A propósito de expulsões, partidos e Estados

Daniel Aarão Reis Filho
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




Incomodado com as ações do Duque de Elghien, então abrigado no território de Baden, Napoleão imaginou silenciá-lo. E não hesitou nos meios, pois era um grande imperador. Mandou sequestrá-lo, julgou-o em corte sumária e fuzilou-o. Ao saber do fato, Talleyrand, um dos mais cínicos diplomatas da história contemporânea, filosofou: “Mais do que um crime, foi um erro”.
Se vivo fosse, o velho diplomata talvez dissesse o mesmo do ato que defenestrou a senadora Heloísa Helena e os três deputados federais, abrigados no território do PT. Como um grande presidente, Lula não hesitou nos meios. Mandou processar e condenar os dissidentes ao ostracismo, eliminando-os do partido.
As expulsões têm causado grande alarido e repulsa. Mas há algo de farisaico na grita, eis que todos sabem que os atuais excluídos são notórios adeptos de partidos centralizados e já se empenharam em outras expulsões, ou foram seus cúmplices, por ação ou omissão. Aliás, o presente estatuto, que autoriza o tipo de guilhotina que se abateu sobre suas cabeças, foi por eles mesmos, ou por seus correligionários, elaborado e aprovado. Além disso, sabe-se que estas não foram as primeiras expulsões nem serão as últimas. Há precedentes ilustres, alguns ainda mais perturbadores, dos quais não parecem lembrar-se os que denunciam o episódio atual. De sorte que neste filme, quem quiser encontrar o mocinho, vai ter dificuldade em achá-lo.
Entretanto, há algo de muito mais grave acontecendo. Para além dos expulsos, e já não falo dos que se retiraram e se retiram, desencatados, e dos que permanecem, mas confinados, sem espaço para debate e crítica, para além deste proscênio, onde se desenrola o espetáculo, há um vasto iceberg, submerso, o do avassalamento do PT pelo governo federal e, em particular, pelo presidente da república.
A rigor, não se trata de uma novidade. Ao longo do século passado, no contexto das revoluções socialistas, o fenômeno da descaracterização dos partidos, de sua progressiva submissão à dinâmica estatal e aos ditames do governo, foi notado, criticado, denunciado. Lenin, arquejando no leito de morte, grande responsável pelo monstro que se ia criando, tentou elaborar antídotos, em vão. Foi dele a sinistra metáfora de que os bolcheviques mantinham uma aparência de comando, ao guardar o volante do carro, enquanto este descia, sem freios, incontrolável, a ladeira para o abismo.
Mais tarde, em outras revoluções, e até nas experiências reformistas da socialdemocracia européia, embora com incidência desigual, o mesmo se repetiria, como uma maldição. Algém falou em fusão de partido com o Estado. Mas era o Estado que fagocitava o partido. Organizações políticas cheias de vitalidade, ao alçar-se ao poder de estado, cedo se viam alcançadas por estranha anemia, como se fossem aspiradas, ou sugadas, pelas instituições que pretendiam dirigir, perdendo-se e perdidas nos meandros e labirintos de distintas burocracias, submetendo-se a suas lógicas, tomando gosto por elas, por seus rituais e esplendores, como se estivessem inebriadas por vapores desconhecidos, mas gozosos.
O processo já fora detectado, em escala menos ampliada, em administrações municipais e estaduais do PT. Os militantes de maior importância, e de menor também, todos os que pudessem, desapareciam no interior do Estado e de seus aparelhos, atores que se queriam principais, recriando-se como figurantes secundários, engrenagens de máquinas que haviam desejado redirecionar, quando não sonhado destruir. Do lado de fora, quedava o partido, inerme, exaurido pela sangria de quadros.
O PT “federal” não fugiu ao padrão. Mas o que impressiona é o caráter fulminante do processo. Em menos de um ano, desapareceu o que restava de autonomia. O partido só faz o que “seu” mestre manda. O governo decide, o partido (leia-se, parlamentares e funcionários) cumpre. O presidente ordena, o partido obedece, o chefe da Casa Civil põe, o partido dispõe. O presidente, como o toureiro, parece ter a espada desembainhada, pronta para dar a espetada de morte no touro-partido, cheio de bandeirolas, imobilizado, trêmulo de tanto sangue perdido. Mas não precisa. O touro ainda está de pé, mas já está morto.
Lula-toureiro dá as costas para o touro, e ergue os braços para receber a ovação da multidão. José Genoíno e a maioria do Diretório Nacional estão na platéia, aplaudindo, ao som de clarinadas e de bandeiras vermelhas. Nestas, a estrela de cinco pontas, símbolo revolucionário, é pura melancolia.

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Daniel Aarão Reis Filho é professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense.
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