Octavio Ianni, Nilo Odália, Alberto Tosi

Marco Aurélio Nogueira

Especial para *Gramsci e o Brasil*




1. A Universidade que não se apaga

Com o desaparecimento do professor Octavio Ianni, aos 77 anos, no último dia 4 de abril, foi-se um importante pedaço da melhor tradição universitária brasileira.
Ianni não foi apenas um de nossos mais importantes cientistas sociais. Foi uma referência ética e intelectual, um expoente da “escola paulista de sociologia” que alçou vôo próprio e construiu uma carreira aparentemente solitária, avessa a badalações, a disputas por cargos, a holofotes e picuinhas. Autor de dezenas de livros, de centenas de artigos, alguns dos quais responsáveis pela abertura de verdadeiras sendas de investigação (como é o caso de Metamorfoses do escravo, de 1962, e O colapso do populismo no Brasil, de 1968), jamais abandonou as salas de aula e o contato quente com seus alunos. Não se refugiou em nenhuma especialização estrita, nem muito menos em programas de pesquisa pontuais, abertos somente aos que se julgassem “tecnicamente qualificados”. Desenvolveu uma agenda de trabalho panorâmica e diversificada, pontuada de interesse pela questão racial, pelo desenvolvimento, pela industrialização, pela formação do Estado nacional, pela globalização.
Sua atitude confundia-se com a de um ímã, dedicado a magnetizar e criar campos de força. Era mestre em buscar aproximações com os jovens pesquisadores, em incentivá-los, orientá-los, provocá-los. Criou assim não um séquito ou uma escola, coisas que lhe causavam profunda repugnância, mas um mar de admiradores, pessoas de distinta orientação política e ideológica, dentro e fora do Brasil. Todos o viam como um amigo, um irmão mais velho, um companheiro. Bobbio poderia dizer dele, citando Mazzantini: eis aqui um homem sereno, capaz de usar sua potência para “deixar o outro ser aquilo que é”. Ianni era o contrário da arrogância e da insolência. Chegava ao cúmulo de se recusar a falar de sua própria obra. Era refratário a qualquer tipo de ostentação. Mas de modo algum foi um submisso: refutou o “destrutivo confronto da vida” por senso de aversão e por falta de vaidade, mas jamais renunciou à luta, ao embate ideológico, ao contraste científico.
Ianni foi um homem de esquerda, um marxista flexível e plural, inteiramente disposto ao diálogo, à troca de idéias, à polêmica. Como intelectual público que sempre foi, soube, como poucos, combinar o rigor metodológico e a aridez das construções teóricas com um incansável empenho em levar idéias para o grande público. Jamais deixou de atentar para a face surpreendente da vida, a renovação das estruturas, a dinâmica subversiva dos processos. Em sua última década, dedicou-se a decodificar a globalização, os “enigmas da modernidade-mundo”, título de um de seus mais instigantes livros deste período. Pôs-se a refletir sobre os efeitos das novas tecnologias, o tempo real, as inovações culturais, as novas formas sociais, com o intuito de entender o conjunto das modificações por que passa o capitalismo contemporâneo.
Além de despertar a justa homenagem e nos convidar a rever as vicissitudes da vida intelectual do país, o desaparecimento de figuras emblemáticas como Ianni também nos ajuda a pensar na universidade realmente existente. Como toda instituição social, a universidade é sempre uma mescla de continuidade e renovação, de tradição e projeto. Por intermédio de seus “grandes”, ela se reencontra com seu passado, com sua história e com sua identidade. Com eles e por meio deles, aprende a mudar sem perder o rumo, sem se descaracterizar ou trair a si própria.
Emparedada entre processos fortes de corrosão de identidades, de desconstrução organizacional, de obstinação pela “produtividade” e de competição cega por verbas, patrocínios e financiamentos, a universidade atual depende como nunca de suas reservas internas e, por extensão, de sua memória. Será com elas que reunirá forças para se recolocar no cenário e se viabilizar como organização autônoma e consciente de sua missão. Será com elas, digamos assim, que poderá experimentar uma auto-reforma que não se confunda com a repercussão passiva das expectativas erráticas dos governos.
Por várias décadas, Ianni manteve-se serenamente firme em seu posto de combate e observação. Fez dele uma razão de viver, uma plataforma de convivência e reflexão. Fortaleceu e ajudou a atualizar toda uma tradição. Foi um intelectual de seu tempo, ligado em tudo, inquieto. Um pessimista da razão, um otimista da vontade. Seu exemplo é a melhor prova de que a universidade é uma chama difícil de apagar.

2. Universidade, tradição e projeto

A cada perda humana, a universidade é levada a voltar-se para si mesma, a rever-se e a rejuntar seus pedaços. Foi assim com o desaparecimento recente de Octavio Ianni, havia sido assim com tantos outros, será assim sempre. Pela força emblemática que possuem, alguns dos que se vão cumprem uma derradeira função educacional. Suas biografias refletem trajetórias históricas, tempos que não voltam mais, tendências em curso. Nos ajudam a pensar.
No curto espaço de trinta dias, entre janeiro e fevereiro de 2004, a universidade brasileira, e particularmente a área de Humanidades, perdeu dois expoentes de peso, que recobriam estilos e épocas diferentes, mas convergiam no fundamental.
Nilo Odália - filósofo, historiador e professor da Unesp, nascido em 1929 - encarnou como poucos a universidade clássica, humanista, ciosa de sua missão social, científica e educacional. No correr de sua longa militância docente, foi um homem de princípios, um intelectual e um construtor institucional, um apreciador do diálogo e das boas conversas, defensor intransigente da dimensão pública da educação. Fez com que o ensino e a pesquisa fossem práticas valiosas em si mesmas. Lutou, como tantos outros, pela democratização da vida universitária, seja em termos de poder e de estruturas, seja em termos de ensino e de convivência. Simbolizou, de forma plena, a universidade de debate, estudo e ideais.
O cientista político Alberto Tosi Rodrigues - paulista de Ibitinga (1965) e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) -, em sua curta trajetória de vida, manteve intactas as razões da universidade de tradição, mas se dedicou, em tempo integral, a atualizá-las, a pô-las em contato com as razões da modernidade radicalizada, movida a velocidade, informação e Internet. Em pouco tempo, criou um espaço na ciência política nacional e se tornou uma referência para estudantes, colegas e pesquisadores. A página eletrônica Política e Ciências Sociais (www.politica.pro.br), que concebeu e manteve heroicamente no ar, ajudou a agregar muitos estudiosos e a difundir conhecimento. Foi um dínamo de idéias e imaginação.
Por seu sentido e trajetória, a universidade não vive sem interpelar seu passado. Por ser uma instituição social que se projeta como usina da autoconsciência social, sua história é a história das sociedades em que se insere e que busca compreender como parte da história do homem. A universidade depende de liberdade e efervescência de idéias, e age tanto melhor quanto mais consegue lutar pela autonomia sem cair no corporativismo e sem deixar de responder pelo que lhe cabe de responsabilidade política e social. Suas tradições são um recurso poderoso para tanto. Se perdê-las, dilui-se por completo.
Mas a universidade não está fora do tempo e não pode ter papel positivo se permanecer fechada em si e recusar o diálogo com a vida. Por menos que ceda às pressões e exigências do ambiente, não tem como ser indiferente a elas. Seu desafio, na verdade, é saber selecionar, dentre aquelas pressões, as que contêm maior potência inovadora, as que anunciam um futuro de conhecimento, igualdade e emancipação, e refletem, por isso, as tendências mais promissoras da época. A universidade existe para ligar o passado ao futuro. Sem se autocriticar, sem construir um projeto para si e sem se renovar, ainda que de modo ponderado e dialógico, torna-se um peso morto, mais um problema que uma solução.
Professores como Nilo Odália e Alberto Tosi existiram, existem e continuarão a existir para que nos lembremos desta aventura da universidade. Ambos expressaram a universidade que honra seu nome e olha para frente. Dignificaram as grandes tradições mediante um diálogo ativo com os novos tempos. Selaram um compromisso dinâmico com a universidade de convicções e de responsabilidade política, ciente de sua missão e de sua plasticidade.
Estivessem hoje na ativa, estariam certamente nos ajudando a encontrar um eixo criativo para reformar a universidade, esse propósito de sempre. Iriam nos dizer que reforma é diferente de ajuste, que a questão do “custo” não pode ganhar o centro da discussão se o que está em jogo é a formação intelectual de milhões de jovens. Estariam brigando para que a universidade se reencontre, saia da defensiva e da dispersão e atue mais para refletir sobre si mesma do que para saber o que pensa o governo a seu respeito. No mínimo por isso, fazem enorme falta.

_______________

Marco Aurélio Nogueira é professor de Teoria Política na UNESP, Campus de Araraquara, e um dos editores de *Gramsci e o Brasil*.
_______________