A hora da virtù

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
São Paulo, 17 out. 1998, p. 2




Foi o deputado José Genoíno (PT-SP) quem observou que as eleições deixaram claro que existe no Brasil um espaço bastante pronunciado para a afirmação de uma alternativa de esquerda com posições reformadoras. As oposições (e no interior delas, o PT) cresceram politicamente em escala nacional. Acumularam votos, ganharam cadeiras e deram uma demonstração inequívoca de que têm potencial para se antepor ao projeto hoje vitorioso no País. A despeito de não ter sido suficiente para fazer o governo perder apoio parlamentar, tal ascensão mostrou que o segundo mandato FHC será mais tenso e complicado.

Esse o fato que efetivamente pesa na conjuntura pós-eleitoral, não a descoberta de que o eleitorado foi manipulado e coagido (coisa que de resto aconteceu). A massa de votos e a força política adquirida pelas posições contrárias ao governo mostraram que não há ameaças que possam se impor com facilidade sobre um eleitorado que, por ser flutuante e «virtual», não segue fielmente nenhuma orientação, muda de opinião a todo momento, esconde-se até das pesquisas.

Fechadas as urnas, abriu-se nova oportunidade para as oposições: o segundo turno. De algum modo, em todas as novas disputas estaduais estará sendo julgado o governo federal, com suas alianças e suas opções programáticas. E isso porque o governo FHC conseguiu se impor sobre a federação, incomodando-a e condicionando-a em seu conjunto. Em todos os cantos respiram-se as conseqüências das decisões tomadas em Brasília. Como a base governista é larga e variegada, em todos os estados pulsa um embate com o governo federal. E como a esquerda, em particular, esparramou-se pelo País, não há lugar em que ela não se faça presente.

O caso mais interessante é o de São Paulo, onde o êxito de Marta Suplicy deu ao PT a possibilidade de operar, no segundo turno, como verdadeiro fiel da balança. Parece improvável que Covas consiga vencer sem os votos petistas. As chances de um sucesso malufista, por outro lado, crescem na proporção em que se neutraliza o PT.

Disso deriva uma interrogação: não teríamos em São Paulo uma situação perfeita para que se desenhe uma aliança de esquerda democrática capacitada tanto para isolar a centro-direita e vencer o páreo eleitoral, quanto para enfiar uma cunha na política nacional, com a qual seja possível forçar o governo FHC a se descolar de seus compromissos mais problemáticos e abraçar causas efetivamente populares?

No plano lógico, a hipótese é plausível. Mas na lógica viva da política as coisas se passam de outro modo. Para que tal aliança se viabilizasse, seriam necessários dois movimentos complicados, ambos virtuosos. Por um lado, o PSDB paulista teria de recuperar, das dobras mais recônditas de sua trajetória, uma energia de esquerda que parece adormecida. Teria, digamos, de refundar seu programa de governo de modo a abrigar teses voltadas para a justiça social e a aposentar as teses fiscal-tributárias com que se tem apresentado enquanto governo. Por outro lado, o PT teria de resolver uma equação que o atormenta desde o berço: abraçar uma política de alianças corajosa, pondo-se como partido capaz de governar junto com forças que são «diferentes» dele.

O primeiro movimento é difícil, no quadro atual. Afinal, o governo Covas construiu sua imagem precisamente a partir da idéia de que é competente para promover ajustes, não para praticar políticas sociais arrojadas ou atirar-se com determinação no campo das lutas democráticas. O eleitorado aceitou parcialmente essa imagem, sufragando-o com uma certa generosidade. Como abandonar a rota agora? Já o segundo movimento mostra-se mais simples, dado o teor da campanha de Marta Suplicy, que não foi tipicamente de esquerda e apareceu com uma moldura moderada, dedicada a mostrar um potencial construtivo, um olhar diferente, um outro estilo de governar. Tal fato, se tratado com uma boa dose de virtù maquiaveliana pelos dirigentes do PT, a credencia para propor uma audaciosa política para o segundo turno. Mas, se der esse passo, será acompanhada pela máquina partidária?

O segundo turno não será resolvido, em São Paulo, só com base na remontagem de uma frente contra a «direita malufista». Tal frente será tentada e até se justifica. Mas não bastará para definir o sentido dos votos. Talvez a satanização de Maluf já não cale mais fundo no eleitorado. E os paulistas não parecem dispostos a sufragar a situação apenas para evitar riscos de retrocessos. Querem coisas mais novas e mais claramente definidas em relação a um outro futuro.