O adeus petista ao passado
(e talvez ao futuro)

Zander Navarro
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




A página de "Tendências/Debates", da Folha de S. Paulo, tem sido, no último ano, o mais importante palco de debates sobre o Governo Lula. Ofereceu textos agudos e sofisticados aos seus leitores, mas, especialmente, tem publicado manifestações resultantes de perplexidades e embaraçosas inquietudes, às vezes até mesmo mistificações argumentativas. Observa-se notável variação analítica, desde o assessor palaciano que tudo justifica, da pena de morte ao gosto de tiranetes caribenhos às alianças canhestras, pois, assevera, “assim é a política”, às análises sobre “a luta de classes no Brasil”, cujo conteúdo conceitual bolorento denuncia professores (em universidades públicas!) que há muito deixaram de estudar. Vicejam igualmente os sonhadores, oferecendo estranhas analogias com mamíferos australianos para defender uma idéia tosca de socialismo, e as sempre presentes proposições populistas que demandam o “contra-poder popular”. O circo analítico ainda conta com o espetáculo pueril (este sim, inesperado) da filósofa-companheira, sugerindo a metafísica separação entre o simbolismo da política e a rudeza dos fatos, um sofisma destinado a propor que a sujeira reinante seja, quem sabe, varrida para um canto menos visível. São artigos que, se não decretam a morte do pensamento de esquerda no Brasil, demonstram, primeiramente, e à exaustão, o seu estado terminal, revelando o indigente debate político reinante [1]. Textos inspirados, em especial, nas ações do partido político que herdou as tradições mais generosas da esquerda brasileira, mas preferiu imergir despudoradamente nos jogos do poder, sem preocupação com o preço ético da escolha que adotou.
Parte importante dessas interpretações peca, sobretudo, pela incapacidade de leitura histórica do período recente. Como chegamos a este estado de coisas? A resposta à pergunta, se ancorada nos fatos seguintes à democratização do país, em 1985, permitiria entender mais claramente os anos seguintes e os momentos atuais. Há, em especial, a saliência de três processos principais que foram moldando o PT e suas ações, nos anos recentes. Primeiramente, e como fato fundador, inclusive internacional, o estilhaçamento da utopia socialista gerado pelos eventos de 1989, cujos impactos, goste-se ou não, verdadeiramente longue durée, feriram profundamente a esquerda mundial. No plano mais mundano do cotidiano da política, fez desaparecer de cena o papel orientador que usualmente utopias inspiram em grandes grupos sociais, instituindo o presentismo, pois o futuro deixou de existir. Inclusive, eliminou a vigilância crítica do passado petista em relação a si próprio. Utopias, como bem ressaltou Zygmunt Bauman, em antigo livro, “averiguam o campo do possível no qual o real ocupa apenas pequena parte; utopias abrem caminho para uma atitude e uma atividade crítica, as quais, por si mesmas, podem transformar as dificuldades atuais dos indivíduos” [2]. Se uma orientação utópica inexiste, também esta atitude crítica perde seu significado histórico e não mais molda os comportamentos sociais.
O segundo fator determinante, neste exame retrospectivo, foi decorrente das vitórias eleitorais e a crescente apropriação partidária das esferas do Estado. Abriu caminho para uma nova geração de militantes, recrutada na última década, mas inteiramente descomprometida com qualquer inspiração política estratégica (ou utópica), em face das razões antes apontadas. Esta nova geração, hoje a ampla maioria do partido, deixou, por absoluta desnecessidade, de refletir sobre a nação e sobre os constrangimentos de sua história, tornando-se incapaz de propor projetos de futuro. Sem uma idéia-força a orientar ideologicamente esta crescente fração de militantes, o que sobrou foi, tão-somente, a busca incessante às prebendas associadas ao poder. Este fato rebaixou espantosamente o debate político interno e escancarou as portas para o privilegiamento de ambições, pessoais e dos inúmeros subgrupos existentes. Mais cruamente: o PT dos anos noventa passou a se orientar, exclusivamente, pelo acesso ao emprego e às formas de mobilidade social, o restante ocupando apenas o campo da retórica eleitoreira.
O terceiro e decisivo fator, desde 1989, igualmente deriva do crescimento do PT e seu crescente sucesso eleitoral, mas não representa novidade alguma, já tendo sido esmiuçado há quase cem anos. Não requer explicações, mas é raramente citado. Basta ler Os partidos políticos, de Robert Michels, que analisou o partido socialista alemão, no alvorecer do século passado, e desvendou o fenômeno da oligarquização do partido e os comportamentos políticos, crescentemente conservadores e distorcidos, daí decorrentes. Se mais bem conhecida, sua argumentação aplicada ao fenômeno petista permitiria antecipar diversas facetas que ainda parecem espantar intelectuais situados na órbita deste campo partidário.
Condensados, esses três grandes processos políticos e sociais não poderiam produzir nada diferente do que temos observado. Por que se constituiria um projeto de governo e uma estratégia de mudanças, ou se desenvolveria conhecimento suficiente para implantá-las, se a federação de tendências internas somente se une para o grande público em disputas eleitorais, e os objetivos políticos se traduzem, como nos chamados partidos tradicionais, apenas na reprodução política, e nada mais?
Apresentado o diagnóstico, cabe outra pergunta: o PT poderá ser refundado, renovando as esperanças que levaram Lula à presidência? É preciso acreditar em duendes, para supor que sim. O pessimismo também emerge de alguns fatores decisivos. Primeiramente, porque não se espera que o partido anuncie a sua conversão pública à socialdemocracia, mantendo, quem sabe, vínculos com a tradição socialista apenas no tocante às promessas de algum radicalismo em torno de reformas sociais e a afirmação de valores democráticos e ideais republicanos, o que já representaria, em si mesmo, um extraordinário ideário político. Mas o partido sequer caminhará nesta direção, por mais uma razão de prosaica natureza: há um óbvio uso instrumental desta esquizofrenia ideológica entre discurso aparentemente radical e prática conservadora. Mantendo-se em águas turvas, seu discurso atrai tanto os vastos setores sociais motivados pela vaga proposta de uma “nova sociedade” (termo ideológico introduzido pela esquerda católica, desde o nascedouro da agremiação), como setores mais ingênuos e desinformados da esquerda, ainda crédulos no ideário petista, além de segmentos de classe média atraídos pelo moralismo do histórico petista do passado (ou talvez fosse mais correto dizer, o cinismo de suas ações anteriores). Sob esta lógica, o Bad Godesberg do PT ainda está longe de ocorrer, perdurando este jogo de manipulação entre o ideológico e o concreto enquanto ele se mostrar conveniente às ambições de seus grupos internos [3]. O segundo impedimento da mudança do partido, em direção à sua modernização, situa-se no argumento acima: os comportamentos majoritários de seus militantes são hoje estruturais ao modus operandi da organização, não representam mais situações episódicas e, assim, atolado no lodaçal amoral em que se encontra, torna-se quase impossível imaginar qual será a força política que induzirá o partido à sua auto-análise e mudança.
Há ainda uma terceira razão, crucial para o futuro da democracia brasileira. Diz respeito ao engenhoso mecanismo de autofinanciamento que o partido instituiu ao longo do tempo, impondo contribuições forçadas de seus militantes. Esta é uma aberração, que se esconde sob o manto do presumido direito de livre escolha do contribuinte, mas, de fato, este pedágio já foi naturalizado internamente e seu resultado mais evidente tem sido a criação de uma milionária força partidária, sem competidores no sistema político. O que explica sedes cada vez mais luxuosas, encontros em hotéis suntuosos e contratações de marqueteiros a peso de ouro. O peso desigual de sua capacidade financeira, gradualmente, se constitui em mecanismo anti-republicano de profundas conseqüências para o futuro político brasileiro e será novamente necessário acreditar em fantasias, para supor que a reforma partidária irá criar acessos iguais a fundos de campanha para os diferentes partidos.
Mas há um quarto fator, trágico, para impedir que o partido caminhe na direção de sua refundação. À frente, o PT encontrará céu de brigadeiro para seus próximos embates eleitorais, em particular a reeleição de Lula. Por quê? Ora, basicamente porque não existe oposição digna do nome no Brasil. O que poderia se constituir como tal vem sendo destruído pelos mecanismos de cooptação e poder do Estado e não se apresenta, de fato, como alternativa eleitoral. Não existe atualmente a situação anterior à chegada de Lula ao poder, qual seja, um governo que fosse fustigado continuamente por um grupo oposicionista. Este grupo era o PT que, vitorioso e no poder federal, observa altaneiro o vazio da planície oposicionista. Se não existe quem se apresente seriamente como opção de poder, por que mudar o partido? E sem a oportunidade da alternância, qual o futuro da democracia no país?
O somatório dos processos políticos e sociais citados, históricos ou imediatos, é que explica o governo de pastelão que temos. Do casal presidencial, cujo anedótico deslumbramento adolescente sonha com o próximo cartão postal, já usando o novíssimo avião, à grave ameaça ao Ministério Público, cuja soberania, não obstante o estrelismo doentio de alguns de seus integrantes, precisa ser ferreamente preservada, se alguma democracia deve existir no país. Do medíocre ministério formado para atender ao loteamento dos cargos, no qual ministros pontificam detalhadamente sobre marcas de uísque, mas desconhecem as missões de seus respectivos cargos, à absurda política macroeconômica que sufoca o tecido produtivo e vai semeando a desesperança. Da ampliação de cargos decorrentes da recente medida provisória, sancionada para garantir ainda mais amplo acesso a posições demandadas por militantes, ao gradual esfacelamento de uma ordem política que, assim sonhávamos, era para ser republicana e democrática, como pareciam indicar as luzes do período seguinte ao regime civil nascido em 1985.
Nos enganamos, é forçoso reconhecer. Continuaremos, infelizmente, esperando o futuro.

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Zander Navarro é professor visitante da Universidade de Sussex (Inglaterra) e professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da UFRGS.
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Notas

[1] Refiro-me aos artigos de Frei Betto, Emir Sader, Francisco de Oliveira, Fábio Konder Comparatto e Marilena Chauí, respectivamente, publicados nesta página nos meses recentes.

[2] Bauman, Zygmunt. Socialism. The Active Utopia. Londres. George Allen & Unwin, 1976, p. 13

[3] Bad Godesberg é pequena cidade turística alemã onde o Partido Socialdemocrata, a principal força política herdeira da tradição socialista, naquele país, retirou de seus estatutos toda e qualquer menção ao marxismo, o que ainda prevalecia, em famoso congresso ocorrido em 1959. Por analogia, corresponderia à exclusão da famosa “cláusula IV” do programa do Partido Trabalhista inglês, tentada sem sucesso em 1995 pela administração Blair.