Um escrito autobiográfico inédito

Edgard Carone
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Este texto foi originalmente escrito, em 1996, como apresentação a uma bibliografia da história republicana. Tratava-se, na verdade, de um antigo projeto de Edgard Carone (1924-2003). A primeira tentativa, no final dos anos 1970, malogrou. A segunda proposta de edição desse levantamento bibliográfico, apresentada ao Departamento de História da USP, com o texto que ora apresentamos, também não foi possível. Assim, o levantamento, os comentários que o acompanham e este texto constituem documentos inéditos do autor.
Marisa Midori Deaecto
Em 1963 meu amigo Antônio Candido vai a Botucatu, onde eu e minha família morávamos desde março de 1960. A sua temporada, de alguns dias, motivou reviravolta no campo do meu trabalho intelectual.
Desde os primeiros anos de leitura sempre selecionei livros e temas do meu interesse momentâneo. Passei, como muitos, pela fase das histórias em quadrinhos, importadas recentemente dos Estados Unidos, como a revista Gibi - com os heróis Flash Gordon, Jim das Selvas e X9, todos de autoria de Alex Raymond -, Tarzan, Brick Braford, etc.; depois, pelos romances policiais da Coleção Amarela - com Edgard Wallace, Sax Rohmer, Agatha Christie, etc.; e pelos de aventura, como Julio Verne, além da Coleção Terramarear - Robert Louis Stevenson, Emilio Salgari, Jack London, etc. - e a Coleção Paratodos - Edgard Wallace, Baroneza D’Orcy, P.C. Wren. Talvez, como exceção na minha geração, deixei de ser leitor de duas correntes de literatura importantes na época: os livros de Monteiro Lobato e a alemã, de conteúdo folclórico, editada pela Companhia Melhoramentos.
A freqüência aos sebos é uma das motivações para as minhas leituras. Ganhando mesada do meu pai, a dividia entre a entrada para o cinema e a compra de livros. No entanto, o fato de freqüentar casas de livros usados e de entrar em contacto com infinidade de títulos esparramados pelas suas prateleiras - dos quais comprei parte mínima dos que me interessaram - acabou por condicionar parte do meu universo. Outra influência direta é o cinema, que nas décadas de 1930 e 1940 voltava-se fortemente para a crítica social, que motivou as leituras que fiz de autores como Émile Zola, Victor Hugo, Steinbeck e centenas de outros.
Essa segunda fase é seguida de outra, mais de caráter político, que se inicia a partir de 1941, com a prisão de meu irmão - Maxim Tolstoi Carone. É a hora do contacto com os livros de Lenin, Stalin, Trotski, Bukharin e outros mais, que falam da Revolução de Outubro e da Rússia Soviética. Essas leituras se fazem paralelamente com obras sobre o Brasil. Enquanto morei na Fazenda Bela Aliança (1948-1960), li, de maneira abundante, parte dos viajantes do século XIX, obras sobre a nossa história colonial, livros sobre a década de 1920 e o tenentismo, e a literatura política mais recente. Ao mesmo tempo, voltava-me para os clássicos do socialismo e os romances franceses, ingleses e brasileiros, e a história em geral.
Sem compromisso, agindo segundo a curiosidade do momento, punha em prática minha liberdade de ação. No entanto, a vinda de Antônio Candido interrompeu boa parte do comportamento adotado até então. Ele propôs que eu escrevesse um livro para a recente Coleção Buriti, da qual ele, entre outros, fazia parte da Comissão de Redação. O tema selecionado era a análise do tenentismo e das revoluções de 1922 a 1935; a razão, dizia ele, era porque eu já mostrava entusiasmo pelo tema e já lera parte dessa literatura.
A proposta me pegou de surpresa. Até então era autor de quatro ou cinco artigos e de várias resenhas para o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. E só. Daí a fazer um livro havia distância. Depois de muita conversa, aceitei, com a condição de tentar fazê-lo e, se fracassasse, desistiria do compromisso. E na hora do aceito tornei mais elástico o tema, incluindo o golpe de 1937, pois a implantação do Estado Novo faz parte desse processo de conflito social, com novas acomodações oligárquicas e protestos da classe média e operariado.
Nos meses seguintes reuni os meus livros que tratavam do tema, fiz as leituras necessárias, organizei as anotações em fichas e iniciei a redação. No começo, a tarefa pareceu pesada e cheguei a gastar uma montanha de papel. Escrevia, lia e pedia para minha mulher, Flávia, ouvir as seis ou sete linhas iniciais escritas naquela hora: e nada. Era a confusão: rasgava a folha e pegava outra. Depois, outra e mais outra. Só após longo prazo é que o escrito tomou forma e continuidade.
O golpe de 1964 me fez interromper a sua redação, voltando a trabalhar a partir de setembro de 1964. A apresentação, a parte até 1930 e de 1930 a 1932, ficara pronta tempos depois. E até 1937? O que existe na bibliografia da época, simplesmente, relata brevemente que Getúlio Vargas debelara a Intentona Comunista de 1935, sendo um herói; e em 1937, torna-se ditador. Nada há escrito de maneira sistemática sobre o jogo de forças sociais existentes nessa época ou desenvolve essas questões. Diante disso, resolvi experimentar novas fontes. Se os jornais eram material que os historiadores, naquela hora, utilizavam para seus estudos do período da Independência e da Regência, por que eles não poderiam ter a mesma função no meu caso? Como conseqüência, a análise que faço dos anos de 1932 a 1937 se baseia, quase totalmente, em jornais da época, tendo eu posto de lado, naturalmente, o preconceito e o parti-pris de cada um deles.
Revoluções do Brasil Contemporâneo sai em 1965. Nos anos seguintes passei por vicissitudes bastante difíceis, pensando até em voltar a viver na fazenda. Mas o livro fora elaborado sobre um período bastante crítico da história do Brasil e ele, apesar de tratar do passado, levantava questões atuais. Afinal, o que é tenentismo? e as revoluções de 22 e 24? e 30? e 32? e por que a ditadura do Estado Novo se instaura de maneira tão pacífica? o que representa o movimento operário? a partir de 30 é a burguesia que está no poder? São perguntas feitas na época e muitas não foram respondidas satisfatoriamente até hoje. As respostas elaboradas por sociólogos e historiadores, com raras exceções, são esquemáticas e insatisfatórias.
Em 1969, ganhando uma bolsa da Fapesp, retornei ao trabalho de pesquisa. Estava dividido entre aprofundar o trabalho e tratar da década de 1920, ou me voltar ao início da história da República, por achar que muitas das dúvidas que tinha, aparecidas durante a redação do livro, poderiam ser resolvidas pelo novo esforço de pesquisa. Afinal optei por 1889, mesmo sabendo que muitos dos fenômenos históricos estão ligados aos tempos do Império e Colônia. Mas, de qualquer maneira, o alargamento do tempo histórico e a melhor explicação dos acontecimentos fariam elucidar de maneira mais satisfatória as questões.
E o modelo? As histórias do Brasil Colonial são múltiplas e mais satisfatórias. O mesmo não acontece com o Império e a República. No caso da Colônia, ao lado de obras clássicas, temos grande número de edições dos relatos e documentos de diversas origens, publicações mensais e anuais dos vários Institutos Históricos, papéis de Arquivos, obras de autoria de estrangeiros, etc., etc. Essa é uma das razões que facilitou Caio Prado Jr. ter escrito sua excelente Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. E por que não saíram as suas 2ª e 3ª partes, anunciadas numa das orelhas do seu livro: Formação... Império e Formação... República? A não ser que haja motivo que desconheço, acredito ser a razão fundamental a falta de pesquisa e trabalhos sobre as variadas facetas do Império e da República. Ainda mais, o pouco conhecimento que temos da sua bibliografia e da complexidade da realidade de então. Unicamente, novos e fartos trabalhos sobre esses períodos é que irão permitir o aprofundamento dos seus momentos históricos - da economia à política - e permitir a realização de obras analíticas de visão mais total e rica.
E sobre a República? Temos algumas histórias gerais que partem de pressupostos particulares: a de José Maria Bello - História da República -, que chega até 1954 e é visão tradicionalista, onde a economia é sinônimo de finanças, a política é o resultado da ação individual, e existe uma única força social, a classe dirigente; outra é de Leôncio Basbaum - História Sincera da República, em 4 volumes -, onde a dinâmica social resulta do movimento operário, particularmente o Partido Comunista do Brasil; e a de Sertório de Castro - A República que a República Destruiu -, que mostra o jogo político das oligarquias durante a primeira República. Todas são importantes, pois, além de seus valores, elas preenchem parte das informações e análises necessárias. Além desses livros gerais, existem monografias, biografias, depoimentos de grande valor, que ajudam a complementar elementos e análises necessários para a visão do estudioso.
No entanto, existem dois problemas básicos e iniciais, além de muitos outros que somos obrigados a enfrentar: 1) a falta de conhecimento da bibliografia; 2) desconhecimento dos seus fatores históricos, razão que empobrece a análise dos historiadores, impedindo-os de adquirir idéia mais dinâmica - e dialética - do processo histórico da época. Daí a falta de relações que deixa de ser notada entre a política federal e a dos Estados; o poder existente - dominante ou não - dos Estados; o papel da economia agrícola do café, do açúcar, etc., e suas relações com as classes sociais - não de maneira mecânica, mas sim pelo estudo de sua influência com a sociedade; o papel da burguesia na nossa história; o que são as classes médias e seu papel nos seus diversos momentos; o tenentismo e seu verdadeiro papel no processo de contestação; a origem do movimento operário, suas lutas e limites; a questão do imperialismo, etc.
As dúvidas existentes no início do trabalho foram, em parte, respondidas pela utilização da bibliografia levantada na ocasião. Ela não é completa e abrange unicamente o levantamento das obras utilizadas por mim entre 1969 e 1970. É preciso ser ampliada no futuro, pois, além dos que não estão assinalados na listagem, muitos outros livros apareceram posteriormente.
Dos 1.100 títulos, 80% foram adquiridos por mim. A razão foi a seguinte: essa literatura era considerada secundária e vendida a preço baixíssimo, sendo comum encontrarem-se 6, 7 e até 8 exemplares do mesmo título nas prateleiras de um sebo qualquer do Rio de Janeiro. Dessa maneira, obras secundárias se amontoavam à disposição do público, o que possibilitou que em um ano e meio pudesse adquirir mais de 800 volumes. Fora as adquiridas, consultei outras 300 ou 400 na Biblioteca Nacional e na Biblioteca do IHGB, além da Biblioteca Municipal Mário de Andrade.
A bibliografia apresentada reflete a variedade temática do material levantado. Por sua vez, alguns títulos dos livros que merecem melhor elucidação estão acompanhados de notas explicativas. E, para tornar mais clara a orientação, elaboramos um pequeno esquema político da Primeira República e de alguns de seus momentos básicos.