Um liberal nos trópicos

Luiz Sérgio Henriques
O Tempo,
Belo Horizonte, 28 dez. 1997, p. 8














           "A ausência de alternativas torna a mente espantosamente clara." (Henry Kissinger, apud Roberto Campos)

           Diante da produção jornalística de Roberto Campos nestes anos 90, agora enfeixada num volume de mais de 500 páginas (Antologia do bom senso, publicada pela Topbooks e Bolsa Mercantil & Futuros) sempre se pode, evidentemente, dar de ombros, com a alegação de que se trata do costumeiro samba de uma nota só: a repetição, ainda que com veneno e charme, da receita liberal para todos os males do capitalismo brasileiro, reais ou supostos.
           Há alguma (ou muita) verdade nesta crítica já tradicional aos escritos de Campos. Mas talvez não seja descabido aproveitar a oportunidade para examinar alguns aspectos da personalidade política e intelectual do autor, à luz do pressuposto de que nos encontramos na presença de um singularíssimo intelectual público, num tempo em que, para o bem e para o mal, a produção cultural submete-se crescentemente aos padrões característicos do circuito acadêmico.
           Neste sentido preciso, Campos é um robusto dinossauro, um pouco à maneira das empresas estatais que formam um de seus invariáveis alvos eletivos. E o ponto inicial para entender este intelectual público talvez seja observar que, distante das salas de comando da economia, que já pilotou nos idos de 1964, Campos concentra-se hoje na tarefa de articular e difundir entre a massa de seus leitores uma espécie de "consciência máxima possível" do liberalismo político e econômico.
           Como tal, exerce o papel crucial de contribuir para fazer do bom senso liberal- capitalista o senso comum indiscutido de nossa sociedade. Uma invejável disposição de luta pela hegemonia, expressa em lances muito sintomáticos, como, por exemplo, a entusiasmada apresentação de um dos corifeus da nova direita mundial (o economista austríaco Hayek) aos militares brasileiros. Certamente, uma aposta de Campos na mudança do código genético positivista-desenvolvimentista destes últimos, quem sabe à espera de ver repetir-se aqui a elogiada fórmula que explicaria o "milagre" chileno: Pinochet + Milton Friedman... (Veja-se, na p. 70, "Hayek nas casernas", originalmente um ensaio introdutório para o livro do próprio pensador austríaco, O caminho da servidão, publicado pela Biblioteca do Exército em 1994).
           Nesta mesma linha, merece ainda atenção o rigor puritano com que Campos trata o capitalismo brasileiro. Capitalismo retardatário, como se sabe, e por isto mesmo politicamente orientado pela intervenção de um Estado desenvolvimentista, fora do paradigma clássico de economia de mercado e governo limitado. Tanto basta para que nosso autor, denunciando a matriz não-clássica da moderna ordem burguesa brasileira, declare peremptoriamente, em pleno ano da graça de 1992, que "o capitalismo nunca existiu no Brasil" (p. 206); ou ainda, em 1995, que vivemos num semitotalitarismo econômico (p. 434), num regime criptossoviético...
           Num plano mais geral, Campos participa indiscutivelmente da ortodoxia de pensamento que tem acompanhado a globalização neoliberal em curso. À sua maneira, e neste canto do mundo que se costuma chamar de Extremo Ocidente, nosso autor trava aquela "luta discursiva" -- apontada, entre outros, pelo marxista americano Fredric Jameson -- cujo objeto é definir univocamente -- totalitariamente -- o sentido dos conceitos e as regras de seu uso.
           Trata-se, deste modo, de estruturar um campo em que percam sentido os temas tradicionais da esquerda e, no limite, a própria noção de esquerda. Assim, será possível encontrar na Antologia um duro requisitório hayekiano contra a palavra "social", tida como parasitária e fraudulenta (p. 221). Não faria sentido algum falar em "social- democracia", por exemplo, sob o risco de denotar "uma certa melancolia pelo dirigismo" que foi de roldão junto com o Muro de Berlim. "Justiça social" é outra expressão a ser preventivamente combatida pela nova polícia do pensamento (p. 191), uma vez que qualquer preocupação distributivista emperra os mecanismos da competição e trai uma monstruosa vocação despótica.
           Não menos insensato seria o projeto de democratizar a esfera pública e o Estado, assim como o de defender políticas de bem-estar. Afinal, todas as ações e instituições humanas são inerentemente imperfeitas, com a óbvia exceção do mercado, o qual, se eventualmente produz efeitos indesejáveis, perversos ou nocivos, é capaz de autocorreção automática, cumprindo função próxima daquela reservada à Divina Providência nos velhos e bons esquemas teológicos.
           Decorre daí, com a precisão formal de um silogismo, que cada uma das esferas da vida deve conformar-se às exigências do indivíduo proprietário e aos requisitos da eficiência econômica. Afirma-se como um imperativo categórico a modernidade burguesa, expressão da única socialidade possível, uma vez que só ela flui espontaneamente dos apetites do indivíduo realmente existente e do livre jogo do mercado.
           Diga-se de passagem que existe nisso tudo, como é óbvio, uma teoria da natureza humana como substância egoísta, que só o mercado é capaz de domesticar e conduzir a um porto seguro: no capitalismo, diz-nos Campos, as péssimas intenções de cada indivíduo, sempre eivadas de eterno egoísmo natural, acarretam paradoxalmente bons resultados. No socialismo, é o contrário: ótimas intenções levam a milhões de mortos, como no stalinismo.
           De resto, no pensamento de nosso autor, outrora existiu uma esquerda, mesmo que voluntarista ou despótica; mas agora não há mais: "Na verdade, estamos hoje numa idade de ecletismo operacional, em que o neoliberalismo absorveu, há longo tempo, as contribuições positivas da esquerda, enquanto esta, à força de viver de contestação em contestação, perdeu, na maioria dos casos, a capacidade de tornar-se governo" (p. 100; os grifos foram acrescentados).
           Na verdade, nesta como em inúmeras outras passagens, o que se conclui, com toda a coerência, é aquela operação conceitual através da qual a esquerda não apenas perde a capacidade de governo, mas a própria razão de ser. Mesmo porque, em última análise, quaisquer medidas redistributivas ou de segurança social só são possíveis nas "verdadeiras" sociedades de mercado e surgem "em boa parte das entranhas do pensamento liberal" (p. 202).
           Está cancelada assim a possibilidade de uma oposição moderna e racional à onívora modernidade liberal-capitalista. Tomado pela fé do carvoeiro, Campos chega a apontar áreas inteiras -- Estados Unidos, Europa Ocidental, Japão -- que doravante desfrutariam de uma "tranqüilidade sistêmica" e nas quais a história parece ter chegado ao fim. E a modernização de sociedades como a brasileira não passaria de uma adequação sem restos ao modelo de capitalismo realizado em tais áreas.
           Dá para desconfiar que as formulações de Campos encobrem muitíssimas simplificações. Como roteiro extremo da reforma liberal em curso no país, pecam sempre pela atitude doutrinária, deliberadamente ignorante da especificidade histórica do capitalismo brasileiro, e por isto passível de desvios autoritários. Como visão de mundo e dos processos históricos, Campos acaba por gerar uma desconfortante sensação de universo orwelliano, cuja "novilíngua" é a expressão material de um pensamento único -- decerto ainda mais perigoso que o partido único...