O Gramsci do Presidente

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
São Paulo, 25 out. 1997, p. 2














           Nas sociedades em que a política virou espetáculo, nem sempre os que falam dominam os conteúdos que inserem em seus discursos. Existe, em outros termos, muita pose e jogo de cena. Mundo repleto de "faz-de-conta", a política-espetáculo opera com os olhos nos ganhos de audiência, no tempo de exposição, na capacidade de produzir fatos, notícias, "factóides". O resultado, dentre outras coisas, é o impulsionamento da confusão entre os cidadãos e, acima de tudo, o aumento do esvaziamento ético-valorativo da política. Não surpreende que a política perca sentido, que os eleitores "flutuem" e não manifestem maiores lealdades, limitando-se, na maioria das vezes, a acompanhar em chave moralizante a conduta dos políticos, dos governantes e dos servidores públicos. Não se pode exigir coerência dos homens e mulheres "comuns" da sociedade se os seus representantes só transmitem mensagens enviesadas, trôpegas, maliciosas e ainda por cima incapazes de produzir energias cívicas superiores.
           Não houve quem não lesse a entrevista concedida pelo Presidente da República à revista Veja de semanas atrás. Fernando Henrique Cardoso falou como Presidente e como sociólogo. Usou e abusou de citações, referências eruditas, críticas e ironias. Mostrou estar tão afiado quanto nos tempos em que, como intelectual e como parlamentar, se batia pela democratização do país. Mostrou, também, não ter perdido a habilidade de difundir uma explicação do Brasil, de que é tão rica sua trajetória pessoal. Como não poderia deixar de ser, tratou-se de uma fala programática, no melhor estilo: uma apresentação de prioridades, ênfases, sinalizações, quase uma agenda de persuasão.
           Vista deste ângulo, a entrevista presidencial só merece aplausos. Pode-se dela discordar, mas não se pode negar a ela o mérito de ter sido propositiva e, ao sê-lo, de oferecer um fino panorama do estágio atual do pensamento de FHC.
           Revelando clara vocação eclética, o presidente-sociólogo cercou-se de símbolos para legitimar seu discurso e direcioná-lo para o reforçamento das bases de sustentação de seu governo. Foi da direita à esquerda como se passa da noite ao dia. Relutou em rotular o campo mais conservador, preferindo confiar nas intenções "socialistas" de alguns de seus integrantes. Foi ameno com os neoliberais e os arautos da globalização, que apresentariam a vantagem de andar com o foco no futuro. Mas não poupou farpas, evidentemente, à esquerda, da qual julga ser o único representante autêntico: "uma esquerda que é contra reformar e que não tem o pensamento da transformação não é esquerda; esquerda sou eu".
           O Presidente quis demonstrar que está filiado ao que há de mais avançado no mundo: a interdependência econômica, a radicalização da democracia, a reforma do Estado, o fim dos privilégios. Para tanto, não poupou esforços: chamou em seu auxílio os mais variados ícones e conceitos, tomando de empréstimo pedaços inteiros do arsenal ideológico de seus adversários. Remeteu-se, por exemplo, a Antonio Gramsci, celebrado pensador comunista italiano, um dos mais poderosos teóricos marxistas da política, autor de uma vasta e renovadora obra sobre o Estado, a sociedade civil, a hegemonia, a revolução. O Presidente, porém, não foi à fonte: trouxe-nos um Gramsci processado pela luta política, seguindo a interpretação de Massimo D'Alema, principal dirigente do Partido Democrático da Esquerda, uma das famílias em que se dividem os comunistas italianos. O Gramsci presidencial não é um revolucionário, mas um "democrata progressista", talvez um "pós-comunista", mas seguramente alguém bem próximo do liberalismo. "Seja qual for a origem dos que estão pensando o progressismo hoje, são gramscianos", disse, insinuando ser esse o grupo a que ele próprio pertence. Mas como Gramsci, perguntará o leitor mais bem informado? O grande italiano não era um revolucionário, um comunista, um radical? Era, responderia FHC, mas não era mais marxista-leninista-estatizante: era um "social-democrata" de novo tipo, admirador apaixonado dos "valores de liberdade, dinamismo e responsabilidade individual", de tudo o que "hoje seria chamado de liberalismo".
           Não há como impedir que grandes pensadores sejam objeto de disputas acerbas. O Gramsci presidencial mostra, claramente, a força e a vitalidade do pensamento deste comunista que, morto ao final do fascismo, há exatos sessenta anos, manteve-se como referência para a análise dos complexos problemas do mundo contemporâneo. Mas o "gramscianismo" à moda de FHC não expressa uma admiração, nem muito menos a aceitação de um pensamento: é acima de tudo uma deliberada manipulação ideológica, uma tentativa de transfiguração. O Gramsci liberal de Fernando Henrique é uma boutade teórica e um mau-passo político-doutrinário: sendo Gramsci o que é ¾ um comunista democrático e revolucionário em política, materialista e dialético em filosofia ¾ , não se sabe bem que "estragos" poderá ele causar ao entrar em contato com as outras propostas aninhadas no ecletismo presidencial. Pode ajudar o Presidente a incomodar a esquerda e a afagar os "ex-comunistas gramscianos" do Senador Roberto Freire, misturando ainda mais as cartas já confusas do comunismo tupiniquim. Mas pode também ser a porta de entrada de um processo de banalização e falseamento teórico que não só desmerecerá a inteligência presidencial como poderá abalar, no médio prazo, sua própria operação política prática.