O PT já se definiu como partido de centro

Luiz Werneck Vianna

Valor,
29 dez. 2003.




A lacuna aberta no espectro político brasileiro a partir da migração do PT da esquerda para o centro vai demorar a ser preenchida. A afirmação é do cientista político Luiz Werneck Vianna, que não enxerga substitutos imediatos para o partido dentro da esquerda. “Pequenos grupos de esquerda já existem, mas uma esquerda afirmativa, com capacidade de influência... Isso leva tempo”, explica o professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).
Na análise de Vianna, o PT não corre o risco de se desintegrar por ter abandonado suas antigas premissas. Mas, já se definiu como um partido de centro, “com uma agenda política de centro”. “Isso não quer dizer que o partido vá virar pó, porque o centro é capaz de unificar”, ressalva o cientista político, acrescentando que o PT pode se destacar como reformista capaz de unir numa mesma agenda projetos sociais e tarefas modernizantes não levadas a cabo por outros governos.
Nessa opção pelo centro, o PT apenas ocupa um lugar que antes pertencia aos tucanos: “O centro no Brasil mudou de mãos. PT e PSDB estão batendo cabeça no centro político brasileiro”, afirma.
O processo de unificação do PT - enfatiza Vianna - vem sendo conduzido dentro dos moldes do centralismo burocrático, com as controvérsias internas solucionadas pela via administrativa e não mais pelo debate democrático. Apesar do desencanto de muitos intelectuais que ajudaram a fundar o partido, Vianna alerta que ainda há um embate dentro do governo entre continuístas e reformistas cujo resultado dependerá das pressões da intelligentsia e dos movimentos sociais. A seguir os principais trechos da entrevista concedida pelo cientista político ao Valor.
Rodrigo Carro

Com a expulsão dos radicais, o PT inicia 2004 mais unido ou mais fragmentado?
O partido pode até ficar mais unido. Mas o elemento de solda não é mais a livre opinião partidária, o consenso obtido nas convenções. O elemento de solda agora é verticalizado, de cima para baixo. É do governo para o partido. É o governo que está pautando o PT. O PT se tornou um partido de Estado. É o centralismo burocrático que prevalece hoje no PT. O que não quer dizer que o partido vá virar pó, porque o centro é capaz de unificar. Só que de forma vertical, burocrática e não de forma horizontal, consensual, democrática, como era antes. Todas as disputas que havia no PT, as controvérsias com relação à orientação, foram resolvidas administrativamente. Foi a vitória eleitoral do Lula que permitiu que um grupo resolvesse tudo pela via administrativa.

A expulsão dos radicais foi apenas a confirmação final da guinada em direção ao centro?
A guinada para o centro já houve e é irreversível. O governo e o PT, ou o setor dominante no PT, está se atribuindo uma função nova que não é a de procurar um caminho novo. É de reformar o que aí está. Essa é uma opção de centro. O que arrumava todas as tribos dentro do PT e acabou sendo a desgraça de algumas delas? Estavam todas dependentes da liderança carismática de Lula, que se sobrelevava sobre todas. Eles delegaram, todos, autoridade à liderança política do partido, sem obrigá-lo a se definir quanto a rumos. Rumos - ele tinha o mandato implícito de todos - que ele podia pegar ao sabor das circunstâncias, colhendo o regime dos ventos e indo para onde achasse que o sopro era mais conveniente. Bom, isso acabou acontecendo.

A tendência dentro do PT, até 2004, é que o chamado campo majoritário continue a prevalecer?
Algumas minorias estão fora e, entre as que estão dentro, algumas têm influência. Sobre isso, a gente tem de pensar se essa continuidade em relação à agenda (do governo) anterior vai ser ininterrupta ou se, num determinado momento, vai se procurar um caminho mais de mudança. Há uma possibilidade disso, sem dúvida. E esse vai ser o episódio que nós vamos assistir daqui para frente: o que vai acontecer com quadros como Dilma Rousseff (ministra das Minas e Energia), Luiz Pinguelli Rosa (presidente da Eletrobrás), Carlos Lessa (presidente do BNDES). O que vai ocorrer com esse tipo de pensamento alternativo que atua ali dentro?

Ainda há espaço para esse pensamento alternativo dentro do Partido dos Trabalhadores?
Ainda vejo espaço. O (fato de o) PT ter ido para o centro e ali se fixado é uma tragédia para quem, na esquerda petista, entendia o partido como um caminho para uma trajetória mais desenvolta. Acho que esse governo ainda pode cumprir um bom papel. Não um papel desejado pela esquerda, mas um papel de um centro democrático, aberto ao social. De um centro preocupado com o crescimento. Isso não é necessariamente esquerda. O PT já se definiu como um partido de centro, com uma agenda política de centro, o que não quer dizer que o mundo está perdido para ele. Apenas, que o centro no Brasil mudou de mãos. PT e PSDB estão batendo cabeça no centro político brasileiro.

Há espaço para os dois?
Há. Enquanto não houver uma esquerda forte, há espaço para os dois. Aparecendo uma esquerda forte, não haverá espaço para os dois. Eles tenderão a se unir.

Atualmente, partido e governo são uma só coisa?
É uma correia de transmissão que está funcionando no sentido inverso: de cima para baixo. É o Estado que está organizando a posição do partido e não o inverso. Isso ocorre em toda parte: o tal Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social foi criado para ser um lugar onde a sociedade pudesse se exprimir levando sua opinião para dentro do governo. Está se constituindo numa outra coisa. O governo é que está procurando encontrar escoras institucionais dentro do conselho. A questão toda é a seguinte: quem vai ser a esquerda no Brasil? Nós estamos com um espectro político-partidário que está desfalcado. Uma posição não está ocupada, a posição da esquerda. Acho isso ruim.

Dá para arriscar quem preencheria essa lacuna?
Não, isso depende de circunstâncias. No final dos anos 70, quem diria que a esquerda iria sair do sindicalismo do ABC? Pequenos grupos de esquerda já existem, mas uma esquerda afirmativa, com capacidade de influência... Isso leva tempo. Seria necessário inclusive saber dela o seguinte: qual é o seu programa? Não pode ser o programa anacrônico da esquerda que passou. Tem de aparecer com uma cara nova e, sobretudo, com uma crítica feroz do que foi a história do PT. Como é que um partido de esquerda, que nasce com fumaças radicais, ao cumprir sua trajetória vitoriosa em 20 anos se torna um partido de centro?

Qual sua expectativa para o PT nas eleições municipais de 2004?
Acho que ele vai bem. A máquina governamental é muito poderosa para agir nesse terreno e a maioria que o PT conseguiu montar no Congresso vai repercutir no plano municipal. Esse tipo de solda política que foi feita no Congresso vai repercutir embaixo. Acho que o PT vai avançar bastante, essa é a previsão de todos. Essa eleição municipal vai beneficiar o partido, o que não quer dizer que ele ganhe nas grandes capitais.

A jóia da coroa do PT é a Prefeitura de São Paulo...
Essa é central, tem um efeito simbólico de apontar para a próxima sucessão. Se o Serra se aventura e ganha a eleição municipal, será um candidato fortíssimo à Presidência. Ele vai ser candidato à Presidência de todo jeito, eu penso. A não ser que o Fernando (Henrique) não deixe.

Por enquanto, a popularidade do presidente Lula vem se sustentando. Essa lua-de-mel com a opinião pública poderá durar muito mais?
Pode ser. Mas sem alternativas de oportunidade de vida, acho que não há lua-de-mel que dure. E oportunidade de vida é criação de emprego. Perdemos 600 mil empregos este ano. Agora, essa batalha está em curso. O que ele (Lula) disse é o seguinte: “eu posso ganhá-la. E para ganhá-la não preciso fazer ruptura de contrato, não preciso enfrentar o tema da dívida externa de maneira radical, tenho outros modos. Eu acredito que o mercado, ao se regenerar, vai me trazer possibilidades de crescimento, de expansão”. O caminho que o governo está seguindo é um caminho que aposta mais no mercado do que no Estado, não é isso? Mas há quem esteja dentro do governo que diga: é mercado e Estado, precisa de mais Estado. Esse pessoal, por hora, não está ganhando. Qual será a posição dominante para os anos seguintes? Nós só podemos especular. Há uma série de indicadores que dizem que a aposta maior é mesmo no mercado. Por exemplo, ter o Palocci (Antonio Palocci, ministro da Fazenda) como um emblema do governo, a vitrine principal. É assim que o presidente o apresenta publicamente. Pensei que ele (Palocci) fosse seguir uma linha prudencial mas com elementos de descontinuidade em relação à política anterior. Mas ele radicalizou a agenda anterior. O governo Lula tem sido a radicalização do governo do PSDB.

Qual a sua análise sobre as reformas tributária e previdenciária aprovadas no Congresso?
Essa reformas podiam ter sido aprovadas no governo anterior, não fosse a oposição do PT. Quando o PT adere à agenda anterior, facilitou tudo porque não há um PT que faça oposição ao PT. A oposição agora ficou numa situação muito complicada porque se opor às medidas preconizadas pelo governo seria opor-se a si mesmo, perder a credibilidade, cair num pragmatismo canhestro, sem sustentação, num oportunismo político eleitoreiro.

Para 2004, PSDB e PFL já avisaram que não será tão fácil...
Em 2003, a agenda foi a deles nos dois governos anteriores. Isso facilitou tudo. No tema da legislação trabalhista, também não vejo maiores dificuldades, não. Esse foi um ponto anunciado no governo anterior. E o PT barrou. Na medida em que o governo se compromete a realizar a agenda anterior, sua pauta política fica muito facilitada.

Deixando de lado essa agenda, já formulada durante o governo Fernando Henrique, sobram bandeiras para Lula?
Temos que ver o que ele irá fazer na área de ciência e tecnologia, o que ele vai fazer com a questão agrária, com o tema da legislação do trabalho, com a universidade. Há indicadores para tudo isso que são muito negativos. O grande contraponto está entre os diagnósticos do Marcos Lisboa (secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda) e do Márcio Pochmann, que é o secretário de Trabalho da Marta Suplicy. Estão aí esses dois diagnósticos contrapostos, ambos vindos do PT. E de posições governamentais: uma no plano federal e outra no plano municipal. Nesse momento está havendo um embate e o Marcos Lisboa está ganhando. Vai ganhar o tempo todo? Não sei, acho que isso depende muito também de que a intelligentsia não deserte do campo. Este não é um governo reacionário, não é um governo antidemocrático.

O senhor considera importante o fato de o PT ter perdido o apoio de parte da intelligentsia?
Perder a parada da intelligentsia no Brasil é sério. Com a reforma da Previdência, um setor já foi perdido, que é um setor formador de opinião. Essa questão das universidades está muito mal posta. As universidades estão à míngua e sendo objeto de projetos tenebrosos por parte de círculos governamentais. A área de ciência e tecnologia está se sentindo muito desatendida. E é verdade que não está sendo bem atendida. Uma parte de apoio importante para o Fernando Henrique foi a USP (Universidade de São Paulo). O presidente Lula já perdeu a USP. A perda do espírito de mudança, do Paulo Arantes, do Francisco de Oliveira. Até quando a Marilena Chauí ficará? Aquele advogado lá, de São Paulo, o (Fábio) Konder Comparato também já escreveu um manifesto severo. Essas pessoas foram todas muito importantes na formação do PT, homens como Sérgio Buarque de Hollanda, Raymundo Faoro, Antonio Candido. O crescimento do PT não se deu sem esse resguardo de um setor importante da intelligentsia brasileira.

O embate dentro do governo poder perdurar ao longo dos próximos três anos?
No governo Fernando Henrique, durou oito. O quer dizer que um lado não ganha mas também não é banido. Continua presente, vivo, atuante e impondo restrições ao outro. Isso é bom. Mesmo que não aconteça (uma mudança de rumo), impõe restrições ao outro. A ação do Carlos Lessa no BNDES impõe certas restrições ao outro lado. Tanto é que tenta se fazer do Lessa um entrave a ser eliminado para que a boa política flua. Mas o governo tem medo de tirar o Lessa e se render inteiramente ao outro lado.

Ainda restam pontos a serem explorados pela oposição?
Ciência e tecnologia é um. O tema do crescimento é outro. E a questão central que se afirma sobre todas as outras é a dependência externa do país. A questão agrária é potencialmente explosiva, como foi no governo Fernando Henrique.

E o que esperar das eleições de 2006? Há algum indicativo?
Tudo vai depender de como essa controvérsia se resolve, entre esses dois caminhos. Esse governo, sem fazer grandes alterações em si mesmo, pode ganhar a eleição. Pode ganhar a eleição como uma força de centro, sem se abrir para as grandes mudanças. Para isso, ele vai ter que ser mais feliz no desempenho econômico. Não precisa ser o espetáculo do crescimento. O presidencialismo de coalizão que o presidente armou dá muita estabilidade política. A desgraça dos presidentes brasileiros tem sido se contrapor ao Legislativo, ao Congresso. Presidente com forte base congressual está com a vida política resolvida. Seus problemas são outros, ele com a população ou o desempenho econômico. No terreno especificamente político, ele vai bem. Nesse primeiro ano (de governo Lula), qual o problema? A vinda do PMDB reforça ainda mais isso, a sustentação política, congressual. A questão é como isso chega até embaixo, até a sociedade. Só vai chegar de uma forma exitosa com políticas de crescimento e políticas sociais atrativas.

Qual o panorama para a reforma ministerial?
Se o José Dirceu (ministro-chefe da Casa Civil) conta mesmo, pesa mesmo, acho que o PMDB vai entrar para o governo. Faz parte da estratégia dele ampliar ao máximo a base de sustentação política e congressual do PT. Para isso, falta o PMDB.