Trinta anos sem Allende

Alberto Aggio

*Gramsci e o Brasil* /
La Insignia




Há 30 anos Salvador Allende foi deposto por um golpe de Estado que alterou profundamente a história do Chile. Comandada por Augusto Pinochet, a ditadura que se impôs nas duas décadas seguintes tornou-se, como já se disse, o show case dos processos de imposição do neoliberalismo. O Chile passou a ser, sob o regime de Pinochet, o modelo do liberalismo real, em analogia contundente ao extinto socialismo real, nas palavras do sociólogo chileno Eugenio Tironi.
Para compreender amplamente aquele acontecimento, é preciso pensar historicamente sobre o período do governo Allende (1970-1973). O 11 de setembro de 1973 não foi um golpe militar como tantos que se processaram na história contemporânea da América Latina. O seu significado é muito poderoso e é importante tema de reflexão para todas as correntes políticas do continente, especialmente para as esquerdas.
O golpe militar de 1973 colocou por terra não apenas o governo da Unidade Popular (UP) que Allende encabeçava. Ele suprimiu a democracia chilena e tudo o que ela significava de desenvolvimento econômico e integração social promovidos pela política democrática e pelo Estado. A partir de 1973, o regime que se instalou impôs ao país uma nova ordem econômica, social e política. O regime de Pinochet não foi apenas regressivo. Foi também o inverso de todos os anseios revolucionários da esquerda chilena daquela época. Paradoxalmente, como também já se disse, os chilenos somente conheceram, de fato, o significado da palavra “revolução” com o regime de Pinochet.
A chamada “via chilena ao socialismo”, vocalizada por Allende, buscava seguir um caminho institucional para alcançar o seu objetivo, isto é, construir o socialismo pela democracia. Foi um esforço inédito na história, embora, naquela época, socialismo fosse entendido essencialmente como poder popular e estatização. O presidente e a UP escolheram a via do Executivo para implementar seu programa de governo, embora Allende tivesse tentado, por um momento, o caminho das alianças no Parlamento com a Democracia Cristã, partido reformista de centro. Por outro lado, fortemente influenciados pela Revolução Cubana, amplos setores da UP e do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionário) conseguiram impor uma perspectiva radicalizada de aceleração das mudanças rumo ao socialismo. O governo atuou como um pólo que seguia a via institucional e as bases sociais da esquerda como um outro pólo que buscou permanentemente resolver a chamada questão do poder, para implantar o mais rapidamente possível o socialismo.
Mesmo com todas essas diferenças de conduta e de estratégias, o que fica claro é que, no fundo, a esquerda no período Allende buscava realizar uma revolução feita por mecanismos legais do Estado chileno, mas pretendia implantar um socialismo que não era outra coisa senão algo equivalente ao que se passava na União Soviética, na China ou em Cuba. A partir da posse de Allende, para amplos setores da esquerda chilena uma definição a respeito do caráter de classe do Estado estaria inevitavelmente colocada e era preciso enfrentar essa questão nas melhores condições possíveis. Amplos setores construíam uma retórica sobre a luta insurrecional, contrariando, nesse caso, a visão de Allende, que pretendia encaminhar esse problema nos termos definidos pela institucionalidade, seguindo o calendário eleitoral.
A luta política do período indica, portanto, que Allende acabou se tornando uma liderança disfuncional, uma vez que não advogava a ruptura institucional e, por outro lado, não teve capacidade de dirigir e controlar por inteiro o processo político, que, por fim, redundou numa polarização catastrófica. A partir dessa análise, fica claro que, em primeiro lugar, implantar o socialismo da mesma maneira como ele havia sido implantado nos países do “socialismo real” era inviável nas condições do governo Allende. Em segundo lugar, em nenhum sentido estava amadurecido o significado da via democrática ao socialismo que a esquerda chilena, a partir do governo, deveria implementar.
Dessa forma, o governo Allende não pode ser pensado como uma experiência prática da impossibilidade histórica de uma via democrática ao socialismo, como pensou a esquerda latino-americana por vários anos. De fato, ele apenas anunciou essa possibilidade. Allende e a UP concebiam o socialismo a partir de uma cultura política convencional que predominava na esquerda latino-americana. O desafio que emergiu no Chile de Allende era novíssimo e obrigava a conceber não só o socialismo de outra maneira como também um tipo novo de estratégia para chegar a ele. Ator e circunstâncias se contraditaram e a história, por meio de outros atores, se impôs implacavelmente.

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Alberto Aggio é professor livre-docente em História da Unesp/Franca e autor de Democracia e Socialismo: a experiência chilena. São Paulo: Annablume, 2a.ed., 2002.
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