A pauta unitária

Marco Aurélio Nogueira






O justo entusiasmo que se seguiu à avaliação política dos resultados das eleições gerou, nas áreas de esquerda, uma generalizada pregação em favor da unidade. De Brizola a José Genoíno, de Olivio Dutra a Luiza Erundina, de Roberto Freire a Lula, todos reconheceram que muito do futuro do país depende da capacidade que tiver a esquerda de preservar e aprofundar a união esboçada nas eleições, sobretudo no segundo turno, quando, por meio de apoios recíprocos mais ou menos explícitos, as forças de perfil socialista conseguiram viabilizar avanços importantes, ajudando a isolar próceres da direita, a aposentar expressões do velho fisiologismo ou a complicar articulações oficiais.

A unidade já teve seus dias de glória no Brasil. Foi durante a luta contra as ditaduras de nossa história: a do Estado Novo e sobretudo a derivada do golpe militar de 1964. A idéia histórica da unidade, porém, tal como veiculada pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), por exemplo, não se esgotava no campo da esquerda e objetivava contribuir para que socialistas, nacionalistas e democratas liberais encontrassem pontos de interlocução que viabilizassem um trabalho conjunto em prol do desenvolvimento, da justiça social, da soberania nacional e da democracia.

A unidade de que se fala hoje não é mais essa. O discurso passou a privilegiar a união das esquerdas, incorporando a elas, eventualmente, alguns representantes oposicionistas de outra tradição, cujos recursos de poder fazem com que possam ser vistos como parceiros estratégicos no jogo político nacional. E por que? Por que mudou a agenda do País ou porque são outros os objetivos da esquerda? Por que se alterou a realidade nacional ou por que já não se achem mais liberais dispostos a caminhar de braços dados com os socialistas, ajudando-os, sincera e conscientemente, a plantar as bases de uma sociedade mais justa, e sendo por eles ajudados, ao mesmo tempo, a manter vivos os valores da liberdade e do indivíduo? As perguntas poderiam se suceder.

Seja como for, a pregação unitária não pode ser menosprezada. Ela deixa evidente, por um lado, que alianças e uniões continuam de pé como critérios de orientação para a ação política de esquerda. Por outro lado, denuncia uma maior sensibilidade para com a idéia de que os desafios brasileiros não podem ser superados a partir de posições solitárias que se arvorem uma autenticidade que mais ninguém teria. São desafios que se colaram à estrutura da sociedade, que serão vencidos no longo prazo e que não podem dispensar nem a mais férrea combatividade nem a cooperação generosa de um amplo leque de correntes políticas.

Seja numa versão mais «clássica», tipo frente democrática, seja numa versão mais radicalizada, tipo «frente de esquerda», a idéia de unidade não terá como progredir se não partir do reconhecimento das condições reais em que se atua e se não tiver bem estabelecida a meta a ser buscada, bem como os caminhos a serem trilhados. Em torno de qual eixo deverá girar a união? Da oposição ao governo FHC ou da defesa de um novo programa para o País? Com a objetivo de preparar candidaturas poderosas para as próximas eleições municipais e gerais ou de inviabilizar os projetos e propostas do governo atual?

Nesse sentido, alguns pontos não poderão deixar de ser considerados com atenção. 1) Hoje não existem ditaduras no País. Os governos são democráticos e muitos deles estão cortados por composições complexas, das quais participam forças e personalidades progressistas. 2) Os partidos e correntes de esquerda ganharam grande diversidade. Até mesmo porque conheceram uma profunda crise de identidade, estão hoje firmemente necessitados do encontro de novas identidades. 3) Em decorrência, qualquer proposta de unidade só terá valor se servir para enriquecer aqueles que se deseja unir, ajudando-os a fixar as identidades singulares de que tanto precisam.

Mas não se pode operar nesse campo apenas com princípios abstratos. A unidade será tanto mais bem-sucedida quanto mais souber produzir fendas nas bases da dominação hoje existente, criando as condições para que seus componentes se atritem e para que as alas mais avançadas do governismo encontrem estímulo e condições concretas para se separar das alas menos democráticas e reunir-se à esquerda. As chances de êxito, além do mais, dependem de clareza programática: como se pensa o País e o que se imagina adequado para a preparação de um novo futuro. Uma unidade como mera resistência ao governo, como um empenho agregador desprovido de substância e de identidades consistentes, seguramente não será de grande serventia nem terá vida longa.