Eleições sem política

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
25 set. 1998,
p. 2




Faltando pouco para o dia 4 de outubro, não há como deixar de constatar que essas estão sendo eleições que cristalizam um padrão. Poderíamos dizer que estamos atolados em um tipo bem particular de eleições sem política.

Quem se dispuser a acompanhar as campanhas dos postulantes aos principais cargos políticos do País, sobretudo no plano estadual, não terá dificuldades para constatar que elas estão fortemente concentradas naquela dimensão que deveríamos chamar de executiva. Para os candidatos, governar virou sinônimo de fazer: atividade adequada para quem se mostre possuidor de uma virtude empreendedora, de uma capacidade de realização recheada de habilidade administrativa, tirocínio gerencial e determinação. Até mesmo a oposição mais combativa e coerente não foge à regra: quer que os eleitores a vejam como capaz de lançar um outro olhar sobre o fazer, ou de fazer as mesmas coisas de um outro modo.

Entenda-me o leitor: não estou desprezando a dimensão administrativa inerente aos cargos políticos de natureza eminentemente executiva (Presidente e governadores). Tais cargos existem para organizar e implementar decisões que atendam às reivindicações, carências e aspirações dos cidadãos. Não há como governar sem fazer, sem realizar, sem executar. O que estou sugerindo é que governar não é só isso. Sobretudo para quem se põe no campo da democracia, governar é antes de tudo dirigir, agregar e transformar interesses, contribuir para a construção de novos nexos comunitários.

Se alguém, valendo-se de um partido, decide pedir votos, o mínimo que poderíamos esperar é que ele qualificasse esse seu pedido com uma proposição substantiva dedicada a orientar os que nele desejarem votar, deixando clara a perspectiva que adotará em relação à sociedade futura, às instituições em vigor, à idéia do viver junto. O mínimo que poderíamos esperar é que revelasse sua proposição ética, seu estatuto valorativo, seu desenho de futuro, sua ideologia. Ou, para falar de modo mais direto, seu projeto político.

É isso que não conseguimos encontrar na presente disputa eleitoral. Para além de generalidades acerca de desenvolvimento, emprego e combate à questão social, podemos ouvir algum candidato dizendo que importância sua candidatura tem para a democracia? O que ele pode oferecer aos cidadãos em termos de concepção de como viver em sociedade? Ou como encadeia as suas proclamadas habilidades como governante com as possibilidades oferecidas pela política de construir um espaço autenticamente público? Seja nos embates para os cargos executivos, seja na disputa pelos cargos legislativos, ninguém se refere a nenhum desses pontos.

Tal silêncio tem certamente uma explicação. Não se trata apenas de constatar a maior ou menor ruindade dos candidatos, mas de perceber que nos convertemos todos em vítimas de um processo maior, que nos envolve: a crise da política.

Quero dizer com isso que a luta eleitoral que se trava hoje em nossa sociedade parece destituída de objetivos claros precisamente porque a política está deixando de ser um instrumento de mediação, elo de ligação entre o individual e o coletivo, entre interesses particulares e "bem comum". A política já não consegue mais viabilizar-se como fator de construção de um espaço onde os conflitos possam se manifestar sem produzir destruições recíprocas. Em decorrência, acabamos por ficar diante de candidatos que se apresentam como distintos mas não conseguem se diferenciar de fato. Batem-se numa disputa vazia de sentido, reduzida a pelejas em torno de pequenas questões, estratégias de marketing ou realizações governamentais.

É muito pouco. O resultado é que as eleições ficam ainda mais cortadas pela tendência plebiscitária congênita ao nosso presidencialismo. Viram um momento em que se deve ser contra ou a favor. Para sorte da "situação", não há escolha entre opções substantivas, diferenciadas pela apresentação daquilo que lhes dá sentido e consistência como coisas distintas. Não há propriamente oposição.

Chegamos a esse ponto por uma combinação de fatores, alguns dos quais colados à nossa experiência nacional, outros derivados da maneira como passamos a viver em escala planetária. A crise da política não é exclusividade brasileira. Exibe-se por toda a parte, tal como filha dileta de uma época de transição predestinada a desestruturar tudo. Precisamente por isso, não é razoável imaginar que se trata de uma crise passageira, que incomoda mas não nos tira o equilíbrio.

Dela nascerá portanto alguma coisa. E a batalha, daqui para a frente, ficará concentrada em saber que padrão de política prevalecerá no futuro. Quer dizer, em interferir para que se produzam novos impulsos de análise e novos desenhos institucionais com os quais possamos interpretar o que está acontecendo, direcionar a ação social e manter vivos os valores básicos da vida civilizada.