O inferno e as boas intenções

Luiz Werneck Vianna

Algo a dizer,
Rio de Janeiro,
abr. 2004




Não é justa a caracterização do governo Lula como a de um inimigo do povo, tal como a que já começa a se insinuar à esquerda e à direita na cena política brasileira neste primeiro semestre de 2004. Nem é adequada a acusação dos que o entendem como um instrumento servil aos interesses da banca internacional e nacional. Na verdade, comparando bem, entre nossos recentes governantes este tem sido o governo mais sensível à agenda social dos brasileiros que se encontram em situação de marginalidade quanto à proteção de políticas públicas e ao mercado formalizado de trabalho.
De fato, contudo, é de se registrar que tal sensibilidade não se tem materializado em práticas efetivas no sentido de promover melhorias nas condições de vida desses segmentos sociais, perdendo-se as boas intenções na má operação da máquina administrativa ou mesmo no terreno das estratégias de ação. Os problemas administrativos na condução das políticas sociais são contornáveis, mesmo que apenas por ensaio e erro, enquanto os que envolvem a determinação de rumos estratégicos reclamam uma justificação racional e persuasiva.
E aí está o que vem expondo este governo à crítica: a esta altura ninguém sabe, nem ele, se a continuidade quanto à política econômica do governo anterior se deve a uma escolha trágica feita em nome da governabilidade ou significa realmente uma conversão aos seus termos. Mais, ainda: ignora-se, até aqui, se a intervenção sobre o social vai se deter nos marcos assistencialistas atuais, de resto perfeitamente compatíveis com o programa neoliberal, ou se não passa de uma política emergencial, à espera de uma conjuntura propícia a uma mudança de rumos.
Grande parte dessa ambigüidade se deve à própria história do PT, partido que nasce da resistência do sindicalismo à ditadura militar e em oposição à esquerda anterior, cuja marca, nos anos 80 e 90, os de sua formação, foi a da recusa às alianças e de hostilidade ao centro político, e que, na última sucessão presidencial, quando chega à vitória, viu-se obrigado a se deslocar em direção às forças de centro.
Nesse sentido, o governo do PT ocupa uma posição muito conhecida pelos vários governos de centro que o antecederam, contendo no seu interior, inclusive em sua representação ministerial, duas políticas contrastantes: uma de fundo neoliberal, referenciada basicamente à lógica do mercado e ao tipo de ação estratégica que nele predomina, e outra, desenvolvimentista, que importa, segundo uma larga tradição brasileira, a presença do Estado e de suas agências como promotoras ativas do crescimento econômico. O governo atual, como tantos outros antes dele, é prisioneiro dessa dualidade, não dispondo mais da alternativa de optar claramente por um lado em detrimento do outro, mesmo porque o desgaste do seu capital político nestes poucos meses do seu segundo ano de governo, já reduziu a sua liberdade de movimentos.
O debate e a disputa entre as forças que se aplicam em direção à adaptação às circunstâncias e as que visam à mudança se trava, pois, dentro do governo, de sua base aliada e do próprio PT. Desertar desse campo de luta, identificando como inimigo o governo e sua coalizão majoritária, enfraquece o campo de forças que busca um caminho de transformação, na medida em que preservar a sua área de influência, decerto que restrita, mantém abertas vias de acesso aos centros de tomada de decisão para os movimentos sociais e para os eixos que aglutinam a opinião pública favoráveis à mudança.
É equívoca a posição dos que, diante da frustração que lhes causa o atual governo, por sempre terem acreditado em uma tal de vontade política como varinha de condão, têm preferido, ao invés de se deterem em uma análise madura das circunstâncias, reparando nas ainda amplas possibilidades para políticas de mudança presentes nas práticas do atual governo, olhar para os céus à espera das chuvas enquanto não lhes chega o próximo herói providencial.
De outro lado, a estratégia do “abril vermelho” e da “infernização do país”, malgrado as intenções do diabo doido que a maquinou, na tentativa de provocar a todo transe o uso da repressão contra movimentos sociais legítimos, só serve para entregar de bandeja o governo às forças da conservação.

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Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador do Iuperj e presidente da Anpocs.
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