O PT é quase um partido liberal

Entrevista concedida a Gilberto de Souza

Jornal do Brasil,
19 out. 2003




Doutor em Sociologia, o professor Luiz Jorge Werneck Vianna expressa sua preocupação quanto aos rumos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e do partido que o elegeu. As graves reflexões sobre a realidade brasileira, amparadas por tantos séculos de política encerrados nos livros que habitam, desalinhados, a pequena sala em um tranqüilo sobrado de Botafogo, levam o professor à década de 80. Naquela época, ele ouviu de Lula que ''a CLT é o AI-5 dos trabalhadores''. A frase - prontamente rebatida com a certeza de que, na verdade, ''o AI-5 dos trabalhadores é o AI-5, não a CLT'' -, faz o intelectual prever o drama que será, no Congresso, a discussão sobre a reforma trabalhista. O governo, que ele julgou apto a solucionar questões como a da concentração da renda, ''recusa-se a dizer que rumos seguirá''. De acordo com o presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs), a intelligentsia oficial oscila entre o ''assistencialismo feroz'' e o apoio à tese neoliberal da estabilização monetária. A indução para o ''espetáculo do crescimento'' prescinde do setor produtivo, como prevê o mestre do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). ''Sempre achei PSDB e PT muito parecidos'', desconfia. Ao longo de seus 65 anos, viu nascer e se avolumar a onda vermelha que varreu as urnas, ano passado. Agora, antecipa o seu ressurgimento no horizonte da reeleição, em 2006. Em meio ao desânimo que começa a se cristalizar, acredita que ''ainda há tempo de se alterar este quadro''. Na entrevista ao Jornal do Brasil, o professor Werneck Vianna deixa no ar uma ponta de esperança.

Como está o governo Lula?
Venho me esforçando muito no sentido de ter uma posição prudencial. Mas não digo que as coisas estejam ficando claras. Tem algumas tendências que me parecem muito negativas. A mais complicada é a alteração de rota desacompanhada de uma justificação circunstanciada. A questão do Meio Ambiente, por exemplo, mostra uma guinada de rumos muito profunda. A visão do público, o papel do Estado como o grande tomador de decisões em matéria econômica, estes temas foram sucedidos pelo mercado.

Esta seria uma mudança inexorável?
Inexorável não é, mas é uma tendência muito forte. A expectativa deles é de que, ao longo do próximo ano, a situação esteja mais equilibrada nas contas externas, a pressão ceda, os juros caiam e haja a retomada do crescimento. Mas isso, segundo os economistas válidos em nosso país, de acordo com os próprios depoimentos deles, jamais ultrapassaria os 3% ao ano.

E o senhor, acredita que o espetáculo do crescimento não passe de um arremedo de 3%?
Isso na melhor das hipóteses. Quando se pega a explosão demográfica e, em especial, a chegada dos jovens ao mercado de trabalho, vê que 3% não dá pra nada. Dá para um certo alento na disputa da reeleição. Caso sejam vitoriosos, vai se consolidar a idéia deste partido, deste governo, como ente muito mais adaptado às circunstâncias do que movido pela idéia das transformações. Mas o PT apareceu no mundo com a idéia de mudança. Foi assim que ele venceu as eleições...

Com base nas promessas de mudar o país...
A continuar assim, a grande lesão será a de que o único partido identificado com a idéia da mudança foi dominado pela conservação, pela inércia. Seria uma herança muito complicada de se administrar.

Há outros cenários para o país?
Este que acabo de cogitar é a melhor das hipóteses. Formulo, na verdade, três quadros. No primeiro, a sociedade permanece prudente na observação do governo e o PT vence a reeleição. Tudo estaria muito bem, do ponto de vista de quem está no poder e quer permanecer nele. Agora, sob o ângulo do projeto, estará derrotado.

Se esta é a melhor das possibilidades...
Vamos para um cenário que não seja o melhor. O intermediário. Pode haver um desalinhamento severo dos setores que acreditaram ser na produção a ênfase deste governo. O viés, porém, é financeiro, e não produtivo. O próprio partido pode desandar, não suportar estas mudanças. O Gabeira, agora, é um caso isolado ou abriu o portão? Há possibilidade da forma como ele se comportou generalizar-se. Ele saiu bem. Neste cenário, que não seria o pior, poderia acontecer o que ocorreu na Itália, onde Silvio Berlusconi sucedeu Massimo D’Alema.

Ainda existiria situação pior do que esta?
O cenário mais terrificante é a questão social voltar a se manifestar nas ruas.

Há um plano B?
Seria uma ingenuidade minha dizer que isso é uma impossibilidade. Mas, na verdade, não há um indicador atual que nos estimule a isso. O que se tem é o Antônio Palocci cada vez mais próximo do Pedro Malan. E quem faz o papel do Serra?

O ministro José Dirceu?
Isso também não está claro. O papel do Dirceu parece ser o de garantir a governança, a estabilidade política, enquanto que o do Palocci é o de assegurar a estabilidade econômica.

Ninguém iria acreditar de graça na hipótese de uma saída à esquerda. A seu ver, que Plano B seria este?
O Plano B seria enfrentar o tema das dívidas interna e externa...

Com apoio dos comunistas?
O PC do B admite, certamente, que em um dado momento haverá um Plano B.

Capaz de encarar o FMI?
Não precisa tirar carta de valente, mas pode-se enfrentar sim, como a Argentina fez agora. Com diplomacia. É evidente que haveria alguma repercussão internacional, tem que se estar atento a isso, mas há que segurar, baixar os juros.

O passado político seria um indicativo quanto à viabilidade daquela rota alternativa?
O passado teria que ser do partido. O PT é um mistura da Igreja, com suas preocupações com o social, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, dos intelectuais, que foram socializados nas lutas armadas, na época do regime militar, e dos sindicalistas. Mas há um rastro anterior muito complicado. O Dirceu, com aquela história dos cubanos, complicado. Genoino, com o Araguaia, também complicado. Do ponto de vista da luta política democrática, são todos adventícios, cristãos-novos.

Como fica este amálgama de forças políticas no PT, diante da guinada ao centro?
A Igreja, evidentemente, é de uma matriz que não é a do mercado. Da mesma forma, a intelligentsia, de onde vieram o Dirceu e o Genoino, não é a do mercado. Por suposto, veio de outra banda. Os sindicalistas, estes sim, originaram-se nas grandes empresas privadas de São Paulo. Fizeram sua história de oposição ao regime militar em torno de uma agenda liberal, contra a legislação do trabalho consubstanciada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Em um debate em que eu estava presente, perguntado, Lula disse que a CLT era o AI-5 dos trabalhadores. Retruquei muito duramente que o AI-5 dos trabalhadores era o AI-5 e não a CLT. O PT nasceu na dimensão privada, com certa concepção liberal.

Então, não se é de estranhar, realmente, que o Lula tenha negado ser de esquerda...
Não é mesmo. Sempre olhei de maneira desconfiada para este tipo de movimento. Acho o PSDB e PT muito parecidos. Se olhar bem, primeiro são partidos paulistas. Depois, representam a idéia de que o perigo está no Estado, e não no mercado, que acreditam ser preciso destravar para que o país vá adiante.

As reformas, então, serviriam para se retirar as travas que impedem a atuação do mercado?
Elas são uma confirmação disso. O que se pode dizer é que estão sendo feitas com uma grande compaixão quanto aos setores mais desfavorecidos. Há um envolvimento emocional que aparece nas políticas públicas de atendimento à pobreza, à miséria. Mas também não se pode ignorar que isso é de um assistencialismo feroz. O Fome Zero, por exemplo. É de um assistencialismo que não há registro na história brasileira.

Uma destas amarras seria a legislação trabalhista. Como o senhor vê esta discussão?
Isso vai ser um drama. Ora, promover alterações substanciais como estas que estão comentando, capazes de retirar do trabalhador direitos adquiridos ao longo de décadas, isto será uma tarefa de fôlego.

Com esta situação, qual a perspectiva?
A de que ainda há tempo para, de forma inteligente, contemplando a diversidade das circunstâncias, preservar o compromisso do governo com as mudanças. É o essencial. O que importa é que este compromisso seja evidenciado. Não pode ficar oculto num Plano B que ninguém sabe onde está.

Alguns intelectuais também acreditam em um tempo para se corrigir os rumos. E o seu tempo?
Não pode passar do primeiro semestre do ano que vem. Se passar, mesmo que queiram depois, terão dificuldades...

O efeito Gabeira já vai estar avançado?
Não é só isso. Um projeto de mudanças tem encadeamento próprio. Não é algo que, em um determinado momento, possa ser anunciado de repente. No nosso caso, mudar significa mexer com interesses poderosos, os sistemas financeiros nacional e internacional. O que se precisa fazer é obrigar que o mundo das finanças sirva ao mundo da produção. Não é isso que está ocorrendo.

Qual o preço a ser pago por um desvio de rota imenso como este que o senhor está apontando?
O preço disso é o PT deixar de ser o partido das mudanças. Por onde a sociedade vai pensar estas mudanças? Vai descrer da política. Este, para mim, um dos problemas mais fundos. A sociedade acreditou que a política poderia mudar o país. A política está dizendo para a sociedade que não é capaz de fazer. Caso isto se certifique, será a pior pedagogia para o nosso povo, que é a descrença nas instituições democráticas. Sem democracia, as mudanças são impossíveis.