afinidades eletivas de Goethe. Lá, a nossa autora procura fazer uma distinção bem precisa entre as duas fases críticas histórico-literárias, uma chamada de desconstrutiva - aquela que adota um viés crítico em relação ao sentido aparente dos textos -, outra por ela denominada de reconstrutiva, por refazer a história a partir das ruínas do texto ou a partir dos índices de possibilidades históricas não efetivadas pelo desenvolvimento histórico ocorrido. Trata-se, aí, de uma nova história ou uma nova concepção de fazer história. Por isso, o trabalho de Simone Garcia pode ser enquadrado tanto em teoria e metodologia da História quanto em história da cultura ou da literatura. Ele é tudo isso e algo mais.
A segunda parte da obra versa sobre a desconstrução do processo de transmissão da memória histórica sobre a epopéia de Canudos, ou seja, faz-se aqui uma análise da historiografia existente sobre o assunto, abordando três conjuntos de obras: as de autores marxistas, como Rui Facó, as de sociólogos, como Maria Isaura Pereira de Queiroz, e a críticos literários, como Walnice Galvão. A autora procede a uma verdadeira desmontagem crítica dessas vertentes explicativas, revelando as suas falhas e insuficiências histórico-metodológicas e preparando o terreno para a parte mais importante e inovadora do trabalho, a reconstrução historiográfica da experiência de Canudos. Essa etapa da operação crítica permite nomear as falhas da construção oficial da memória e ensaiar, na etapa seguinte, uma reescritura-leitura a partir das possibilidades entreabertas pela desconstrução da memória oficial.
A última parte da obra de Simone Garcia é, sem dúvida, a mais instigante e inovadora, do ponto de vista da metodologia e teoria da História. Nela, a professora e pesquisadora Simone Garcia reescreve a história canudense e de Antônio Conselheiro a partir das esperanças, anseios, projetos e desejos expressos e implícitos no chamado imaginário social brasileiro, captado através da literatura, do teatro, da poesia, do cinema que trataram da epopéia sertaneja. Como dizia Aristóteles, o domínio dessa nova historiografia reconstrutivista é do campo dos possíveis, do campo da virtualidade histórica, respeitando as leis da verossimilhança e da necessidade. Portanto, essa rescrita do processo não pode ser avaliada da perspectiva da efetividade histórica, mas do ponto de vista desiderativo, ou seja, a partir das promessas não cumpridas pela história efetiva, embora contidas, como possibilidades, no processo histórico. E, como tais, passíveis de uma atualização política ou historiográfica por aqueles que não querem compactuar com os dominadores de todas as épocas, seja os de ontem, seja os de hoje. Nesse ponto, a tarefa da nossa jovem historiadora se parece com a do anjo messiânico da História, que não vem para salvar ou libertar a humanidade futura, mas sim as esperanças e os anseios das gerações passadas. Essa foi a tarefa que Simone Garcia se impôs, com este trabalho. Poderão, agora, os leitores ajuizar do sucesso de sua missão. E Oxalá sigam o seu exemplo. Parabéns a autora e à sua missão.

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Michel Zaidan Filho é professor da Universidade Federal de Pernambuco.
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