Norberto Bobbio, intelectual público

Walquíria D. Leão Rego

*Gramsci e o Brasil* /
La Insignia




A morte do filósofo e jurista italiano, Norberto Bobbio, aos 94 anos, assinala talvez o desaparecimento de um dos mais importantes intelectuais públicos ocidentais. Aquele tipo de intelectual que fala ao público sobre as questões que atingem a vida coletiva. Sua intervenção realizou-se de várias maneiras, desde 1976, com seus artigos escritos para o jornal de Turim La Stampa. Suas reflexões políticas e teóricas eram comentadas e debatidas em quase todos os demais diários do país e, às vezes, pela televisão. Durante muito tempo a opinião de Bobbio fez parte do cotidiano de milhares de cidadãos italianos, que o liam e o discutiam indo ao trabalho, à escola, nos metrôs, ônibus, cafés e bares. Conhecer seu ponto de vista sobre este ou aquele problema político ocorrido na semana era mote para uma conversa no café da esquina e acabava, na maioria das vezes, em apaixonadas polêmicas. Isso o convertia em um verdadeiro tribuno republicano. Afinal, tais intervenções contribuíam para aproximar as pessoas através do debate, ajudavam a refinar a sensibilidade política coletiva e introduziam densidade intelectual à esfera pública.
Nos últimos vinte e cinco anos, esta posição fez dele uma espécie de oráculo do país. Essa função o acompanhou até sua morte. Quem viveu na Itália - antes da atual degradação moral e política, cuja encarnação mais emblemática é a ascensão ao poder de uma figura como Silvio Berlusconi - pôde notar a rapidez e a sobriedade com que debatia questões postas pela vida política do dia-a-dia de seu país. Esta capacidade de resposta rápida e imediata aos fatos se devia tanto ao temperamento polêmico quanto à compreensão ética que portava da condição intelectual. Na verdade, Bobbio pertencia a uma geração de intelectuais italianos para a qual fazia parte de seu ofício, à maneira de Sócrates, andar pelas ruas da cidade tentando esclarecer e persuadir permanentemente seus concidadãos. Este pathos reaparece fortemente na Ilustração como destino reservado aos grandes homens de cultura. Para tanto, lembremo-nos da contundência com que se funda esta tradição na modernidade, recorrendo às famosas conferências sobre a “Missão do sábio como educador do gênero humano”, pronunciadas por Fichte, na Universidade de Jena em 1794.
Nos últimos vinte e cinco anos, esta posição fez dele uma espécie de oráculo do país. Essa função o acompanhou até sua morte. Quem viveu na Itália - antes da atual degradação moral e política, cuja encarnação mais emblemática é a ascensão ao poder de uma figura como Silvio Berlusconi - pôde notar a rapidez e a sobriedade com que debatia questões postas pela vida política do dia-a-dia de seu país. Esta capacidade de resposta rápida e imediata aos fatos se devia tanto ao temperamento polêmico quanto à compreensão ética que portava da condição intelectual. Na verdade, Bobbio pertencia a uma geração de intelectuais italianos para a qual fazia parte de seu ofício, à maneira de Sócrates, andar pelas ruas da cidade tentando esclarecer e persuadir permanentemente seus concidadãos. Este pathos reaparece fortemente na Ilustração como destino reservado aos grandes homens de cultura. Para tanto, lembremo-nos da contundência com que se funda esta tradição na modernidade, recorrendo às famosas conferências sobre a "Missão do sábio como educador do gênero humano", pronunciadas por Fichte, na Universidade de Jena em 1794.
Não é exagero afirmar que Bobbio fazia de suas intervenções na vida política italiana o exercício de uso público da razão. Seus artigos nos jornais eram sempre eruditos mas não pedantes e, sobretudo, exibiam grande perícia na mobilização do pensamento clássico para discutir questões da política italiana contemporânea, fazendo com que Platão, Aristóteles, Maquiavel, Marx, Dante Alighieri, Kant fossem servidos à mesa do cidadão comum como interpeladores naturais, atualíssimos e pertinentes às suas vidas.
Podemos discordar de Norberto Bobbio, filosófica e politicamente, às vezes irritarmo-nos com certa tibieza de sua crítica ao sistema capitalista, mas - justiça seja feita - jamais o autor se furtou a entrar em combate pelas suas idéias e polemizar sobre qualquer assunto que dizia respeito a seu país. Assim sendo, as demandas e solicitações vinham de todo o espectro político da Itália e encontravam nele uma disposição imensa para o diálogo. Suas preocupações teóricas e políticas em relação às questões centrais da democracia, da liberdade, da igualdade, da república e aos perigos de sua degenerescência introduziram os elementos-chave de sua tensão intelectual e política. Apesar de seus escritos serem extremamente racionais e analíticos, Bobbio parecia ser um intelectual que vivia com os nervos esticados ao máximo. Sempre se declarou um pessimista. Sabia-se herdeiro de uma história nacional, e o peso do passado e de seus fantasmas, sobretudo os ligados à experiência do fascismo, voltava, constantemente, a projetar sua gigantesca sombra sobre as estruturas do presente. Sem dúvida, concordava com a advertência de Bertold Brecht: a mãe do fascismo está sempre grávida. Por tudo isto, logo tentou compreender o significado da figura de Berlusconi, bem como interpretar seu gestual, seu cerimonial, o sorriso com o qual sempre se apresenta, seu modo de falar às pessoas. Chamou a atenção de todos que, de fato, a Itália estava diante de um demagogo muito perigoso e muito particular, porque concentra em si os meios mais poderosos de persuasão dos cidadãos - a propriedade dos grandes meios de comunicação de massa - e faz da vulgaridade a moeda corrente da política italiana atual. Lembrou por diversas vezes a intuição do jovem liberal Piero Gobetti, morto em 1926, que certa vez afirmou que o fascismo estava inscrito na “biografia do país”.
Em suma, Bobbio quis dizer que a história e o passado de um povo têm poderes modeladores e esculpem nas rochas os modos como sua atividade política encaminha as grandes questões institucionais. A inexistência de rupturas importantes, a revolução passiva que presidiu a formação do Estado, impedindo renovações de hábitos e costumes, marcaram indelevelmente o destino da Itália como comunidade política. Os acordos pelo alto sempre foram pródigos em gerar mecanismos perversos de bloqueio à democracia, tornando cada vez mais profundos e pouco visíveis aos cidadãos os mecanismos que decidiam seus destinos. Não por acaso insistiu tanto no tema do governo invisível e seu imenso perigo à democracia.
Bobbio, como intelectual, preservou como poucos sua independência política e intelectual, dialogou com todas as forças de seu país. São célebres, como exemplo de tolerância, sua polêmica com os comunistas italianos nos anos 1950. Debateu sobre o tema da liberdade com Palmiro Togliatti, então poderoso secretário-geral do forte Partido Comunista Italiano, que não deixou de lhe reconhecer o espírito de debate e a coragem de combatente pela liberdade. Afinal, havia sido um partiggiano na luta da resistência contra o fascismo.
Sempre se definiu como liberal-socialista, uma tradição muito particular na Itália. Todavia, seu liberalismo político jamais o impediu de reconhecer a importância do marxismo. Ainda em 1955, escreveu no livro Política e Cultura: “Se não tivéssemos aprendido com o marxismo a ver a história do ponto de vista dos oprimidos, ganhando com isto uma nova e imensa perspectiva sobre o mundo humano, nós não teríamos nos salvado.” Sabia que Marx havia posto questões teóricas fundamentais, procurou compreendê-las, problematizá-las e principalmente esclarecê-las. Nem sempre conseguiu: seu politicismo o levou a lacunas graves de avaliação sobre as razões mais profundas das dificuldades da democracia em cumprir suas promessas. No entanto, afirmou em entrevistas e escritos a decisiva importância do legado do marxismo, como potencial crítico irrenunciável para o desenvolvimento da civilização.
Em 1993, quando grande parte da intelectualidade cantava e dançava no que acreditava ser os funerais de Marx, o liberal-socialista Bobbio, velho e cansado, saiu pelas ruas da cidade para lembrar a todos o valor permanente da crítica marxista e lançar na praça pública seu Invito a rileggere Marx. Assim, encarnou com grande dignidade moral o que todos esperam de um intelectual público e independente: cautela e prudência na formulação de juízos, inquietação na busca de idéias e de pesquisa, sempre dosadas pela dúvida, pela vontade de diálogo, pelo espírito crítico, pela medida no julgamento das coisas, pelo escrúpulo filológico e pelo sentido da complexidade das coisas do mundo.
Mas sua independência não pode ser confundida com ausência de paixão política. Era um polemista contundente, afirmava sempre ser um homem cindido entre um grande racionalismo e uma profunda paixão: “Sou assumidamente um homem contraditório.”
Por ocasião da escritura do inventário sobre os intelectuais italianos (Profilo ideologico del 900), esse protagonista da história italiana por mais de 50 anos, filósofo do direito, teórico da democracia, da política, analista do fenômeno do poder, termina esse balanço demonstrando a condição intelectual como dramática, plena de fraturas, de feridas e cicatrizes.
Assim procurou conduzir os intelectuais na Itália, diante do poder da Igreja e do papado, a enfrentar, sem disfarces, a questão da natureza específica de seu papel. A questão crucial sempre fora falar ao povo como ex parte principe ou como ex parte populus. Nisto retoma a problematização realizada por Gramsci.
Por tudo isso, a morte de Bobbio nos coloca o velho problema debatido por séculos: é possível separar a pena da espada? No mundo em que vivemos ainda existe lugar para este tipo de homem de cultura que transpõe os muros da academia para falar aos seus concidadãos? Seu desaparecimento nos convida a repensar essas velhas questões e, mais ainda, a refletir sobre qual vida intelectual vale a pena ser vivida.

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Walquíria D. Leão Rego é professora livre-docente do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Unicamp.
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