Os novos dogmáticos

Luiz Sérgio Henriques
O Tempo,
Belo Horizonte, 16 ago. 1998, p. 8




Este é um tempo de transição, no qual velhas identidades políticas vacilam ou mesmo desmoronam sob pressão de acontecimentos imprevisíveis. O século XX, o século curto, espreme-se entre a primeira guerra mundial e a queda do Muro de Berlim, ou o fim da União Soviética logo depois; e o século XXI, não só pelo calendário mas também do ponto de vista político e cultural, ainda não começou. Vivemos, pois, num difícil momento de transição, no início do qual, aliás, pareceu impor-se de modo avassalador uma filosofia da história impensável apenas algum tempo antes.

Esta filosofia da história vitoriosa apregoava, como se sabe, o fim de muita coisa: o fim, por exemplo, da esperança de reconstruir em bases solidárias a sociedade humana. O comunismo, que pretendia realizar as promessas não cumpridas da modernidade burguesa, devia ir para a lata de lixo da história. E o conceito de transição de uma formação social a outra simplesmente tinha seu conteúdo invertido: agora, o problema era sair das sociedades do socialismo real para o capitalismo velho de guerra, o ponto de chegada finalmente encontrado das sociedades que desde 1917 se haviam aventurado por um beco sem saída.

Esquerda e direita trocaram de sentido. A primeira, originalmente portadora das promessas de maior igualdade e liberdade, viu-se progressivamente em dificuldades, com a degeneração e o colapso das sociedades do Leste europeu. E mesmo o contido reformismo dos partidos social-democratas também passou à defensiva, de modo que o conceito de esquerda e o de conservadorismo passaram a ser associados no senso comum e no léxico dos políticos. Inversamente, o clima espiritual e político de nossos dias consagra uma direita adepta das "reformas", inovadora, anunciadora incansável dos feitos da "destruição criadora" do mercado. Parece cômico, mas é assim que se apresentam entre nós -- no traje completo de reformadores -- até representantes consumados das velhas oligarquias políticas nordestinas.

Uma idéia talvez sugestiva é que o século XXI de fato se iniciará não quando os computadores tiverem de se haver com o "bug" do ano 2000 ou quando, em suma, a fria contagem do calendário o indicar. O novo século se anunciará, com suas lutas sociais de novo tipo, com sua rebelião inevitável à mercantilização de todos os âmbitos da vida, quando este onipotente "Zeitgeist" privatista sob o qual vivemos se transformar em forma vazia, morta, incapaz de justificar o imenso custo humano e social que as políticas hoje vitoriosas inevitavelmente implicam. Esse "espírito do tempo", então, com sua linguagem e seus requerimentos, nos parecerá um anacronismo intolerável, sob cuja égide se terá perdido, inexplicavelmente, um contingente absurdo de homens e mulheres.

Sob nossos olhos transcorreu um processo análogo de envelhecimento e desajuste de formas. No socialismo real, a crescente perda de dinamismo econômico e a incapacidade de produzir um indivíduo e uma vida social mais ricos se faziam acompanhar da linguagem dogmática e cristalizada da ideologia "marxista-leninista". Esta última, transformada em rito vazio, despediu-se pouco a pouco das funções de expressar um conteúdo vivo: constitui uma autêntica aventura arqueológica folhear os antigos manuais do "diamat" -- isto é, do materialismo dialético em sua versão soviética --, repletos do que hoje nos parece tão-somente arcaísmo, frases feitas, formulações destituídas do espírito de pesquisa e invenção. Mas a ideologia da competitividade e da eficiência a qualquer custo não terá destino diverso. Exigir o sacrifício da sociedade, a auto-imolação dos trabalhadores excluídos do mercado de trabalho, em nome do funcionamento autônomo e supostamente "racional" da economia -- um disparate destes será reconhecido pelo que é.

Por toda parte os arautos do novo credo copiam do antigo catecismo "marxista-leninista" a pretensão e a arrogância de falar em nome de uma filosofia da história inescapável, ainda que com o sinal trocado. E por aqui é tão grande essa arrogância que -- para recorrer a figuras e acontecimentos pátrios --, quando se buscam possíveis erros na gestão da coisa pública, os protagonistas da "reforma" no máximo se censuram por "excesso de racionalidade" ou "falha de comunicação"! (Este ponto máximo de autocrítica dura apenas, evidentemente, até que o próximo ibope volte a assinalar números favoráveis, devolvendo a suficiência momentaneamente perdida ao rei-sociólogo e sua corte). Copiam ainda um economicismo fatalista, ao qual corresponde um visível declínio da política como capacidade de reinventar socialmente o Brasil com ousadia e originalidade. Por isto, não importa muito o clima de partido único que nos cerca: os novos dogmáticos não levarão a melhor, quando menos por falta de estilo.