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Enciclopédia italiana. Roma, 1992.
Quinto Apêndice E - IS 1979-1992, p. 485-6.
Político e escritor. Uma nova luz sobre sua biografia e os conteúdos de sua obra foi lançada
pelos estudos realizados nos anos mais recentes. Depois de uma juventude atormentada por
doenças e apertos econômicos, transferiu-se em 1911 para Turim, graças a uma bolsa de
estudos que lhe permitiu matricular-se na universidade, na Faculdade de Letras e Filosofia.
Apaixonou-se inicialmente pelos estudos de Lingüística, sob a orientação do glotólogo M.
Bartoli, mas em seguida se ligou aos mais ativos movimentos literários e políticos da capital
piemontesa. Seus estudos universitários, porém, foram retardados por freqüentes crises de
esgotamento nervoso, e ele renunciará por fim a diplomar-se, para empenhar-se cada vez
mais no jornalismo militante (em dezembro de 1915 começou a trabalhar na redação
turinense de Avanti!, órgão do Partido Socialista Italiano.
Sua atividade jornalística se impõe à atenção geral não só pela qualidade do texto mas
também pela profundidade da pesquisa cultural. Neste sentido, tornou-se exemplar a
preparação de um número único redigido em fevereiro de 1917 por conta da Federação da
Juventude Socialista do Piemonte (La città futura), em que ao lado de artigos
originais de teoria e de propaganda socialista se alinhavam escritos de Croce, Salvemini e A.
Carlini. Neste período, a influência de Croce e da polêmica antipositivista do idealismo
italiano também se mostra na avaliação entusiasmada da Revolução Russa de novembro
de 1917, interpretada como "revolução contra O Capital" (isto é, contra a versão
determinista da obra de Marx). Com estas diretrizes preparou e em seguida dirigiu, no
pós-guerra, o periódico L'ordine nuovo, publicado entre maio de 1919 e dezembro
de 1920 com o subtítulo de "resenha semanal de cultura socialista". Ligando-se ao
movimento turinense dos conselhos de fábrica, o periódico pretendia ser tanto instrumento
de investigação cultural quanto órgão de luta política. Esta experiência se situava, numa
perspectiva revolucionária, à esquerda do movimento socialista da época, mas em
conformidade com outros fermentos da cultura italiana do período, como os que se
referiam ao neoliberalismo de P. Gobetti, que de fato julgou positivamente a obra do grupo.
Em 1921 participou do Congresso de Livorno, que assinalou a cisão do Partido Socialista e
a constituição do Partido Comunista. Ainda em Turim, dirigiu o órgão do novo partido,
L'Ordine Nuovo, que se tornou um cotidiano (no qual também colaborou Gobetti,
como crítico teatral). Todavia, nos primeiros anos do novo partido sua atividade foi
condicionada pela direção de A. Bordiga, que, tendo organizado uma facção nacional antes
da cisão, havia obtido uma posição de destaque, influenciando também grande parte do
próprio grupo turinense de L'Ordine Nuovo.
Neste período, em maio de 1922, antes do golpe de Estado fascista, partiu para Moscou,
onde ficou até novembro de 1923 como representante do partido italiano no comitê
executivo da Internacional Comunista. Em seguida se dirigiu a Viena, para preparar uma
nova série de L'Ordine Nuovo, que começou a sair quinzenalmente a partir de
primeiro de março de 1924. Pouco depois foi eleito para o Parlamento e pôde voltar à
Itália, empenhando-se na luta contra o fascismo e, dentro do partido, na ação organizativa
necessária para impor uma linha política diversa da bordiguiana, que, por seu extremismo,
havia entrado em rota de colisão com as posições prevalecentes na Internacional Comunista.
A linha de G., que reuniu em torno de si um novo grupo dirigente "centrista", prevaleceu
a seguir no III Congresso do Partido Comunista da Itália, realizado em Lyon, em janeiro de
1926. Alguns meses depois, porém, suas relações com a Internacional Comunista sofreram
um primeiro abalo, com sua iniciativa de escrever uma alarmada carta ao comitê central do
Partido Bolchevique em razão das divisões internas daquele partido. Mesmo criticando
a oposição, a carta também trazia reservas sobre os métodos da maioria (Stalin-Bukharin),
e por este motivo Togliatti, então representante em Moscou dos comunistas italianos,
considerou oportuno não entregá-la oficialmente. Daí nasceu uma viva polêmica entre G.
e Togliatti, relevante sobretudo pela insistência por parte do primeiro na necessidade de
"apelar à consciência política dos companheiros russos e indicar energicamente os perigos
e as fraquezas que suas atitudes estavam por determinar".
A precipitação dos eventos na Itália o afastou, no entanto, desta polêmica: em 8 de
novembro de 1926, depois das "medidas de exceção" do governo fascista contra os
oposicionistas, G. foi detido apesar da imunidade parlamentar e enviado, primeiramente, ao
confinamento em Ustica e, depois, ao cárcere de Milão, para ser submetido, junto com
outros dirigentes comunistas, ao Tribunal Especial para a Defesa do Estado. No julgamento,
realizado em Roma entre maio e junho de 1928, foi condenado a 20 anos de reclusão.
Destinado, para cumprir a pena, à penitenciária de Turi (Bari), aí ficou até dezembro de
1933, quando por graves motivos de saúde foi transferido, primeiro, para a enfermaria do
cárcere de Civitavecchia e, depois, sempre na condição de preso, para uma clínica privada
de Formia. Só em outubro de 1934 foi posto em liberdade condicional, mas permaneceu
na mesma clínica de Formia, não tendo condições de retomar a atividade normal em razão
da saúde comprometida. Morreu, enfim, na clínica Quisisana, de Roma, para onde fora
transferido sob vigilância desde a clínica de Formia.
Sua vida no cárcere também foi tornada amarga pelas difíceis relações estabelecidas com
o partido que havia dirigido antes da prisão. Em desacordo com a linha política adotada no
fim de 1929 sob pressão do Komintern, então em luta não só com o fascismo mas também
com a social-democracia (definida como "social-fascismo"), se via em aberto conflito com
a maioria dos outros comunistas presos em Turi, e isto o havia induzido a fazer de seu
isolamento a forma exclusiva da própria existência. Explica-se assim por que sua situação
não tenha sido então discutida nos órgãos dirigentes ativos no exílio, com os quais suas
relações foram sempre indiretas (com a mediação do amigo economista P. Sraffa, que
trabalhava em Cambridge). Todavia, depois de 1934, com o abandono da propaganda
sobre o "social-fascismo" e o predomínio da política de unidade antifascista, foram
intensificadas as campanhas internacionais de imprensa para pedir sua libertação.
À parte os reconhecimentos provenientes dos contemporâneos no curso de sua atividade
(Gobetti, Prezzolini, Dorso), sua fama está ligada sobretudo à publicação, no pós-guerra,
dos escritos póstumos. Em 1947, a primeira edição das Cartas do cárcere (uma
edição nova e mais ampla foi publicada em 1965) teve uma enorme repercussão nos
ambientes culturais mais diversos. Seguiram-se os volumes extraídos dos Cadernos do
cárcere, na edição temática: O materialismo histórico e a filosofia de Benedetto
Croce (1948), Os intelectuais e a organização da cultura (1949), O
Risorgimento (1949), Notas sobre Maquiavel, a política e o Estato moderno
(1949), Literatura e vida nacional (1950), Passado e presente (1951).
Em vários volumes foram depois recolhidos os escritos jornalísticos do período pré-cárcere.
A ordem sistemática escolhida na primeira edição dos Cadernos, com o
agrupamento editorial das notas gramscianas por argumentos e temas homogêneos, tornava
mais imediatamente acessíveis os conteúdos da obra, mas não revelava seus nexos internos
e o fio condutor seguido pelo autor em seu trabalho.
Esta foi, no entanto, a tarefa que se propôs a edição crítica dos Cadernos do
cárcere, publicada em quatro volumes em 1975 sob os cuidados de V. Gerratana,
segundo a ordem dos manuscritos integrais assim como foram deixados pelo autor, mas
com um amplo aparato de notas e índices e com o cotejo das fontes utilizadas. Assim foi
possível seguir o ritmo de desenvolvimento da investigação gramsciana através da primeira
redação de notas registradas em cadernos mistos, depois retomadas, e em alguns casos
desenvolvidas na segunda redação dos cadernos "especiais", a partir dos quais o autor se
propunha compor ensaios independentes relacionados entre si, mas não um trabalho
orgânico de conjunto (como parecia sugerir a primeira edição temática).
Ponto de partida da investigação é a ordem de idéias esboçadas num ensaio sobre a questão
meridional escrito antes da prisão, com a análise da relação cidade/campo e das alianças
de classe na sociedade italiana das primeiras décadas do século. A análise se amplia e se
aprofunda no trabalho dos Cadernos com o estudo da função dos intelectuais na
história da Itália. É uma pesquisa complexa e original, porque a noção de "intelectual", em
sua função de coágulo da formação de todo bloco histórico, é ampliada além dos limites
tradicionais, numa visão que estende o conceito mesmo de Estado, entendido não mais só
como "sociedade política", órgão de coerção jurídica, mas como entrelaçamento de
sociedade política e "sociedade civil", em que a hegemonia de um grupo social se exerce
através de organizações privadas, como Igreja, sindicatos, escolas e outros instrumentos
de direção cultural.
Esta estrutura teórica, que tem no centro o conceito de "hegemonia", leva também a uma
nova interpretação da queda das comunas medievais e de sua incapacidade de superar a fase
econômico-corporativa do Estado, em razão do caráter cosmopolita dos intelectuais
italianos e da ausência, neles, de uma função nacional-popular. No Estado moderno, ao
contrário, o exercício da hegemonia permite às classes dominantes obter o consenso das
classes subalternas, seja com a energia das revoluções de tipo jacobino, seja através de
diferentes formas de "revolução passiva": com este termo, tomado de V. Cuoco, é indicado
um processo de revolução-restauração ou de "revolução sem revolução", como
aquele ilustrado na história italiana pelo Risorgimento, em que os moderados conseguem
exercer sua hegemonia sobre o Partido de Ação.
Nesta análise, também o fascismo é considerado uma forma particular de revolução passiva;
o fascismo visto não só em seus aspectos repressivos mas também em seus esforços
econômico-sociais de modernização em relação ao fenômeno do americanismo e do
fordismo, outro veio explorado com constância analítica nos Cadernos. Neste
quadro historiográfico se insere a visão política de uma estratégia revolucionária fundada
na passagem da "guerra de movimento" e do ataque frontal à "guerra de posição" adequada
às condições do Ocidente, em que o exercício da hegemonia é confiado à conquista do
consenso em todas as principais articulações da sociedade civil.
Liga-se a tal estratégia a reflexão sobre dois temas recorrentes nos Cadernos: o
problema da relação entre Maquiavel e Marx (e surge desta reflexão a idéia de um partido
como moderno Príncipe) e a perspectiva de um desenvolvimento do marxismo como
filosofia da práxis em suas relações com o senso comum e com as correntes culturais do
mundo moderno. A estreita conexão destes temas se mostra ainda mais evidente na
sucessão dos manuscritos originais tal como são reproduzidos na edição crítica, na riqueza
de suas implicações e dos problemas deixados em aberto pelo próprio autor. Por isto,
trata-se de temas que podiam servir de estímulo para novas pesquisas e de fato foram
discutidos longamente, mesmo em outros países.
Traduções da edição crítica dos Cadernos existem na França (Paris, Gallimard),
América Latina (México, Ediciones Era), Alemanha (Hamburgo, Argument), Estados
Unidos (Columbia University Press). Um testemunho minucioso da difusão do
pensamento de G. no mundo está na Bibliografia Gramsciana, organizada por J. Cammett,
apresentada no Congresso Internacional de Formia em outubro de 1989; nela estão
registrados mais de 7 mil títulos em 27 línguas.
(Tradução de Luiz Sérgio Henriques)
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