Uma voz fora do tom: a mulher como sujeito

Miriam Guindani

*Gramsci e o Brasil* /
La Insignia




O que quer uma mulher? O que pode, diz ou pode dizer uma mulher? O que se diz de uma mulher, no jogo da política, especialmente da política mais suja dos dossiês apócrifos, arma para a destruição de reputações? Como se diz o que se diz de uma mulher? Respondo: diz-se sob forma apendicular, anexada a um pronome possessivo: “esposa de”, “mulher do”. Em meu caso, “a mulher do Secretário”. Dupla aniquilação: pela acusação injusta do dossiê e pela desconstituição da individualidade. O texto que se segue não esconde a subjetividade e as emoções. É despudorado e questiona as fronteiras entre os gêneros: artigo político, depoimento biográfico, razão e emoção, público e privado. Nesse sentido, aproveito-me da caricatura do feminino. Se as mulheres são associadas à fragilidade sentimental da vida privada, eu, aqui, aceito a estigmatização e a utilizo em benefício da razão política e da vida pública. Mas de uma outra política menos torpe. Mais feminina, talvez - sem idealizações.
Rompo o silêncio, já que o silêncio não foi rompido. Talvez corra o risco de não conseguir traduzir sentimentos, reflexões e questionamentos que permearam os episódios envolvidos na exoneração do ex-Secretário Luiz Eduardo Soares, meu marido. Para evitar instrumentalizações políticas, cancelei um contrato público legítimo, que determinava a elaboração de uma matriz de capacitação e treinamento na área de segurança urbana, e de um modelo para programas de prevenção da criminalidade, que seriam implementados por consórcios de municípios das regiões metropolitanas do país. O sistema de formação integrado focalizaria a qualificação de gestores e operadores (guardas civis, polícia comunitária, agentes de saúde, educadores, assistentes sociais e conselheiros tutelares) em gestão municipal de segurança e mediação de conflitos. Os produtos seriam pagos mediante avaliação rigorosa de um órgão externo à gerência do então secretário Luiz Eduardo. Em dez meses realizei cinco viagens como colaboradora eventual para realizar reuniões afetas à gestão municipal de segurança. Minha participação no projeto “arquitetura institucional do Sistema Único de Segurança Pública”, patrocinado pela Firjan e pelo PNUD, era voluntária. Ou seja, trabalhei todo esse tempo por uma causa, sem remuneração, para evitar mal-entendidos. Mas nada disso foi esclarecido.
Muitas vezes tive impulsos de falar aos meios de comunicação, para responder ao que via, lia e ouvia. Queria apagar as injúrias com uma borracha e reconstruí-las a partir da minha própria versão. A cada dia em que a imprensa se reportava a mim como “a mulher do secretário” que se beneficiava de “nepotismo”, sentia-me impotente frente ao silêncio daqueles que, naturalmente, deveriam se posicionar. Optei também pelo silêncio. Silêncio que sinalizava minha espera de alguma nota ou manifestação por parte daqueles que detém o poder de esclarecer e desmentir as acusações falsas. Pensava: se minha experiência profissional era notória, seria conveniente comprová-la? Deveria ir a público e dizer para todos quem eu era, como profissional, além de ser “a mulher do Secretário”? A caminhada voluntária, mas reconhecida publicamente, desde a elaboração do Plano Nacional de Segurança, passando pela Transição ao governo Lula, até a implantação do Susp, deveria ser anulada ou camuflada? Eu deveria divulgar a minha bagagem profissional com 15 anos em políticas públicas - nas áreas da saúde, educação e, especialmente, justiça criminal - como especialista, mestre, doutora, pesquisadora, gestora?
Havia diferentes razões para demonstrar o quanto era legítimo e não representava nepotismo o que estava em curso. Bastava fazer uma consulta ao meu currículo lattes, verificar a aprovação em quatro concursos públicos, minha experiência de 12 anos em universidades, minha trajetória no governo do Rio Grande do Sul. Bastava verificar que “a mulher do Secretário” já fazia parte do banco de profissionais do Ministério da Justiça desde 2002, após ter sido selecionada em concurso rigoroso, na gestão FHC. Mas isso não ocorreu. Venceu o dossiê, a desconfiança. E da suspeita veio a condenação pelo silêncio. Cancelei o contrato para evitar alguns danos, mas os danos à política de segurança provocados pela quebra do contrato ninguém questionou. Pelo contrário, houve pseudomoralistas que avaliaram tal gesto como uma espécie de confissão de culpa. A perda de pessoas e de um trabalho inédito que estava sendo desenvolvido no país ninguém questionou. Restou apenas o silêncio.
Em alguns momentos, parece que desperto de um pesadelo. Sou invadida por uma necessidade de responder e romper a inversão surrealista de valores. Depois, volto a recuar. O tempo das notícias, das injúrias, das fofocas, parece não passar, assim como paradoxalmente faltou tempo para falar. O espelho está partido. Algumas vezes penso que errei na opção por um projeto de sociedade e que me iludi ao doar-me, como fiz, ao compromisso com um novo tempo.
Talvez tenha ficado acorrentada à imensa vontade de não parar de me iludir, mesmo quando caíam as máscaras e o poder se expunha em sua crua misoginia. Perto do fundo do poço, agora, enxergo um espaço para a liberdade. Tudo pode converter-se em outra realidade. Por isso, escrevo esse artigo, ousando fazê-lo no tom das mulheres, em linguagem emotiva e subjetiva, de dentro para fora, estreitando os laços entre público e privado, para começar a desconstituir a política pusilânime das razões pragmáticas.

______________

Miriam Guindani é doutora em Serviço Social e professora da PUC-RS. Veja-se, também, Nepotismo, dossiê & democracia plebiscitária, de Luiz Eduardo Soares.
______________