A política como ameaça

Marco Aurélio Nogueira
Especial para Gramsci e o Brasil




A ameaça é um recurso de poder tão antigo quanto a própria política. Tem sido empregada de forma declarada, seguida do anúncio de castigos, ou com luvas de pelica, acompanhada da promessa de recompensas. Mas pretende sempre gerar o receio de que haverá algo de ruim se vier a faltar o líder virtuoso ou não for seguida a palavra verdadeira.

O processo eleitoral prestes a se concluir foi vivido sob o signo da ameaça. Quase todos previram desgraças para depois das eleições. O governo não se cansou de recordar o desastre que se seguiria a uma vitória da oposição. Muitos oposicionistas, ao contrário, trabalharam com a idéia de que o day after seria tenebroso precisamente se o presidente fosse reeleito. Nesses últimos dias de campanha, ao passo que o governo se anuncia como fiador da tranqüilidade nacional, parte da oposição fala em «punhalada pelas costas» para qualificar o pacote que viria com a vitória de FHC.

Vivemos sob o signo da ameaça há muito tempo. Na época da ditadura, ela integrava o nosso cotidiano. Achamos que, com a democracia, a ameaça seria banida. Não foi assim: a imagem do inferno acompanhou as tentativas de aplacar a inflação a partir de 1985, tanto quanto as resistências que se seguiram a elas. Mais recentemente, a ameaça veio com a globalização, a crise financeira internacional, a incerteza quanto ao futuro. E aí estacionamos.

É a artimanha preferida da cultura neoliberal que pretende monitorar a globalização: não temos mais história, pois hoje tudo está ao sabor do mercado e o mercado, por se autocorrigir espontaneamente, tornaria supérflua a intervenção da vontade humana. Estamos condenados a uma só idéia, a uma só solução, a um único e bom mundo. Fora isso, o caos ou o nada.

O governo FHC em boa medida tem compartilhado esse discurso. Aceitem-me, com os remédios amargos que sou obrigado a prescrever, pois somos vítimas de uma situação objetiva inexorável, mais forte do que tudo. Não há outro modo de conviver com as turbulências mundiais. Nossos únicos perigos são a crise sistêmica internacional e a intransigência cega dos oposicionistas, que impedem as reformas necessárias.

A ameaça se converteu no esteio de uma estratégia de dominação. Hoje percebemos que o governo FHC tornou-se refém de uma armação capitaneada pelo grande capital financeiro internacional. Aceitou-se também como parceiro de um projeto de hegemonia. Nesse projeto, há uma ideologia que não consegue se conter. Ela se dedica a superpor o mercado ao Estado, o econômico ao político, o especulativo ao produtivo. A difundir uma imagem de sociedade como um território de consumidores felizes refratários a qualquer reciprocidade. Nessa sociedade, não haveria necessidade de oposição; bastariam algumas oposições dóceis, construtivas, distantes da contestação sistêmica e de tudo que se aproxime do radical, do ideológico, do utópico. Os cidadãos deveriam permanecer colados à sua imediaticidade, aos seus direitos de consumidor, despojando-se de futuro. A política, por sua vez, estaria neutralizada pelo econômico, esvaziada como terreno de luta por idéias e projetos.

O establishment não tem poupado esforços para viabilizar essa estratégia de dominação. A social-democracia do PSDB foi engolida por uma coalizão governante pragmaticamente desenhada. O próprio Presidente parece ter sido obrigado a recolher seu passado de combatividade. Pragmatizou-se ele também. O establishment passou a deslegitimar o ser de oposição, dizendo basicamente que ser contra o governo era facilitar a volta dos tempos ruins, era ser contra o País, contra a estabilidade, contra as reformas que nos trarão a nova sociedade de amanhã.

O establishment, por isso, passou a atribuir ao governo o papel de única verdade e única certeza, algo quase etéreo, posto que incapaz de se equivocar: os problemas nacionais jamais derivariam de erros de orientação governamental, mas seriam impostos ou pela crise externa ou pela cegueira dos que são "contra".

Nesse contexto, a oposição democrática não teve como viabilizar um projeto alternativo de hegemonia, quem sabe mantendo viva (e devidamente requalificada) a perspectiva unitária que lhe dera vitalidade nos anos de luta contra o regime militar. Foi-lhe roubada a alma: a aposta nas possibilidades da política como algo mais forte do que a satisfação de interesses materiais específicos ou a contraposição pontual aos governantes. Foi-lhe roubada a hipótese da política como projeto. Com isso, o establishment deixou de ser contestado prática e teoricamente.

Esse clima de ameaça, que mobiliza poderosos recursos de poder, não ajuda a oposição democrática a se adaptar à globalização e fazer frente à nova moral coletiva em constituição. Bloqueia, assim, ao menos no momento, a possibilidade de que se encontre a brecha por onde aproveitar as condições favoráveis que inegavelmente existem e construir as bases de um outro futuro.