Pesadelos à esquerda

Marco Aurélio Nogueira

Jornal da Tarde,
14 jul. 2003.




O pior pesadelo de um governo de esquerda é ter problemas com a própria esquerda.
Um governo de esquerda que não consegue manter sintonia com os diversos segmentos da esquerda e da contestação social perde capacidade de ação unificada e pode ficar incapacitado para pôr em prática seus planos e programas. Passa a ter de consumir parte de seu tempo em negociações com aqueles que ao menos em tese são seus amigos, carne de sua carne, refreando os embates bem mais estratégicos com aliados e adversários. Além do mais, o atrito consigo próprio põe a nu as suas entranhas. Mostra o lado mais feio do jogo, o menos elegante, algo que seguramente contrasta a imagem positiva que a esquerda justamente se orgulha de carregar e faz absoluta questão de exibir.
Quando as divergências se acumulam e se explicitam no interior de um movimento, dizemos que uma luta interna se instaurou. Tal fenômeno integra a rotina das organizações políticas e é tanto mais inofensivo quanto mais se mantém próxima de um patamar mínimo, suportável, no qual as diferenças se manifestam no plano dos princípios e das idéias. Ultrapassado esse patamar, a luta interna se converte em guerra por posições e pela posse de recursos de poder, na qual princípios e idéias passam a valer pouquíssimo. Mergulha-se numa fase de retaliações e golpes baixos, exclusões e ofensas recíprocas, ameaças e acusações de todos contra todos. Vêm à tona aspectos incômodos e desagradáveis, rememorações de atitudes e posicionamentos passados, facetas ocultas e tropeços, num festival de contradições que turvam e embaçam a fisionomia atual dos protagonistas envolvidos. Amplificados pelos meios de comunicação, pela própria dinâmica do embate e pela rápida socialização das informações, os “dossiês” produzidos pela luta interna fazem com que não se saiba mais quem tem razão, quem exagera e quem falta com a verdade.
Há muitas formas de se viver em clima de luta interna. Pode-se tentar manter uma postura zen e, valendo-se da reiteração de princípios éticos superiores, manter abertas as portas do diálogo e proteger os mais fracos. É o que procura fazer hoje, no PT, o senador Suplicy. Tem-se nele um guardião da lisura e da justiça interna, um inimigo de atos punitivos ou exclusões, um defensor intransigente da idéia de que todos, no fundo, têm uma dose de verdade e boas intenções e devem, por isso, ser respeitados. Pode-se, também, cair para o extremo oposto e maximizar os recursos de poder, apelando-se para a “obrigação” que todo militante teria de apoiar e defender o governo. É o procedimento seguido tipicamente pelos que compõem a maioria na direção do partido, ou pelos que falam em nome do governo. Há, ainda, os que procuram fazer com que as idéias resistam e prevaleçam sobre as baixarias, batendo-se pela discussão doutrinária, pela convocação das melhores tradições teóricas, e assim por diante.
Em um certo ponto da luta interna, os protagonistas percebem que a tensão e a divisão podem espirrar no governo e, de algum modo, acelerar seu desgaste ou levar a uma “crise institucional”. Nesse momento, alguém terá de recuar, rever posições, alterar decisões. A maioria que está no governo pode jogar um papel decisivo aqui, especialmente porque tem poder para tanto e porque é “contra ela” que a luta interna se dirige. Seu raio de manobra, porém, costuma ser reduzido, sobretudo quando se vive em contextos de coligação ou de governabilidade difícil.
Arma-se, então, um cenário de salvação: preserve-se o líder. Matemo-nos todos, mas não deixemos que a imagem do presidente fique manchada demais, a ponto de inviabilizá-lo como chefe do governo ou liderança popular.
É uma saída inteligente, a não ser por um senão. É que a concentração de energias positivas no líder pode produzir uma hipertrofia da liderança, uma espécie de messianismo inconsciente que não só complicará as relações do governo com as instituições políticas do país, como também ajudará a que se criem ainda mais expectativas na população.
Nesse último caso, ter-se-á uma ponte para o cesarismo. É bem verdade que se pode admitir, como faz Gramsci, por exemplo, que há um cesarismo progressivo, que atua para emancipar as massas, e um cesarismo regressivo, que se dedica a preservá-las na condição de subalternidade e que acaba por “deixar um deserto atrás de si”. Pode-se sempre lutar para que o primeiro prevaleça e produza todos os seus efeitos positivos. Mas a linha que o separa do cesarismo regressivo é sempre tênue, e a nítida distinção entre um e outro depende de muitas e complexas circunstâncias (materiais, culturais e políticas). É um risco, portanto, que certamente não vale a pena correr.

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Marco Aurélio Nogueira é professor de Ciência Política da Unesp/Araraquara e um dos editores de *Gramsci e o Brasil*.
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