Uma nova edição de Gramsci no Brasil

Carlos Nelson Coutinho
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














A Editora Civilização Brasileira publicará, entre 1999 e 2000, uma nova edição brasileira das obras de Antonio Gramsci. Esta nova edição -- organizada por mim com a estreita colaboração de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira -- tem como finalidade retomar e completar a velha edição iniciada nos anos 60 pela mesma Editora, dirigida então pelo saudoso Ênio Silveira, o mais importante editor marxista brasileiro. Foram publicados naquele momento, ou seja, entre 1966 e 1968, não apenas quatro dos seis volumes extraídos dos Quaderni del carcere (Concepção dialética da história; Os intelectuais e a organização da cultura; Maquiavel, a política e o Estado moderno; e uma seleção de Literatura e vida nacional), mas também uma coletânea das Cartas do cárcere segundo a edição Caprioglio-Fubini (com 223 cartas).
A radicalização da ditadura militar em dezembro de 1968 impediu o prosseguimento do projeto originário, que previa ainda a publicação de Il Risorgimento e de Passato e presente. De resto, esta e outras razões -- como tentei mostrar em outro lugar (cf. C.N. Coutinho, "In Brasile", in Gramsci in Europa e in America, organizado por A. A. Santucci, Bári-Roma, Laterza, 1995, p. 123-40) -- provocaram o fracasso inicial dessa corajosa iniciativa editorial. Os primeiros volumes brasileiros de Gramsci terminaram vendidos em liquidações, a preço de banana. Somente na segunda metade dos anos 70, entre outras coisas por causa da atmosfera de relativa "abertura" política que então se iniciava, foi que a Civilização Brasileira pôde retomar a reedição -- inalterada -- dos volumes publicados na década anterior, muitos dos quais encontram-se hoje em décima edição.
O que assim parecia, no final dos anos 60, um verdadeiro fracasso comercial e político revelou-se, ao contrário, uma das mais exitosas iniciativas editoriais no campo do pensamento social em nosso País: graças a essa velha edição, Gramsci tornou-se um dos pensadores estrangeiros mais influentes na vida cultural brasileira. Pode-se dizer, sem hesitação, que nove entre dez pesquisadores brasileiros que hoje citam e utilizam Gramsci em suas investigações -- e não são poucos esses pesquisadores! -- conheceram nosso autor através dessa velha edição. E tampouco se deve esquecer que, no final dos anos 60, quando tais volumes foram publicados no Brasil, não havia ainda em nenhuma língua além do italiano -- com exceção do espanhol, graças ao empenho do comunista argentino Héctor P. Agosti -- uma massa de textos gramscianos equivalente àquela de que já então dispúnhamos em português.
Decerto, essa velha edição brasileira não era isenta de problemas. Por temor da censura ditatorial, a editora substituiu o título do primeiro volume temático dos Cadernos -- que, em italiano, como se sabe, chama-se Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce -- por um outro considerado menos "subversivo", ou seja, Concepção dialética da história. Essa alteração, contudo, não me parece ter prejudicado a leitura de Gramsci entre nós. Bem mais grave, sem dúvida, foi o fato de que a Civilização Brasileira suprimiu das edições então publicadas e depois reimpressas os prefácios contidos na velha edição temática, onde se dizia claramente que aqueles volumes agrupavam as notas carcerárias de Gramsci segundo uma base temática, ou seja, segundo critérios que não haviam sido estabelecidos pelo próprio Gramsci (ainda que tenham sido mais ou menos sugeridos por ele) e sob títulos escolhidos pelos editores e não pelo próprio autor. Além disso, foram também suprimidos dessa velha edição os longos índices da primeira edição italiana, nos quais se fixava a origem das diversas notas desses volumes temáticos nos 29 cadernos que Gramsci escrevera no cárcere.
Com o objetivo não só de sanar esses problemas, mas sobretudo de ampliar a massa dos textos gramscianos postos à disposição do leitor de língua portuguesa, apresentei à Civilização Brasileira (hoje sob nova gestão) a proposta de uma nova edição brasileira das obras de Gramsci. Já que, nesse meio tempo, foi finalmente publicada a edição crítica dos Cadernos (sob a orientação de Valentino Gerratana, Turim, Einaudi, 1975), que certamente revolucionou os estudos gramscianos, a nova edição brasileira dos Cadernos não poderia se basear somente na velha edição temática "togliattiana", malgrado o indiscutível papel positivo por ela desempenhado no sentido de promover em todo o mundo (mas sobretudo na Itália) o encaminhamento inicial ao estudo de Gramsci.
Nossa proposta, portanto, não é mais a de retomar a edição temática, simplesmente complementando-a com os volumes ainda inéditos no Brasil. Iremos fazer uma edição diversa, original: todos os seis volumes previstos terão como eixos os "cadernos especiais", aqueles nos quais Gramsci retomou e reescreveu seus apontamentos iniciais, agrupando-os segundo temas mais ou menos orgânicos. Todos esses "cadernos especiais" serão assim reproduzidos tal como se encontram na edição Gerratana, que reproduz os próprios manuscritos gramscianos. Após cada "caderno especial", o leitor brasileiro encontrará sempre uma parte intitulada "Dos cadernos miscelâneos" (que são aqueles onde Gramsci reuniu fragmentariamente apontamentos sobre temas variados), na qual estarão contidas as notas "miscelâneas" relacionadas com o tema do "caderno especial" em questão. Essas notas "miscelâneas", de resto, serão dispostas em ordem cronológica, com a indicação de sua proveniência nos respectivos cadernos. O local dessas partes "miscelâneas" (com exceção do uso da ordem cronológica) não se afastará excessivamente daquele proposto na velha edição temática. Tal como nessa edição, de resto, continuarão excluídos da nova edição brasileira, com uma única exceção, os textos que Gerratana chamou de "A", ou seja, os que foram transcritos ou reescritos por Gramsci nos "textos C", que compõem os "cadernos especiais". Todos os "textos B", ou seja, os de redação única, estarão presentes (ao contrário da velha edição temática, que exclui alguns deles) em nossa nova edição.
Para sublinhar a diferença com a edição temática, todos os volumes da nossa nova edição terão expressamente como título geral Cadernos do cárcere (vol. 1, 2, 3, etc.), seguido de subtítulos apenas indicativos, baseados de resto nos próprios títulos dados por Gramsci aos "cadernos especiais". Serão os seguintes (salvo eventuais pequenas alterações) o conteúdo e os subtítulos dos seis volumes previstos:

1. O materialismo histórico. A filosofia de Benedetto Croce (cadernos 11 e 10 e as notas extraídas dos "cadernos miscelâneos");
2. Os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo (com os cadernos 12, 24 e 28 e as relativas notas miscelâneas):
3. Maquiavel. Notas sobre o Estado e a política (cadernos 13 e 18 e id.)
4. Temas de cultura. Ação católica. Americanismo e fordismo (cadernos 16, 26, 20 e 22 e id.);
5. O Risorgimento italiano. História dos grupos sociais subalternos (cadernos 19 e 25 e id.);
6. Literatura. Folclore. Gramática (cadernos 21, 23, 27 e 29 e id.).

A edição crítica organizada por Valentino Gerratana é doravante absolutamente imprescindível para todos os que queiram estudar aprofundadamente o pensamento de Gramsci, já que ela faz ver com clareza, por assim dizer, o "laboratório" onde Gramsci desenvolveu suas pesquisas. Mas, a meu ver, essa edição crítica não cancela o valor de algumas das soluções encontradas pelos organizadores da velha edição temática: com efeito, essa última faz com que seja mais fácil, para o leitor que lê Gramsci pela primeira vez, uma recepção menos fragmentária de suas brilhantes reflexões.
Por isto, a nova edição brasileira retoma da edição Gerratana a formatação dos "cadernos especiais" e adota os seus critérios de numeração dos cadernos e das notas, mas se vale ao mesmo tempo de dois critérios adotados na edição temática: 1) os "cadernos especiais" serão agrupados mais ou menos tematicamente em cada volume (mas numerados segundo a edição crítica, o que permitirá ao leitor perceber facilmente a sua ordem cronológica); 2) e as notas "miscelâneas" serão agrupados segundo o tema tratado em cada "caderno especial" (mas também elas serão dispostas em ordem cronológica, com a indicação do número do parágrafo e do caderno de onde provêm).
Penso assim que a solução que encontramos para a nova edição brasileira dos Cadernos oferecerá ao leitor de língua portuguesa não apenas as vantagens de uma maior acessibilidade aos textos gramscianos, possibilitada pela edição temática, mas também porá à sua disposição, ao mesmo tempo, os instrumentos que lhe permitirão desfrutar do rigor filológico próprio da edição Gerratana. Enquanto o leitor mais exigente poderá recompor, com facilidade, todo o percurso cronológico seguido por Gramsci na elaboração dos seus Cadernos, o leitor iniciante terá os meios de não se perder no labirinto das anotações carcerárias do revolucionário italiano, já que poderá perceber os eixos temáticos que lhe serviram de fio condutor. De resto, como complemento ao volume 6, nossa nova edição prevê ainda um detalhado índice temático dos principais conceitos gramscianos.
Além dos Cadernos, o projeto das "Obras de Antonio Gramsci" contempla ainda não apenas a publicação em dois grossos volumes de uma seleção dos escritos pré-carcerários de nosso autor -- em sua maioria ainda inéditos em português --, mas também uma nova tradução integral das Cartas do cárcere, feita com base na atualizada edição organizada por Antonio A. Santucci (Sellerio, Palermo, 1997). Enquanto os seis volumes dos Cadernos estão previstos para sair ainda em 1999, os Escritos políticos 1910-1926 e as Cartas serão publicados em 2000.

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Carlos Nelson Coutinho é professor da UFRJ e co-editor de *Gramsci e o Brasil*.
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