Reflexões antibonapartistas

Washington Bonfim

Especial para *Gramsci e o Brasil*




O Governo Lula tem criado um grande conjunto de preocupações sobre os destinos da esquerda no país. Não seria incorreto dizer que em todos os dias de seu governo transparece a sensação, transformada em certeza para muitos, de que não se segue um plano, senão aquele de orientar ações e medidas políticas para o objetivo da reeleição em 2006.
Neste sentido, tem sido igualmente reforçada a impressão de que os movimentos social e sindical por ele representados, desde o seu nascimento, parecem à deriva, buscando explicações para as profundas mudanças de agenda e, principalmente, imaginando rumos políticos que preservem sua identidade, hoje e, principalmente, em momento posterior a uma eventual saída do PT do poder.
No Brasil, o partido, que sempre mobilizou as esperanças do eleitorado mais ávido por mudanças, já durante sua campanha eleitoral de caráter despolitizante cumpriu um papel dúbio - de mobilização, por um lado, e abandono do discurso de transformação radical da sociedade e economia brasileiras, por outro -, procurando, ao mesmo tempo, acenar com tranqüilidade para setores empresariais e financeiros nacionais e internacionais.
Regionalmente, como no caso piauiense, a mesma ordem de esperanças foi mobilizada, em terreno muito mais fértil e propício à fecundação de uma prática política nova, tendo em vista o histórico político estadual. Logo nos primeiros momentos do governo, porém, começaram a surgir evidências de imensos erros estratégicos cometidos e não corrigidos, gerando o desgaste paulatino de uma experiência promissora de organização política estadual.
Em ambos os casos, as respostas aos erros têm sido sempre as mesmas, projetam para o futuro a resolução de problemas hoje criados, ao mesmo tempo em que atiram para o passado as suas origens. Em resumo, o partido não é responsável por nada do que aí está, a não ser pela resolução dos diversos problemas, embora não no presente, mas no futuro.
A impressão geral é de que muitos foram enganados. A mudança não veio assim tão rápido, os problemas eram maiores do que se dizia e, por conseqüência, as resoluções estavam em outro lugar, fora do alcance da vontade política. Além disso, não se tem percebido, como mencionado, o sentido da mudança: o poder está mais concentrado; figuras políticas exponenciais são as mesmas; o aparelhamento do Estado é real e progressivo; a falta de norte em algumas áreas importantes é notável; e, finalmente, o discurso de justificação pelo não feito e pelo malfeito é a tônica de um partido outrora aguerrido em acusar e propugnar-se como saída para todos os males civilizatórios do país.
Além disso, as práticas cotidianas de poder demonstram amplas similitudes entre o PT e todos os demais, dos quais se queixava e fazia denúncias constantes. Os parceiros do PMDB não deixam dúvidas quanto aos propósitos pouco claros de mudança de padrão no fazer política. Mais ainda, se levamos em consideração a inexistência de um projeto de governo minimamente alinhavado, só podemos pensar este conjunto de alianças no interior de um perfil conservador de exercício do poder.
É necessário, assim, um breve exercício de memória para tentar alinhavar algumas conclusões sobre o cenário atual. A imensa mobilização do andar do baixo deste país, na feliz expressão de Elio Gaspari, e o sentimento de esperança, que por pouco não transformaram Lula em um campeão histórico de votos, tendo em vista os quase 60% dos sufrágios que recebeu no segundo turno das eleições presidenciais de 2002, criaram um ambiente que fez com que centenas de milhares de eleitores chegassem a primeiro de janeiro do ano passado achando que o país iria mudar repentinamente
Esta sensação, além de estar embasada no marketing vigoroso da campanha, decorre do fato de que indiscutivelmente o PT organizou, desde seu nascimento, ainda durante a ditadura militar, largos setores da população brasileira que jamais haviam participado autonomamente de nossa vida política. Obviamente, a Igreja Católica foi de extrema importância neste movimento e concedeu enorme ajuda na mobilização dos setores populares de nossa sociedade, aliás, como até hoje o faz, mantendo laços firmes e solidários com amplos setores do partido.
Em segundo lugar, também no movimento sindical o PT ocupou um papel fundamental, desorganizando em definitivo o que ainda existia de remanescência da estrutura varguista ao final da ditadura. Por outro lado, na oposição, a Força Sindical e seus líderes principais, Luiz Antônio Medeiros e Paulinho, candidato a vice do Ciro Gomes em 2002, embora fortes, sempre pareceram pouco confiáveis.
Finalmente, é fato que a classe média deu enorme apoio à eleição de Lula em 2002, cansada da Realpolitik tucana - Proer, aumentos de impostos, privatização dos serviços telefônicos, apagão, perda de renda familiar, achatamento dos salários dos funcionários públicos, persistência da inflação, alto desemprego e baixo crescimento econômico. Sem esta confiança e apoio de setores médios e inclusive de setores do empresariado nacional, como na costura da aliança com o PL e certas lideranças tradicionais, como José Sarney (PMDB) e Antônio Carlos Magalhães (PFL), o partido talvez não houvesse chegado ao poder de maneira tão tranqüila.
O problema, que agora parece se tornar cada dia mais agudo, é que a crítica ao PT tem de levar em consideração a possibilidade de mantermos as chances eleitorais de partidos à esquerda do espectro político em futuro próximo. Estamos diante do velho risco de jogar fora bebê e água do banho.
A pergunta fundamental, então, parece-me ser sobre quem representará os movimentos sociais criados e mobilizados pelo PT nos últimos vinte anos. Os ultra-radicais, como os deputados Babá e Luciana Genro e a senadora Heloísa Helena, que não parecem ter compromissos claros com a democracia? Os políticos clientelistas e patrimonialistas, que abundam em nossa política e que não representam autonomia dos setores populares? Ou um líder populista, que nos faça entrar em um período de instabilidade crônica?
Mesmo com todos os erros posteriores, a eleição de 2002 significou uma virada histórica em nossa democracia, pois, de fato, o andar de baixo elegeu alguém de sua extração - retirante nordestino, trabalhador, líder sindical, com pouca instrução formal -, falando sua linguagem e com palavras de redenção de sua condição sempre subalterna. Que as coisas não estejam acontecendo do jeito que se vendeu é ruim para todos, pela desesperança, pelo medo e, possivelmente, pelo abandono da atividade política por parte das gerações mais jovens.
Sempre foi possível criticar no PT a força com que praticava a política do “quanto pior melhor” e, por razões de coerência, não é possível mudar agora. Mas, apesar de tudo, não se pode alimentar um simplório discurso antipetista, de tom reacionário ou ultra-revolucionário. Isto não interessa a nenhum grupo organizado de poder no país, a não ser àqueles que sonham com retrocessos democráticos. A doença infantil do antipetismo é um desserviço à democracia e ameaça elevar ainda mais o muro que separa incluídos e não incluídos em nossa sociedade.
É certo que o partido como um todo jamais compreendeu em sua plenitude o que são os desígnios de uma esquerda democrática. Pouco entendeu também que alianças com partidos conservadores necessitam estar baseadas em programas objetivos de governo, que dêem norte e orientem o exercício do poder - antes as recusava, hoje as abraça acriticamente. Além disso, sua trajetória o afastou do Estado e das instituições políticas que ajudou a criar no país e, com isto, perdeu tempo precioso de um aprendizado institucional importante para o seu próprio futuro político.
Mas nada mais parecido com um petista empedernido que um antipetista convicto. Ambos são conservadores no seu desrespeito à democracia. São semelhantes igualmente no aspecto das avaliações morais, prezam coisas diferentes mas agem da mesma maneira, desconhecendo a pluralidade e a heterogeneidade do mundo à sua volta, sobretudo o valor da tolerância. Finalmente, como protagonistas de programas políticos essencialistas, parecem dispostos a tudo, levando às últimas conseqüências a máxima de que os fins justificam os meios.
Aprendemos, ao longo dos últimos quinze anos, a construir uma sólida estrutura política, de características pluralistas inequívocas, apesar de todos os seus vícios e tradições espúrias. Sobrevivemos inclusive à oposição aguerrida de um PT nem sempre disposto a atitudes de respeito ao jogo democrático. Estas mesmas instituições fizeram a inclusão do PT e, com ela, a de centenas de milhares de brasileiros que se sentem representados pelo atual Presidente. Diante disto, o antipetismo não é uma atitude aceitável, muito menos democrática, como também não o são as manifestações simplórias, mesmo vindas de intelectuais sofisticados, de que há uma conspiração universal contra o partido.
O mundo complexo e pouco atraente das instituições tem de permanecer em lugar central de nosso debate. Ele trouxe o PT à política, nela teremos de mantê-lo, para o bem da sociedade brasileira, de nossa democracia e da grande mudança de que somos agora testemunhas.
Termino com uma citação da colunista Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo (29 fev. 2004), que resume o sentimento de muitos: “O Brasil não é a Venezuela, e não se vislumbra nos céus, mares e terras brasileiras algo como Chávez. Mas, se nem mesmo FHC e Lula servem, quem servirá? [...] Se a esperança morre, o que fica? Ou quem se habilita?”

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Washington Bonfim é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFPI.
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