Um Estado para
a sociedade civil

Gabriel Cohn
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Marco Aurélio Nogueira. Um Estado para a sociedade civil. Temas éticos e políticos da gestão democrática. São Paulo: Cortez, 2004.
“A nossa é uma época que nos desafia e exige respostas políticas ousadas, gestos generosos e reflexões teóricas inovadoras”, escreve Marco Aurélio Nogueira na conclusão deste livro. São exigências severas. Mas, como ele demonstra, não reconhecer isso levaria a bloquear-se de antemão o acesso às questões éticas e políticas que lhe importam. É significativo que o lema dessa conclusão (e talvez do livro todo) apareça expresso nos termos “hegemonia e emancipação”. Isto indica a complexa trama em que se inscrevem os estudos aqui reunidos. Nela aparecem reunidos duas das grandes figuras que desde a Antigüidade clássica caracterizam a reflexão política: a do tecelão e a do piloto. Por um lado, a paciente urdidura dos laços sociais civis, na dupla acepção do termo, de cidadania e civilização. Sociedade e Estado vistos como partícipes de um projeto emancipador e não da mera gerência eficaz, portanto. Por outro, e inseparável desses laços (e nisto reside o cerne da argumentação de Marco Aurélio), a direção do conjunto, a capacidade de plasmar uma sociedade civil à qual responda o Estado democrático que importa considerar. A hegemonia como referência compartilhada na vida social, em suma, como matriz do ato político por excelência, que consiste em sair de si e dirigir-se ao outro na construção de formas de convivência tensas entre o desejado e o possível.
Marco Aurélio Nogueira não faz parte daqueles que o historiador Burckhardt tinha em mente quando falava da “era dos terríveis simplificadores”. Para ele o mundo cada vez mais requer uma visão das “sutilezas pouco percebidas”, capaz de valorizar “ritmos e velocidades” e de perceber “dinâmicas democráticas sinuosas”. O termo é feliz: “sinuosas”. Pois, nas páginas deste livro, escritas com a elegância de quem preza o leitor, não se encontrarão atalhos rudes, linhas retas talhadas a facão deixando de lado as pequenas dobras em que se esconde o essencial. Se nem tudo é perseguido até o fim, é porque isso não cabe num conjunto de estudos dedicados a dimensões diferentes de um grande tema. Mas as exigências impostas a quem queira entender o nosso mundo, sobretudo na sua dimensão política vista pela perspectiva do cultivo de condutas civilizadas - a grande paixão intelectual de Marco Aurélio -, estão sempre presentes no curso da argumentação.
Esse modo de pensar combina mal com argumentos dualistas. Tende a orientar a visão para os múltiplos elos entre as dimensões da vida social e política (pois ambas são inseparáveis), e a aumentar a sensibilidade para os desajustes e os desencontros. Nada pior, nessa ótica, do que a “proliferação de projetos de poder desvinculados de projetos de sociedade”, que acabam levando água ao moinho da separação entre sociedade civil e Estado, quando uma está no próprio coração do outro, e o funda. Daí também a crítica às concepções do Estado como “fardo e custo”. Nessa mesma linha vão as notáveis análises do “sofrimento organizacional”, denso e instigante tema de um dos melhores capítulos do livro, no qual se encontram passagens como esta, que encerra este convite à leitura: “É um paradoxo: desejam-se decisões rápidas e ao mesmo tempo deseja-se deliberar a respeito de tudo. O ‘sofrimento’ reflete esse desencontro de expectativas”.

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Gabriel Cohn é professor do Departamento de Ciência Política da USP.
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