Uma parte de Gramsci na Bahia

Marcella Ferri
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Meu nome é Marcella Ferri, filha de Franco Ferri, diretor em Roma do Instituto Gramsci durante 20 anos. Moro na Bahia há mais de vinte anos, por escolha feliz e por algum destino insondável que fez com que me encontrasse plenamente no viver da Bahia, em sua cultura, em sua índole terna, criativa e ao mesmo tempo dolorosa.
Como é fácil imaginar, o nome e as idéias de Gramsci fazem parte da história da minha vida, da minha infância e das minhas lembranças, como parte de um todo familiar e de todo um modo de pensar, já que era filha de militantes e intelectuais orgânicos do Partido Comunista Italiano.
Muitas vezes, quando criança e adolescente, meu pai me levava para o Instituto para fazer minhas tarefas da escola enquanto ele trabalhava. Lembro perfeitamente o cheiro dos livros, o rosto de Germana (sua eterna secretária) e o incrível número de jovens que ali freqüentavam, para estudar e pesquisar.
Quando meu pai morreu, oito anos atrás, reencontrei aquelas paredes, numa homenagem dolorosa a ele, que me fez percorrer de uma vez sua história, sua importância, suas decepções, como também meu tempo de criança e de mulher que hoje sou, produto daquele sabor, daquele tempo histórico e daquela visão que até hoje norteia certamente o meu lado melhor.
A idéia de escrever esta matéria nasceu do desejo de colaborar de alguma forma, mesmo que não acadêmica, com o jovem entusiasmo do Núcleo de Estudos sobre Gramsci, da Bahia, assim como certamente teria gostado de fazer o meu pai, agregando informações ligadas à minha experiência pessoal e à leitura de um livro, Il lavoro culturale, que me foi mandado pela própria autora Albertina Vittoria (co-autora Fiamma Lussana), amiga de muitos anos, historiadora e atual responsável pela redação da revista Studi Storici e pelo arquivo do Instituto Gramsci.
O livro Il lavoro culturale representa uma reelaboração das intervenções e dos testemunhos de amigos e intelectuais do antigo PCI, realizados no seminário de estudos dedicado a meu pai e organizado pela Fundação Instituto Gramsci e pela Fundação Giangiacomo Feltrinelli (Roma, 24 de janeiro de 1997).
O conteúdo do livro documenta a importância do método de trabalho que inspirou a atividade do Instituto ao longo dos vinte anos em que meu pai o dirigiu, abordando a questão do trabalho cultural e do “intelectual orgânico” em seu complexo e às vezes doloroso percurso, sempre ligado à necessidade de superar o fechamento ideológico e as rigorosas interpretações dogmáticas que norteavam a linha mais radical do Partido Comunista Italiano do pós-guerra.
A leitura do livro de Fiamma e Albertina entrou em mim como um imenso evento do coração, da mente e da memória, por me explicar, de forma muito clara e documentada, a complexa história do Instituto Gramsci, seu percurso ideológico e sua relação com o PCI, partindo da análise do trabalho do meu pai, como vivência real e aplicada do pensamento gramsciano à função do intelectual. “Nosso papel - escrevia meu pai - é o da crítica histórica, e a crítica histórica pressupõe a autocrítica e a responsabilidade de encontrar uma resposta às exigências de uma política que fundamente na realidade a elaboração de novas formas de conceber um socialismo com características diferentes das experiências concreta e historicamente realizadas.”
Nào pretendo aqui resumir a vastidão dos conteúdos do livro nem descrever minha emoção ao encontrar cartas inéditas e fazer descobertas magnificas que já falavam de Brasil... Apenas quero registrar, com a devida humildade, fatos e informações que talvez possam somar-se à percepção do universo gramsciano aqui na Bahia.
A história do Instituto nasce no dia 27 de abril de 1950, ano em que foi inaugurada em Roma a Fundação Gramsci, que quatro anos depois se tornaria Instituto. Poucas semanas antes, tinham voltado para Roma os livros e os materiais de estudo de Antonio Gramsci, guardados até aquele momento em Moscou e finalmente expostos, nessa ocasião, junto com os Cadernos. O trabalho cultural realizado acolheu grupos de estudos e de pesquisa, cursos de nível universitário, atividade editorial e publicações, norteadas por uma visão dialética e não subordinada entre política e cultura, dentro da qual o Instituto tinha como função o aprofundamento científico e cultural de temas gerados pela realidade viva e pela releitura dos textos marxistas.
A influência de Togliatti na comissão cultural do Partido Comunista tendia também, nesse tempo, a formular uma linha de intervenção e de participação do mundo intelectual na visão política, reivindicando a idéia de uma “via italiana ao socialismo”, ligada à leitura de uma história nacional, não moldada a partir da realidade soviética.
Dentro dessa visão, a leitura e a lição de Gramsci desempenhavam um papel central: Gramsci era visto como antídoto de Stalin e de Zdanov. A importância dessa nova visão se ampliou com a crise de 1956, ano da intervenção soviética na Hungria e das fortes acusações ao PCI por não conseguir superar os limites ideológicos do passado, vinculado como era ao PCUS. Por isso, seria incapaz de uma investigação política e cultural mais ampla e real sobre o momento histórico nacional, o capitalismo contemporâneo e a relação entre democracia e socialismo.
A lição de Gramsci, a reflexão sobre as raízes nacionais da cultura e da história da Itália, o aprofundamento da história do movimento operário nacional e internacional, bem como a sistematização filológica dessas preciosas lições foram, então, as linhas que inspiraram o trabalho do meu pai na organização do Instituto Gramsci, fielmente pautado na metodologia gramsciana do empenho intelectual como trabalho orgânico e independente
O congresso de estudos gramscianos, em janeiro de 1958, seria a primeira grande iniciativa pública do Instituto depois da crise de 1956 e marcaria o início da publicação da edição crítica dos Quaderni del carcere.
A partir daí, a difusão do pensamento de Gramsci no mundo se tornou objetivo constante do Instituto, como documentado na intensa troca de cartas realizada entre o meu pai e os intelectuais e editores do mundo inteiro, tendo em vista a tradução e a edição das Cartas e dos Cadernos do cárcere .
Nos anos setenta, o Instituto deu início a uma fase importante de difusão do pensamento de Gramsci na América Latina. Partindo dos diferentes contextos nacionais, a leitura de Gramsci foi se moldando às realidades de cada país e do seu momento histórico. Na Argentina, dentro do próprio PCA e, sucessivamente, por meio do grupo “Pasado y Presente”, o estudo dos textos de Gramsci tornou-se uma ocasião de repensamento crítico da própria experiência nacional e do peronismo.
Em em outros países, prevaleceu uma leitura que combatia a idéia “foquista”, para a qual tendiam, depois da experiência cubana, muitos movimentos da esquerda latino- americana.
No Brasil, a difusão de Gramsci foi assumida por um grupos de intelectuais ligados à então corajosa Editora Civilização Brasileira, tendo como incansáveis animadores Enio Silveira e Moacyr Félix. Nesse tempo, a Civilização Brasileira representava no Brasil o pensamento iluminado que fez da batalha contra o dogmatismo e da difusão das categorias gramscianas o centro vital de um projeto cultural real.
O Instituto Gramsci foi nesse tempo um testemunho privilegiado e documentado das diferentes fases do percurso da esquerda brasileira e do seu encontro com Gramsci. No primeiro contato com a editora, realizado em 1962, meu pai autorizava a tradução em português das obras de Gramsci, colocando-se à disposição para uma eventual seleção antológica. Dois anos mais tarde, instaurava-se no Brasil a ditadura militar e as primeiras edições publicadas foram um insucesso devido ao fato de que, se por um lado o PCB usava Gramsci como referencial de uma “guerra de posições”, por outro o resto da esquerda brasileira considerava sua visão inadequada à luta revolucionária que pretendia realizar contra a ditadura.
Para esta parte da esquerda, como para muitos outros, Marcuse e Althusser eram o referencial teórico desse momento e, em tal contexto, como Carlos Nelson Coutinho escrevia, “o historicismo de Gramsci ficava como um peixe fora d’água”. Mais tarde, porém, com a derrota da luta armada na América Latina e a afirmação do eurocomunismo na Itália, o cenário político e os modelos de referência mudaram, e a retomada do Gramsci político deu início a um novo ciclo de divulgação da sua obra. Intelectuais como Carlos Nelson Coutinho e Marco Aurélio Nogueira introduziram o pensamento de Gramsci como fonte de renovação cultural e social, sublinhando o caráter filosófico e literário de sua obra como filósofo da práxis, herdeiro da tradição leninista, teórico do “historicismo integral” e da “hegemonia”.
As cartas trocadas entre o meu pai e Enio Silveira são um documento de extraordinário interesse, sobretudo considerando o momento histórico em que essa troca acontecia. Na época, o Brasil ainda não conhecia Gramsci e o projeto da jovem editora foi, sem dúvida, um ato de coragem política e editorial.
Termino aqui meu relato, pensando na beleza e na grandiosidade dos vôos e dos percursos da vida... Penso no encontro do meu pai com o Brasil, no grande significado desse encontro, e me emociono com a mágica coincidência dos bons ventos que me trouxeram à Bahia muitos anos depois, por causa de um sonho não utópico, que me tornou soteropolitana de coração e mãe de Harmonia, neta orgulhosa de Franco Ferri, filha de Oxum e embalada pelos ventos do imenso mar de Iemanjá.