O retorno da política

Luiz Sérgio Henriques
O Tempo,
13 set. 1998,
p. 8




Corre o risco de alternar insensatamente entre euforia e depressão quem pautar sua análise, mesmo de conjuntura, segundo o noticiário dos jornais, especialmente as páginas de economia. Parecemos todos condenados à montanha russa dos índices da bolsa e cotações de moedas de nome exótico. Descobrimos todo dia, espantados, que uma entidade sem rosto chamada "mercado", posta acima e além das necessidades humanas, não só adquiriu a vida própria dos fetiches como até desenvolveu uma personalidade de "serial killer". Já liquidou a Tailândia e outros tigres asiáticos, prosseguiu recentemente com a Rússia e acaba de chegar na América Latina, com seu arrasador instinto assassino.

Inútil especular se o Brasil é ou não a Rússia ou a Venezuela, e muito menos avaliar, por ora, a extensão do ataque em curso contra o real. Qualquer especulação no sentido, além do risco maníaco-depressivo, não contribuiria para esclarecer certos aspectos essenciais tanto da presente crise mundial quanto da frágil posição do Brasil, atingido em meio a um tumultuoso processo de "reformas de estrutura" e em pleno período de eleições gerais.

Desde já podemos destacar um desses aspectos básicos. Toda crise, mas especialmente uma crise desse porte, tem o poder de abalar verdades estabelecidas, às vezes ferindo de morte idéias inexpugnáveis até a véspera. Assim, está claramente em questão não propriamente a globalização, mas certamente a forma neoliberal sob a qual ela se impôs avassaladoramente nestes anos 90. A centralidade da riqueza privada, em particular a financeira, foi acentuada até o absurdo, em detrimento da coesão social, numa ofensiva impiedosa contra as diferentes formas de compromisso entre capital e trabalho obtidas ao cabo de século e meio de dura confrontação.

Esta globalização neoliberal tratou (trata) a política como mera província da economia. Ela exige que a ação política se adapte passivamente aos requerimentos do mecanismo econômico, matriz de toda racionalidade. Impotentes, as sociedades -- os indivíduos que as compõem -- devem submeter-se à "disciplina dos mercados", de vocação totalitária evidente. O trabalho torna-se precário e sem garantias, os direitos sociais viram intoleráveis privilégios corporativos, a previdência deve ser confiada à irracionalidade exuberante da bolsa de valores. A "sociedade aberta", para usar um polêmico termo popperiano, torna-se o palco por excelência do economicismo vulgar, acusação que o próprio Karl Popper outrora havia tornado clássica em relação a Marx e seus adeptos.

Não deixa de ser curioso este episódio da dialética das idéias. Para Popper, um dos pontos de referência do moderno pensamento liberal, os marxistas cometiam um erro grosseiro no exame do sistema legal e social: em suma, na teoria do Estado e da política. Apesar de contribuir para o envolvimento dos trabalhadores na vida pública, o marxismo, contraditoriamente, trazia uma visão fatalista da própria ação política. A esta caberia, na melhor hipótese, "minorar as dores do parto", dando passagem às mudanças operadas na esfera decisiva: os meios de produção e as relações entre as classes.

Não é outro o papel designado à política pela ideologia privatista hoje dominante. O Estado nacional, por exemplo, é pressionado a intervir pesadamente no mercado de trabalho, destruindo direitos e deixando os indivíduos à mercê das exigências da acumulação "flexível". Um Estado, portanto, longe de qualquer resquício de neutralidade: forte em relação aos fracos, fraco em relação aos poderes fortes da sociedade. A cidadania, construída no espaço dos Estados nacionais, é outro valor sob pressão: em lugar do cidadão, o consumidor. Em lugar da carteira de identidade ou do título eleitoral, o cartão de crédito.

É este o contexto adequado para apreciar os primeiros e promissores sinais de rebelião social contra os imperativos da globalização neoliberal. Uma greve numa fábrica coreana ameaçada de fechamento, ou na General Motors americana, ou ainda o movimento dos sem-terra brasileiros têm o potencial não desprezível de politizar quase imediatamente o enorme descontentamento das sociedades sob a égide do capital globalizado.

Pode então estar próximo um retorno da política como capacidade de controlar processos hoje considerados cegos e inexoráveis, e como esfera da invenção de uma vida a salvo do "horror econômico". E talvez nasça, como alternativa concreta, uma nova forma social-democrata da globalização, se compreendermos "social-democracia" num sentido forte e mais próximo da situação original, em que social-democratas eram Marx e Engels, Kautsky e Rosa, Adler e Lenin. Nenhuma semelhança, pois, com a atual falsificação generalizada do termo.