Universidade pública:
o risco de uma nova greve

Daniel Aarão Reis Filho

O Globo,
5 maio 2004




Mais uma vez, uma vez mais, as universidades públicas brasileiras encontram-se “convocadas” por sua entidade sindical nacional, a Andes, a entrar numa greve por tempo indeterminado, com resultados negativos para as atividades acadêmicas, particularmente as relativas aos cursos de Graduação. Como no ano passado, como em anos anteriores, como em quase todos os anos, a comunidade acadêmica ouve um discurso catastrófico e de confronto e assiste ao conhecido ritual: a paralisações de um dia, de dois dias, votadas por assembléias nulamente representativas, segue-se, como uma fatalidade, a greve por tempo indeterminado, leia-se, indefinido, ou ainda, pelo maior tempo possível.
O mais grave é que, em quase todas as universidades, os professores, em seu conjunto, simplesmente não são consultados. Na Universidade Federal Fluminense/UFF, uma “assembléia” de 45 professores “decretou” a última paralisação, de um dia, para uma comunidade de cerca de 2.400 professores. Na UFRJ, sucederam-se duas “assembléias”. Na primeira, quatorze, eu disse, quatorze professores, votaram se a universidade iria paralisar ou não as aulas. Resultado: 13 abstenções e um voto contra. Ou seja, UM professor, votando contra, evitou que o sindicato “decretasse” a paralisação de uma universidade que tem milhares de funcionários, estudantes e professores. Este professor, seguramente, terá sido um Sansão que, sem Dalila, suportou as paredes do templo. Na “assembléia” seguinte, por 24 a 22 votos, a maioria derrotou, mais uma vez, a proposta de greve por tempo indeterminado. O inacreditável é que o sindicato se sinta em condições de fazer votar, por apenas 46 pessoas, um “movimento” que teria, caso aprovado, profundas e funestas conseqüências para a vida acadêmica de milhares de pessoas. A UFF e a UFRJ, maiores universidades públicas do Rio de Janeiro, não constituem, obviamente, casos isolados. Em outras unidades do ensino superior situações semelhantes ocorreram ou estão ocorrendo.
A comunidade acadêmica, agora, aguarda as próximas assembléias: quantos “decretarão” a greve anual por tempo indeterminado? Quantos a evitarão? Sem que os departamentos, os programas de pós-graduação, os colegiados e institutos tenham debatido o assunto, ou sequer opinado. E não têm mesmo voz no capítulo, nem recurso algum, pois, uma vez “decidida”, a greve é quase sempre assumida pelas instâncias burocráticas da universidade que suspendem os cursos, quando não fecham simplesmente os prédios. A greve se configura assim como um processo passivo, do qual a imensa maioria não participa. Não apenas não se mobiliza, como é, ativamente, desmobilizada. E ainda enfrenta o constrangimento de, no final do mês, receber salários que são a contrapartida social de um trabalho não oferecido. É inegável que as universidades enfrentam problemas e dificuldades: faltam equipamentos, verbas e pessoal qualificado, os planos de carreira deixam muito a desejar, há remunerações insuficientes e deficientes processos de avaliação.
Mas não seria possível lutar pela melhoria das condições de nossas universidades de outras formas? Exercer pressões significa necessariamente recorrer a greves por tempo indeterminado? Não é um incoerência gritante suspender as atividades das universidades públicas que são um dos poucos serviços públicos de excelência neste país? Exatamente neste momento, em que se discutem as bases e os rumos de um reforma universitária, colocada na pauta pelo Ministro da Educação? E em que avançam diversas frentes de diálogo com diversas instâncias do governo? Neste momento exato em que se aproximam eleições para a Andes, marcadas para 18-19 de maio próximos, em que as comunidades acadêmicas desejam conhecer e avaliar os programas alternativos, para amadurecer escolhas e votos?
A greve “decretada” pela Andes, se aceita pelos professores, e concretizada, seria, na verdade, um risco para as universidades públicas. Este risco, os dirigentes sindicais da Andes parecem desejar correr. Imaginam talvez que dele retirarão dividendos políticos para suas teses catastróficas e para suas políticas de confronto.
A questão é saber se a comunidade acadêmica aceitará desta vez correr o risco. Será o risco da desmobilização e da inação, quando o momento requer atividade, o de desagregação e fragmentação, quando a universidade carece estar unida em sua diversidade, o risco maior do silêncio, onde só se ouvirá a engrenagem das greves e dos “comandos”, que se move como se fora um mecanismo inercial, quando se precisa, mais do que nunca, de debates e proposições, movimento construtivo, baseado no diálogo e na pluralidade, que conferem, afinal, à universidade, sentido e razão de ser.

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Daniel Aarão Reis é professor titular de História Contemporânea/UFF
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