Dilemas da esquerda pós-comunista

Raimundo Santos





Até estas eleições presidenciais, a morte do PCB e a ascensão do PT nos espaços públicos pareciam processos que não se comunicavam: enquanto o partido de Lula durante os anos 80 avançara com dificuldades rumo à política, a "velha" esquerda iria viver o drama de não ter mais como expressar a sua obsessão pela política, obsessão assaz útil na hora de grande descrédito desta última, durante os anos de chumbo.

Enquanto em 1989, no Leste europeu, o socialismo perdia a sua aura demiúrgica, aqui o nosso "1989" vai ser o ano da inesperada conversão da política vitoriosa de frente única -- na eleição de Tancredo -- na tese da candidatura própria, para fins identitários e inclusive como versão rupturista das eleições -- quase todo o centro político e metade do centro-esquerda afastando-se da esquerda. Sem que, desde então, houvesse defesa clara da cultura do frentismo reformista da tradição. Em 1994, em algumas áreas, se chegou a entender aquela evolução das esquerdas para a política de frente de esquerda até mesmo como algo natural à ordem das novas coisas neoliberais.

Subproduto do Consenso de Washington, estruturado do centro para a direita, estava excluída qualquer convergência com o governo FHC, nas reformas ou em qualquer outra empresa, como a reforma agrária. Não por acaso, os últimos quatro anos foram de inegável defensismo; o próprio governo sem maior autonomia em relação aos seus aliados incômodos, a oposição, estranhada do centro, contraposta a importantes setores da social-democracia brasileira de dentro e de fora do governo.

Como um novo tempo, há um ano atrás, as eleições de 98 começaram sob a bandeira de um projeto de centro-esquerda, animado por partidos, lideranças e personalidades que expressavam pluralidade e energias capazes de retomarem a transição democrática -- interrompida com a eleição de Collor --, reposta agora como "nossa" intervenção no curso inexorável da incorporação do país à globalização. Parecia, então, que se rumava para uma concertação multipartidária, chamada a remover, após a vitória eleitoral da frente única, os traços neoliberais do governo FHC e a interpelar a estabilidade econômica desde o ângulo da tradição do nosso melhor republicanismo, do politicismo da estratégia democrática do pós-64 à MDB, e da urgência da incorporação social, simbolizada no PT, no MST e sindicatos.

Houve várias movimentações nessa direção. As três candidaturas do PMDB, especialmente a de Itamar, evocando o seu "governo político" de composição, e a hipótese da candidatura suprapartidária de Sepúlveda Pertence, no estilo da Oliveira italiana, aqui sob liderança do PT, pareciam sinais de que estava em curso um aggiornamento de "frente única" como campo de intervenção política mobilizada para "governar" o mundialismo que chegava ao país. Mais adiante, o processo se reiniciou com a candidatura Ciro Gomes, concebida no PPS como uma operação destinada a repensar o Real como conquista pública e, sobretudo, para trazer de volta o tema do centro político. À época, Arraes, Erundina, Buaiz também foram incisivos em chamar a atenção para a importância de um entendimento da esquerda com o centro.

O que houve, então, de lá para cá? Fernando Henrique consolidou uma aliança ainda mais larga, enquanto a política de frente ampla saiu da cena das articulações dos poucos e pequenos partidos que se coligaram com o PT. Como em 89 e em 94, novamente em 98 se impôs a via da polarização. Como da outra vez, virtude para uns; segundo outros, decorrência de faits accomplis que explicavam a inviabilidade da frente ampla como algo "objetivo", vale dizer, "idéia fora de lugar", não havendo mais mundo a inventar, além da tensão das próprias forças militantes e do apelo ao protesto e à denúncia da devastação neoliberal -- demasiado evidente e dramática.

Em cada momento, se esperou por derradeiros fatos -- no PMDB, a teimosa resistência à adesão, a perda da contigüidade ao centro que Ciro Gomes tinha à hora da dissidência e, sobremaneira, a controvérsia latente no PT. Quem sabe, do "espírito dessas coisas", do sentido pragmático e político do voto em FHC, do realinhamento de forças em nível regional no segundo turno -- em especial o PMDB, que se elege em Minas, Pernambuco e provavelmente no Rio Grande do Sul; o PT em Brasília; o PSDB de Covas; a coligação à volta de Garotinho, etc. -- ainda sobrevém um pequeno, crescente, mas verdadeiro "1989", fator novo que traga de volta o tema da concentração democrática como valor identitário da chamada nova formação política, tema recorrente nos vários lances destas eleições.

Se agora a palavra está com o PT -- que passou da ampla coligação, pensada no começo da eleição, para a tese da frente de esquerda --, a indagação que se impõe é saber para onde apontam as movimentações tipo "novo partido", "federação de esquerdas", fusão, etc. Para que serviria um processo de recriação da esquerda, se não for para valorizar a eficácia da política como na chave gramsciana da previsão e criação, isto é, no nosso caso, como política geral de frente única?

Sempre resulta proveitoso interpelar a tradição. No velho PCB, a valorização do frentismo pluriclassista reformador assumiu feição de cultura política, forjada a partir das inúmeras frentes -- antifascista, queremista; antigolpista no pós-54 e nos anos JK e Jango; antiditatorial no pós-64, e outras menores. Nos tempos mais contemporâneos, a frente única, muito mais do que um recurso tático, foi defendida por ser interface de uma (custosa) elaboração de uma "imagem de Brasil", usando o termo de um isebiano de 1952. Buscada pelos comunistas para balizar a práxis, ela sempre fora um exercício de "sociologia filosófica". Também é bom lembrar o que a bibliografia sempre*criticou no PCB, ou seja, para se inspirar, o PCB sempre recolheu influxos de uma tradição: mundo e política trazidos para cá como um campo intelectual, o qual, com o tempo foi se diferenciando, como se sabe, do marxismo-leninismo, passando pelo marxismo ocidental, até Gramsci e a cultura política democrática do PCI. No MDB, onde o PCB esteve sem reticências, a valorização da política consistiu numa espécie de ofício da política de composição de interesses em chave geral e na capacidade de extrair das instituições e dos valores a iniciativa da política e transformá-la em opinião e cena públicas. No caso daqueles comunistas, a sua experiência intrapartidária consistiu num caminho de pedras para sedimentar a idéia de frente única e de democracia política como valores políticos permanentes, tanto para manobrar no cotidiano quanto para o cálculo estratégico; no outro caso, o da frente democrática MDB, um laboratório para tornar o centro político "bem político": locus de governabilidade democrática e negociação reformista, como se viu no início da transição dos anos 80; de reanimação da política quando se pensava quase nula a sua utilidade nos anos de chumbo -- dimensões da política trazidas de volta pela lembrança da tradição, decisivas nesta hora mercantil e de desalento.

A questão, guardados os contextos a que se referem os ensaios que compõem esta coletânea, é questão recorrente como a nossa: o que impede as esquerdas brasileiras de terem o centro-esquerda como programa político? É disto que fala esta coletânea. No que se refere ao presente texto -- apenas um comentário bibliográfico --, espera-se que as linhas abaixo dêem conta de apresentar os principais dilemas apontados por Habermas no seu ensaio sobre as conseqüências intelectuais de "1989" na esquerda européia, supondo-os altamente emblemáticos dos desafios também postos diante da esquerda brasileira. O leitor verá por si mesmo nos artigos propriamente ditos quanto todos ainda somos parte do antigo e clássico universalismo da esquerda, como lembra Massimo D'Alema em seu texto, traduzido e publicado neste volume.

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Esta é a introdução de uma análise do ensaio "A revolução e a necessidade de revisão na esquerda -- o que significa o socialismo hoje?", escrito por J. Habermas após a queda do Muro de Berlim. Juntamente com ensaios de Massimo D'Alema, Luiz Werneck Vianna, Roberto Freire, Salomão Malina e outros, o texto de Raimundo Santos compõe a coletânea A esquerda e uma nova formação política, recém-editada pelo Instituto Astrojildo Pereira e pelo grupo de pesquisas "Intelectuais e Cultura Política"/CPDA-UFRRJ. E-mail:cpda@ax.ibase.org.br