A imagem da esquerda e a mulher

Lincoln Secco
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Uma mulher tem o direito de subir ao cadafalso; ela deve ter também o de subir a uma tribuna (Olympe de Gouges, Les Droits de la Femme et de la Citoyenne) [1].
Marianne é o símbolo da Revolução Francesa. A estátua da liberdade é uma mulher. A República e a Nação são mulheres. Também a deusa da democracia. Os principais ícones que ainda sustentam os ideais de emancipação humana são femininos, entretanto as relações práticas das mulheres com os movimentos de esquerda nunca se deram em termos de igualdade. Proudhon, o teórico do anarquismo e da liberdade, acreditou, em seu Amour et mariage, na inferioridade da mulher. A Associação Internacional dos Trabalhadores, da qual Marx e Engels faziam parte, condenou o trabalho feminino para que as mulheres pudessem “ficar em casa”. Certamente, e como teremos oportunidade de ver, mulheres participaram sempre desses movimentos, fossem eles anarquistas, socialistas ou comunistas.
É verdade que a aristocracia setecentista nas regiões francesas podia ser acusada de muitas coisas, mas não por seu machismo [2]. Entretanto, a liberdade feminina era restrita às cortesãs e às mulheres de sangue nobre. Somente na Grande Revolução Francesa as mulheres esboçaram sua primeira forma de participação política coletiva. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão não se referiu às mulheres. E as constituições da França monárquica ou republicana não deram direitos a elas (nem mesmo a Constituição de 1793, a mais democrática de todas) [3]. Só às vésperas da República, depois de 1791, um “feminismo teórico”, na expressão de Elizabeth Roudinesco, ganhou força. Era o ano da crise, da guerra. Neste ano foi criada a Sociedade dos Amigos da Verdade, primeiro clube feminino [4].
O ano seguinte assistiria à fuga de Varennes e às dissensões que levariam ao 10 de agosto, à vitória francesa em Valmy, à queda da monarquia e ao início do Ano I republicano (22 de setembro de 1792). No ano II, a atriz de província Claire Lacombe (dita Rose Lacombe) e Pauline Léon animaram o segundo clube exclusivamente feminino da Revolução: o Clube das Cidadãs Republicanas Revolucionárias. Este era dominado pelo espírito enragé de homens como Leclerc e Jacques Roux e representava a sans-culotterie feminina. Este Clube foi fechado pelo Comité de Salut Publique em 30 de setembro de 1793. Protegida pelos hébertistes, Lacombe só foi aprisionada em março do ano seguinte. Permaneceu presa até 1795 [5].
Apesar desses antecedentes, o feminismo não se desenvolveu nem deixou rastros por muitos anos. Ele só recobrará ânimo depois de 1830, com o advento da monarquia de julho, de recorte liberal. O regime juste milieu não podia manter as mulheres nas mesmas condições da Restauração. Ou podia? Certamente, as mulheres mais militantes não concordariam com isso e fizeram suas demandas no bojo da nova ascensão das lutas revolucionárias dos anos 1830-1848. Foi nesses anos que a própria palavra começou a ser veiculada em francês. Féminisme apareceu por volta de 1837 [6]. Não por acaso foi nessa época que a palavra socialisme começou a ser utilizada e Robert Owen asseverou que o grau de emancipação da mulher era a medida mais segura para mostrar o nível de emancipação humana. As experiências cooperativistas de Owen criaram os jardins- de-infância e promoveram as idéias de igualdade entre os sexos.
A nova fase despertada pelas revoluções, especialmente depois de 1848, viu surgir uma nova mulher naqueles meios mais militantes (não necessariamente operários). A mulher livre. Segundo um dicionário de 1845, era aquela mulher que se desejava independente da lei e do poder do homem. Que pretendia os mesmos empregos que ele. Citava como as mais célebres mulheres livres aquelas da época da Revolução Francesa, como Catherine Théot e Olympe de Gouges [7]. Mas, em verdade, as mulheres militantes (do feminismo e ou do socialismo) fizeram suas primeiras aparições públicas na Primavera dos Povos. Foi a mais notável geração de mulheres revolucionárias surgida até então.
Em geral, nasceram com a Revolução de Julho de 1830 e eram bem jovens em 1848, mas já em condições de participar ou compreender o fenômeno revolucionário. E se tornaram militantes maduras na época da Primeira Internacional e da Comuna de Paris. Esses marcos históricos fizeram dessa geração a mais importante na luta pela emancipação feminina. Favorecidas pela educação recebida e, muitas vezes, pela origem na classe média, elas optaram, sempre, por uma combinação de estudos das questões sociais com uma vida independente, que exigia de algumas delas um extenuante trabalho físico para a garantia da sobrevivência. Afastadas de casamentos tradicionais, elas tiveram muitas dificuldades financeiras.
A boa educação foi fator decisivo na evolução de todas elas. Nathalie Lemel (1827-1921) era filha do dono de um café e adquiriu boa instrução. Abriu, depois, uma livraria. Léodile Léo (1832-1900), que se tornaria conhecida assinando seus escritos como André Léo, era filha de um oficial da marinha, o qual lhe concedeu excelente educação formal. Louise Michel (1830-1905), a mais célebre agitadora e escritora socialista, era filha do châtelain de Vrancourt, que lhe deu boa instrução. A mais jovem dessa geração, Pauline Mekarska Mink (1839-1901), conhecida como Paule Mink, era filha do Conde Mekarski, participante da insurreição polonesa de 1830 e que se refugiara na França. Margherite Tinayre (1831 - ?) era filha de burgueses remediados e fez bons estudos.
Essa geração só se tornou reconhecível depois de 1860, data da publicação de La femme affranchie, de Jenny d’Héricourt. O movimento feminista ampliou-se e cooperativas de ajuda mútua e de consumos foram criadas com as mulheres. Livros e artigos começaram a ganhar a imprensa operária. No final do século XIX o catálogo do Partido Operário Belga tinha uma seção de feminismo [8].
A palavra féministe passou a ser usada para designar essas mulheres militantes. A Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864, já tinha mulheres como Nathalie Lemel. Ela fundou com Varlin “La marmite”, uma sociedade de alimentação para operários a preços módicos.
Em Paris, as mulheres trabalhadoras viviam em situação de penúria. A cidade tinha, em 1870, ao redor de 112 mil operárias [9]. Um livro de 1874 declarava que uma mulher solitária não poderia viver numa cidade com menos de 248 francos. Na juventude ela ainda conseguiria em média uns 172 francos. No auge de sua força física uns 250 francos. Mas na velhice não mais do que 126 francos [10]. Essas mulheres dificilmente chegariam aos mesmos níveis de educação daquelas supracitadas. Ainda assim, a exemplo dos operários do sexo masculino, ainda que em menor medida, muitas delas se fizeram autodidatas e escreveram autobiografias.
Na Áustria, Adelheid Popp descobriu sua militância através da auto-educação. Com um histórico de abusos sexuais, opressão familiar e falta de escolaridade formal, ela começou lendo romances até que descobriu a literatura socialista. Leu Kautski, Lassale, Engels e os jornais operários. Fez-se a primeira líder feminina da socialdemocracia austríaca. Foi editora do partido e, depois da Guerra de 1914-1918, deputada no parlamento [11].
Mas esse já era um momento em que o feminismo espraiou-se para além do socialismo, envolvendo mulheres de classe média que lutavam pelo voto. Um comentário de um autor português da época revela muito: “[...] todas as meneuses do sufragismo inglês [...] roucas, violentas, desgrenhadas, masculinas, invectivando de punhos cerrados a multidão - hão de ser vencidas na luta com o homem, sobretudo porque a sua obra, além de contraditória com a fisiologia e com a psicologia da mulher, é uma obra destruidora de toda a harmonia, de toda a felicidade, de toda a beleza. O enigma da mulher resume-se nisto: ser bela para ser possuída” [12].
Era obra da mentalidade difusa na época o ideal de estar de acordo com a fisiologia, a psicologia, a sociologia... enfim: a ciência. Não era até mesmo o racismo “científico”? O preconceito contra a mulher não era diferente. E só foi combatido de modo eficaz por elas mesmas. Até mesmo no interior dos movimentos socialistas. Eles foram menos hostis a elas. Mas não estavam despidos de toda a misoginia de sua época.
A prova disso pode ser encontrada seja nos meios socialistas, seja naqueles libertários (de longe os mais abertos à liberdade sexual e social das mulheres). No início do século XX a principal acusação que se fazia às mulheres nos meios anarquistas era a de que sua entrada no mercado de trabalho rebaixava os salários dos homens e provocava até mesmo o desemprego entre eles [13]. Os sindicatos socialistas e trabalhistas preferiam ver a mulher casada no lar. E, de fato, a maioria delas trabalhava até o casamento, mas não depois (com as exceções habituais, como a região têxtil do Lancashire). Na Inglaterra, em 1911, só 11% das trabalhadoras tinham marido e, na Alemanha, 30% em 1907 [14]. Muitas que continuavam a trabalhar para fora o faziam em casa. Mas nem mesmo o trabalho doméstico, típico de famílias aristocráticas ou das classes dominantes e das camadas médias no Terceiro Mundo ainda hoje, manteve sua importância no emprego das mulheres. Em 1913 só 5% das casas tinham domésticas residentes na Inglaterra. Em 1951, somente 1% [15].
Tudo isso mudou muito depois de 1914, com a Guerra Européia. Mais mulheres assumiram postos na indústria e no setor terciário. E os movimentos exclusivamente femininos, bem como as alas femininas dos sindicatos e partidos operários levaram a esquerda a ampliar a luta pela igualdade de direitos entre os gêneros. Incluindo o sufrágio universal que começou a se estender dos países nórdicos aos Estados Unidos e até ao Brasil depois da Revolução de 1930, abarcando, hoje, a maioria dos países.

_______________

Lincoln Secco é professor de História da USP.
_______________

Notas

[1] Roudinesco, Elizabeth. Théroigne de Méricourt: uma mulher melancólica durante a Revolução. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 106.

{2] Apud Renato Janine Ribeiro, em: Montesquieu. Cartas Persas. São Paulo: Paulicéia, 1991.

[3] Les Constitutions de la France depuis 1789. Présentation par Jacques Godechot. Paris: Flammarion, 1979, p. 73.

[4] Roudinesco, cit., p. 103.

[5] Tulard, J. et. al. Histoire et dictionnaire de la Révolution Française. 1789-1799. Paris: Rober Laffont, 1987, p. 917.

[6] Dauzat, A., Dubois, J., e Mitterrand, H. Nouveau dictionnaire étymologique et historique. Paris: Larousse, 1971, p. 300.

[7] Saint-Laurent, Ch. Dictionnaire encyclopédique usuel. Répertoire universel et abrégé de toutes les connaissances humaines. 3 ed. Paris: Au comptoir des imprimeus-unis, 1845, p. 581.

[8] Destrée, J., e Vandervelde, E. Le socialisme en Belgique. Paris: Ed. V. Giard e E. Brière, 1903. (1ª ed.: 1898).

[9] Nöel, Bernard. Dictionnaire de la Comune. Paris: Ed. Fernand Hazan, 1971, p. 171.

[10] Legouvé, Ernest. Histoire morale des femmes. Paris: Ed. Didier, 1874, p. 371.

[11] Lyons, Martyn “Experiências de leitura: mulheres de classe trabalhadora na Europa do século XIX”. In: Lyons, M., e Leahy, C. A palavra impressa. Histórias da leitura no século XIX. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 1999, p. 85.

[12] Dantas, Júlio. Figuras de ontem e de hoje. 2 ed. Porto: Livraria Chardron, 1919, p. 54-5.

[13] García-Maroto, M. Angeles. La mujer en la prensa anarquista. España 1900-1936. Madrid: Anselmo Lorenzo, 1996, p. 77 s.

[14] Hobsbawm, Eric. Mundos do trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 135.

[15] Id. Da Revolução industrial inglesa ao imperialismo. Rio de Janeiro: Forense, 1979, p. 260.