O que o Brasil fez das idéias de Marx?

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
São Paulo,
24 out. 1998














O marxismo ainda tem algo a dizer para este mundo que, de tanto mudar, parece ter usurpado o conceito de revolução da teoria que o introduziu no léxico da política moderna? E, se tem, como indicam a lógica e toda uma série de evidências, qual marxismo mostra-se hoje gabaritado para manter-se em sintonia com a realidade? Particularmente no Brasil, o que podemos esperar da elaboração marxista e em que condições encontra-se ela hoje, nesse momento emblemático da vida nacional?

O debate dessas questões, tão antigo quanto o próprio marxismo, mostra-se como um esforço intelectual que se desdobra em um diálogo com a história. É na busca de compreensão dos nexos constitutivos da história das sociedades e das grandes forças e tendências que movem o mundo, que podemos encontrar os elementos para avaliar não só o vigor teórico das idéias de Marx e a sua capacidade de se renovar com o tempo, como sobretudo a sua capacidade de interferir na modelagem dos modos de ser, pensar e sentir de muitos indivíduos e grupos sociais.

No mínimo por isso, deve-se acolher com seriedade o lançamento do terceiro volume de História do Marxismo no Brasil (Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1998, 382 páginas), empreendimento coletivo de um grupo de pesquisadores coordenado por João Quartim de Moraes, professor de filosofia na Unicamp. Seguindo a trilha aberta pelos dois volumes iniciais da série, publicados alguns anos atrás, deseja-se interrogar a história da teoria e a história nacional para saber qual marxismo assimilamos, o que fizemos teoricamente com ele e que atitudes práticas adotamos em seu nome.

Na primeira parte do volume, dois textos estudam a influência que entre nós tiveram as idéias do francês Louis Althusser e do italiano Antonio Gramsci.

Althusser foi um aplicado leitor de Marx e balizou muito do debate marxista dos anos 70. Suas categorias persistiriam como referência nas décadas posteriores, sendo em boa medida incorporadas ao marxismo mais acadêmico que se pratica no país, como demonstra Décio Saes. Já Gramsci, protagonista central da mais bem acabada tentativa de renovar o marxismo, tem outra trajetória, mais sinuosa e carregada de conseqüências. Introduzido no Brasil às vésperas do endurecimento político de 1968, numa iniciativa pioneira de um grupo de marxistas cariocas e da Editora Civilização Brasileira, Gramsci viveu uma primeira fase quase no ostracismo. Mais tarde, com a abertura e a movimentação eurocomunista, reaparecerá com impressionante vitalidade, ao ponto de ter seus conceitos transformados em patrimônio comum das ciências humanas. Aos poucos, sua perspectiva passará a se fazer sentir em diversas correntes da esquerda. Como podemos ler no texto de Carlos Nelson Coutinho, desde então Gramsci não saiu mais da cena política e intelectual brasileira.

Mas a maior parte do volume dedica-se a analisar as interpretações do Brasil sugeridas pelo marxismo. A pesquisa depara-se aqui com alguns caminhos obrigatórios. Impossível, por um lado, avançar sem entender os nexos entre política e cultura, vistos tanto do ângulo das relações entre marxismo e intelectuais, quanto do ângulo da política cultural dos comunistas. É o trabalho a que se propõem Caio Navarro de Toledo, Celso Frederico e Antonio Albino Canelas Rubim. Por outro lado, como traçar a história do marxismo no Brasil sem decifrar a história do PCB, principal força da esquerda histórica e maior responsável pela difusão das idéias marxistas entre nós?

Nesse ponto o volume encontra seu ponto de inflexão. Partindo do suposto de que é expressiva a contribuição dos marxistas para a teoria e a prática da democracia entre nós, João Quartim de Moraes procura investigar as concepções que os comunistas tiveram do Brasil democrático entre o fim do Estado Novo (1944-45) e o suicídio de Vargas (1954), período no qual o PCB emerge das prisões, empenha-se pela democratização, é empurrado novamente para a ilegalidade e mergulha num ciclo de orientação sectária e esquerdista que o afastará por alguns anos da vida política nacional. Mesmo com tal trajetória, os comunistas não deixarão de acumular forças seja para voltar a influenciar a esquerda a partir do final dos anos cinqüenta, seja para pautar o debate teórico-político a respeito da democracia, da natureza do sociedade capitalista brasileira, do programa da sua transformação socialista. Tratou-se de uma trajetória atravessada por uma forte tensão entre o "pensado" (a teoria, a orientação partidária, a cultura revolucionária) e o "praticado" (a conduta efetiva dos militantes, a operosidade política), fato que, ao lado de uma longa história de repressão e clandestinidade, condicionou o próprio modo de ser do PCB, cuja influência política sempre foi maior do que o fôlego organizacional do partido.

A história do PCB e do diálogo com o PCB responde pela cristalização, na cena cultural brasileira, de um sem-número de questões teóricas de inegável relevo, pertinentes às articulações entre democracia e economia, às relações com o imperialismo, ao problema das alianças de classe, do latifúndio e do trabalhador rural. No texto de Carlos Alberto Dória, podemos encontrar elementos para examinar uma delas: a da dualidade estrutural de nossa formação social, lida pelos comunistas como oposição feudalismo/capitalismo e como base para a definição das "etapas" a serem seguidas pela revolução brasileira. Um debate que envolveu nomes do quilate de Nelson Werneck Sodré, Alberto Passos Guimarães e Caio Prado Jr., impregnou a visão acadêmica a respeito do Brasil e funcionou como leitmotiv para muitos que iriam se opor, a partir dos anos 60, às orientações do PCB. Afinal, se podemos encontrar na tese comunista da "feudalidade" uma concessão certamente problemática ao dogmatismo e um sinal eloqüente de que se pensava o processo revolucionário por meio de reformas sucessivas, podemos também encontrar, na negação dessa tese, o instrumento de animação de uma crítica esquerdista que via, no descarte do "feudalismo", o portão de entrada para a imediata abolição do capitalismo, objetivo final da "verdadeira" revolução. Bem pesadas as coisas, do coração do embate emergiria não apenas um problema teórico, mas também (e sobretudo) uma questão política, referida aos ritmos, aos procedimentos e aos compromissos que viabilizariam a transformação social do país.

O terceiro volume de História do marxismo no Brasil integra uma linha de pesquisa ainda em curso de materialização. Ao final do processo, teremos um bom espelho para conhecer melhor as vicissitudes do marxismo praticado deste lado do mundo — ajudando a que acertemos as contas com uma doutrina que seguramente tem uma história e merece receber a atenção cuidadosa da crítica.