Por que Gramsci na América Latina?

José Aricó
















Um fato significativo que se observou no Colóquio de Ferrara, de outubro de 1985, foi a existência de uma certa assincronia do debate político e intelectual em torno de Gramsci na América Latina em relação à sua região de origem. A fortuna que o autor dos Cadernos alcançou em nosso continente, desde a década de setenta e fundamentalmente na década de oitenta, não parecia ter correspondência com o declínio de sua presença em seu próprio país. Frente ao inegável refluxo de sua gravitação nos meios intelectuais italianos, ocorria em nosso continente um fenômeno que talvez seja comparável com o que se está produzindo em países como a República Federal Alemã em relação ao reexame da cultura social-democrática, ou nos Estados Unidos frente aos desenvolvimentos da vida intelectual naquele país (1). Desde meados da década de setenta em diante, o conhecimento da obra de Gramsci progrediu de maneira constante e significativa entre os intelectuais e cientistas sociais não apenas da área de língua espanhola, como também portuguesa. Uma série de conceitos próprios da elaboração gramsciana, mesmo aqueles mais complexos e específicos como o de bloco histórico, revolução passiva, guerra de posição, guerra de movimento, reforma intelectual e moral, etc., generalizaram-se de maneira tal que se transformaram em algo próprio, uma espécie de "sentido comum", não apenas do discurso mais estritamente intelectual, mas também do discurso político da esquerda -- ainda que não somente desta.
A circulação dos seus escritos e a incorporação de suas idéias percorreu, contudo, caminhos singulares, com prolongados períodos de clandestinidade -- como na Argentina, na época da ditadura militar --, mas com repercussões notáveis naqueles lugares onde situações externas à sua capacidade de circulação deixaram de ter efeitos. A conquista da democracia na Argentina permitiu redescobri-lo, da mesma forma que, anos antes, a transição democrática no Brasil expandiu consideravelmente sua difusão. No México, a presença do pensamento de Gramsci nos centros de estudos e de investigação, bem como nas organizações políticas de esquerda, é muito forte, conseguindo deslocar algumas correntes do marxismo que alcançaram, em seu tempo, uma expansão desconhecida em outras partes
Um simples olhar sobre a imponente quantidade de trabalhos e publicações referidos à problemática latino-americana em todos os seus aspectos, desde aqueles históricos até os mais estritamente culturais, dá conta da presença que assinalamos e da difundida utilização dos instrumentos conceituais que Gramsci colocou em circulação para analisar velhas e novas dimensões da realidade de países colocados frente à disjuntiva de encarar profundas transformações para superar suas crises e possibilitar a abertura para sociedades mais justas. Desta perspectiva e com as pontuações que neste caso, como em qualquer outro, devem sempre ser feitas, pode-se afirmar que as formulações de Gramsci fazem parte da nossa cultura e constituem um patrimônio comum de todas aquelas correntes de pensamento democráticas e reformadoras do continente. Todos somos, em certo sentido, tributários do seu pensamento, ainda que alguns não o sejam ou não estejam dispostos a reconhecê-lo. E se há razões para pensar que as incertezas nas quais se debatem as correntes de esquerda colocam em questão a atualidade de tais formulações, torna-se difícil acreditar também que as respostas às novas perguntas da sociedade possam encontrar-se mais aquém e não mais além do seu pensamento.
Quais foram as razões de tal expansão e em torno de que eixos problemáticos o pensamento de Gramsci foi incorporado como um instrumental eficaz para examiná-los a partir de novas perspectivas analíticas? Diante de quais demandas da realidade, as formulações dos Cadernos do Cárcere, que começaram e continuam a ser publicadas, demonstraram estar aptas para admitir traduções até mesmo pontuais? Para esboçar um quadro de conjunto, mas que retenha ao mesmo tempo as diferenças temáticas e as formas distintas de assimilação que se efetivaram nas diversas áreas nacionais, ou mesmo regionais, como a América Central, é preciso recordar o contexto político e intelectual em que foram produzidas. A difusão de suas idéias ocorre na América Latina no bojo de dois momentos históricos diferentes, divididos, como estiveram, pela derrota da ilusões revolucionárias que o "outubro cubano" (2) despertou no continente. No início da década de setenta, a onda expansiva da Revolução Cubana já se havia consumado e uma torrente de golpes militares modificou a face de um continente erodido pela violência armada e pela contra-revolução. Nesta situação -- e de modo que não podia ser senão contraditório --, as idéias de Gramsci contribuíram, primeiro, para alimentar projetos radicais de transformação, para depois possibilitar, e rapidamente, reflexões mais críticas e realistas sobre as razões de uma trágica desventura.
Como é lógico, num e noutro momento, as inflexões foram distintas, como distinto também foi o lugar que lhe foi atribuído no interior de uma tradição de pensamento que havia estruturado, a partir da Revolução Russa e daí em diante, a matriz essencial da cultura de esquerda. Se na década de sessenta e início da de setenta, os "anos de Cuba", para utilizar uma expressão sintética porém acertada, o Gramsci que se incorpora adentra por inteiro na história do leninismo americano, na nova etapa que se inicia a partir da decomposição dos regimes autoritários, Gramsci, enquanto marxista, aparece como irredutível ao leninismo, ainda que o pressuponha e se nutra de sua substância. Esta foi uma convicção compartilhada pela maior parte das intervenções no seminário de Morelia, de fevereiro de 1980, que girou fundamentalmente em torno da validade teórica e política do conceito gramsciano de hegemonia para analisar os problemas decorrentes das transformações na América Latina. Ao resumir as conclusões daquele riquíssimo debate de idéias, me permiti expressar da seguinte forma o que, sem dúvida, foi um dos resultados do seminário:
"O conceito gramsciano de hegemonia, aquilo que [...] o transforma num ponto de ruptura de toda elaboração marxista que o precedeu, baseia-se no fato de que se postula como uma superação da noção leninista de aliança de classes, na medida em que privilegia a constituição de sujeitos sociais através da absorção e deslocamento de posições que Gramsci define como 'econômico-corporativas' e, portanto, incapazes de se tornar 'Estado'. Assim entendida, a hegemonia é um processo de constituição dos próprios agentes sociais em seu processo de tornar-se Estado, ou seja, força hegemônica. De tal maneira, ao assimilarmos as categorias gramscianas como as de 'formação de uma vontade nacional-popular' e de 'reforma intelectual e moral' -- e tudo o que elas implicam, para além do terreno histórico-concreto em que emergiram --, o processo de configuração da hegemonia aparece como um movimento que diz respeito, sobretudo, à construção social da realidade e que se conclui recompondo de maneira inédita os próprios sujeitos sociais" (3).
Admitindo-se estas considerações, não se pode deixar de aceitar as conclusões que dela derivam e que distinguem nitidamente o pensamento de Gramsci de um dos filões culturais que contribuiu para construí-lo, por mais importante que este tenha sido em sua formação intelectual e política. Não se pode negar que o conceito de hegemonia pressupõe o conceito leniniano de aliança de classes. Se nos recusarmos a admitir que por trás de Gramsci está Lenin, cometeríamos um pecado de anacronismo histórico e nos impediríamos de compreender até que ponto seu pensamento atravessa as formulações e a experiência da Terceira Internacional. Porém, quando em meu texto insistia na irredutibilidade de Gramsci à matriz leninista, simplesmente queria lembrar que de tal nexo não se poderia deduzir uma filiação genérica que mutilaria os elementos de novidade do seu pensamento. E, por essa razão, assinalava que "diante de Gramsci é preciso realizar uma leitura que coloque no devido lugar (e este já é todo um problema não apenas hermenêutico mas também ideológico-político) a inegável relação que suas reflexões mantêm com a experiência mutilada de implementação de um projeto hegemônico revolucionário como foi o iniciado pela Revolução de Outubro". Porque, se é verdade que a discussão sobre os parâmetros fundamentais em torno dos quais se elaborou o leninismo, como uma leitura fortemente politizada do marxismo da Segunda Internacional, e a proximidade ou a distância que frente a ele manteve Gramsci, tem uma importância teórica geral, para o caso da América Latina adquire uma relevância particular no sentido de poder dar conta de processos específicos de vinculação entre a teoria e a prática. Não é necessário insistir muito sobre o relativo estranhamento do debate marxista em relação à problemática concreta do movimento operário do nosso continente. Mesmo nos casos, certamente bastante isolados, em que existiu uma vinculação mais ou menos estreita entre o mundo dos trabalhadores e o referente teórico marxista, nunca a relação adquiriu características próximas à constelação das formas européias. Nem a extensão e densidade histórica do proletariado foi comparável, nem seu horizonte ideal tendeu a reconhecer o socialismo, mais ou menos impregnado de marxismo, como uma expressão política própria.
A partir desta constatação, torna-se necessário confrontar as diferenciadas realidades latino-americanas com aqueles paradigmas teóricos e políticos que, para poderem ser utilizados, requerem "traduções" menos pontuais e infinitamente mais cautelosas. E, no sentido gramsciano, utilizo o conceito de "tradutibilidade" das linguagens, referindo-me à possibilidade de algumas experiências históricas, políticas e sociais, encontrarem uma equivalência em outras realidades (4). Se a tradutibilidade supõe que uma fase determinada da civilização tenha uma expressão cultural "fundamentalmente" idêntica, ainda que a linguagem seja historicamente distinta na medida em que está determinada por tradições específicas de cada cultura nacional e tudo o que dela se depreende, Gramsci podia ser traduzido em chave latino-americana se fosse possível estabelecer algum tipo de similitude ou sintonia histórico-cultural entre seu mundo e o nosso. E não é casual que a primeira obra significativa sobre o pensamento de Gramsci escrita por um latino-americano tenha se proposto a tarefa de encontrar nele uma chave de leitura que permitiria encontrar sua eficácia no fato de que "podia ser expresso nas linguagens das situações concretas particulares". Refiro-me ao livro de Portantiero, Los Usos de Gramsci, e em particular a sua intervenção no colóquio do México, de setembro de 1978 (5), dedicada especialmente a este tema. Anos antes havia sido publicada a edição científica dos Cadernos do Cárcere que permitiu descobrir questões até então desconsideradas e vinculadas à reconsideração do significado dos processos de revoluções passivas dos anos 30. A fortuna de Gramsci na Europa da década de setenta assentava-se na convicção compartilhada de que era um teórico -- o maior marxista ocidental deste século, como o definiu Hobsbawm -- da revolução no Ocidente, quer dizer, nos países de capitalismo avançado. Redescobria-se em Gramsci sua perspicácia para analisar situações de transição em sociedades de capitalismo maduro ou avançado e através desta finalidade prestou-se a inúmeras interpretações, que deram lugar a novos esclarecimentos acerca de seus apontamentos sobre americanismo e fordismo e, de forma mais geral, sobre a categoria de "revolução passiva".
Portantiero se perguntava se esta não era uma leitura, em parte, redutiva, como haviam sido outras; pois, se nos prendêssemos estritamente a ela, estaríamos vedando a possibilidade de recolher uma mensagem teórica e política que ele suspeitava ser de suma utilidade para nós. "Ocorre-me -- afirmava -- que o uso das categorias gramscianas de análise aparece como absolutamente pertinente para nós", e mais ainda, "boa parte do arsenal teórico-gramsciano é diretamente pertinente" na análise das sociedades latino-americanas. No seu entendimento, e recuperando uma observação de Colletti, a obra de Gramsci consistia, na verdade, "num estudo sociológico sobre a sociedade italiana, quer dizer, sobre uma sociedade típica do 'capitalismo tardio' no sentido que Gerschenkron dá à expressão. Uma sociedade complexa, mas desarticulada, atravessada por uma profunda crise estatal, no seu sentido integral, marcada por um desenvolvimento econômico desigual e sobre a qual o fascismo, a partir de uma derrota catastrófica do movimento operário e popular, tentou reconstruir, via Estado, a unidade das classes dominantes e desagregar a vontade política das classes populares, num movimento convergente com um processo de centralização do capitalismo que se operava na economia" (6).
Mas, se este era o terreno histórico-político sobre o qual se fundaram as reflexões de Gramsci, "elas estariam mais próximas de um certo tipo de sociedades latino-americanas atualmente vigentes do que das formações sociais do capitalismo contemporâneo mais avançado e maduro. Precisamente, são as características deste tipo de sociedade que lhe permitem repensar de maneira original o tipo de articulação entre sociedade e política, isto é, a forma do político, distinguindo-a do que seria a forma ideal típica do político no liberalismo representativo" (7). A delimitação de Gramsci como pensador do "Ocidente" tem sentido apenas com a condição de não convertê-lo em um eurocomunista avant la lettre e de admitir que suas reflexões são aplicáveis a situações que não são tipicamente ocidentais. Ele é, sobretudo, o pensador de uma época nova do capitalismo, caracterizada pela profundidade das mudanças morfológicas nas relações entre o Estado e a sociedade, que a crise da década de trinta desencadeia, mas que já estavam molecularmente em curso desde o final do século. Por isso suas notas sobre o americanismo, como a imanente necessidade do capitalismo moderno de alcançar a organização de uma economia programática, formam o pendant necessário da análise das diversas formas de resistência que este movimento de desenvolvimento gera, e que Gramsci define como processos de "revolução passiva" ou de "modernização conservadora", para utilizar a expressão de Barrington Moore. Como indica Portantiero, estas notas "são absolutamente pertinentes enquanto estímulo para se indagar a respeito das características dos fenômenos(...) através dos quais se realiza, também hoje, uma reorganização dos laços entre economia e política nos países de maior desenvolvimento relativo da América Latina" (8). Também entre nós, e com todas as diferenças resultantes de processos históricos particulares, se está operando um processo de recomposição capitalista, algo assim como uma terceira revolução burguesa descrita pelo brasileiro Florestan Fernandes, em uma obra notável que os leitores de língua espanhola ainda não descobriram (9). Sua característica distintiva está em ser um processo de transformação a partir de cima, de revolução pelo alto, que está, por suposto, nos antípodas da tão desejada revolução democrático-burguesa que os partidos comunistas latino-americanos instituíram como modelo teórico e político de transformação e que pretenderam levar à prática através de múltiplas combinações táticas desde o final da década de vinte.
As desventuras da esquerda latino-americana derivam do fato de que seus estritos paradigmas ideológicos a impediram de compreender a singularidade de um continente habitado por profundas e violentas lutas de classes, mas onde estas não foram os atores principais de sua história. Como recordou Touraine, "a nitidez das situações de classe não leva às práticas autônomas de classe. Mais profundamente, a análise das relações de classes está limitada pela de dependência". Os personagens principais da história latino-americana recente não parecem ser a burguesia nem o proletariado, nem tampouco os latifundiários e os camponeses dependentes. São, contudo, segundo o mesmo autor, o capital estrangeiro e o Estado (10). Entende-se, assim, por que o desenvolvimento de toda a sociologia latino-americana, desde a década de cinqüenta em diante, tenha partido da crítica da idéia de burguesia nacional, ou melhor, da crítica da teoria e da prática de uma esquerda que fez do modelo da revolução democrático-burguesa sua matriz ideológica fundante e seu ponto de referência indispensável para caracterizar a realidade. De tal modo que, entre ciência crítica da realidade e propostas políticas de transformação, abriu-se uma brecha que gerou conseqüências negativas para ambas as dimensões. A reflexão acadêmica ficou mutilada em sua capacidade de expandir-se para o mundo da política, ao mesmo tempo que uma canhestra e ancilosada reflexão política excluiu, de fato, o reconhecimento daqueles novos fenômenos tematizados pelos intelectuais. Parafraseando Marx, nem a crítica se exercia como arma, nem as armas necessitaram da crítica para encontrar um fundamento (11).
Constrangida por sua visão sociologizante -- que sempre colocava a estrutura de classes e as relações que daí emergiam num plano quase que excludente em relação aos demais --, a esquerda de tradição marxista se recusou a reconhecer e admitir a funcionalidade específica de um Estado que, na ausência de uma classe nacional, operava como uma espécie de Estado "puro", empurrando a sociedade para mudanças e fabricando, de cima, a classe dirigente. Onde se produziam metamorfoses profundas do capitalismo "dependente", a esquerda só podia descobrir desagregações catastróficas, prenúncios de colapsos que alimentavam seus impulsos jacobinos; não estava em condições de observar e de aproveitar em seu benefício os processos de modernização a que estiveram submetidas as sociedades latino-americanas a partir da crise de 1930. E é em torno das formas novas de articulação entre sociedade e Estado em países de industrialização tardia e "derradeira" (12), como Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, México e Uruguai, que o pensamento de Gramsci parece poder expressar-se em "línguas particulares" concretas, transformando-se, deste modo, num estímulo útil, num instrumento crítico capaz de dar conta das facetas mais complexas do real.
Gramsci já havia chamado a atenção, num dos seus últimos trabalhos redigidos antes de sua prisão, a respeito da situação particular de uma série de países que chamou de "Estados periféricos" (Itália, Polônia, Espanha, Portugal), em relação aos países europeus de capitalismo avançado, nos quais a articulação entre Estado e sociedade operava-se através da presença de um variadíssimo estrato de classes intermediárias "que querem, e em certa medida conseguem, levar uma política própria, com ideologias que, regra geral, influenciam vastos estratos do proletariado, mas que têm uma particular influência sobre as massas camponesas" (13). Na distinção entre as categorias de "Oriente" e "Ocidente", que Gramsci instaura nos Cadernos, fica evidente que ele coloca esta zona periférica no interior da segunda. Do ponto de vista das formas diferenciadas de articulação da sociedade com o Estado, a categoria, ou mais precisamente, a metáfora "Ocidente" é suficientemente ampla para incluir esta vasta área de países europeus de fronteira e, por que não, também aquelas sociedades latino-americanas onde mais avançou o processo de industrialização. Para estas sociedades, insiste Portantiero, o pensamento de Gramsci demonstra ser de extrema potencialidade analítica:
"Comparáreis por seu tipo de desenvolvimento, diferenciáveis como formações históricas 'irrepetíveis', estes países têm, ainda neste nível, traços comuns: essa América Latina não é 'Oriente', está claro, mas se aproxima muito do 'Ocidente' periférico e tardio. De uma forma ainda mais clara que nas sociedades deste segundo 'Ocidente', conformado na Europa no final do século XIX, na América Latina são o Estado e a política que modelam a sociedade. Mas um Estado -- e está aqui uma das determinações da dependência -- que, ainda que busque constituir a comunidade nacional, não alcança os graus de autonomia e soberania dos modelos 'bismarquianos' ou 'bonapartistas'. Todos os embates políticos do século XIX são embates entre grupos que, do ponto de vista econômico, encontram-se escassamente diferenciados e que aspiram o controle do aparelho de Estado para desenvolver, a partir dele a economia e produzir, com ele, uma estrutura de classes mais complexa" (14).
O processo de construção dos estados latino-americanos operou sobre este virtual vazio social, que nos casos dos países andinos e de população indígena foi obtido à custa da reprodução da relação colonizador-colonizado imposta pelos grandes impérios. Amparado pela força dos exércitos -- cuja casta militar, em conjunto com o clero, constituem essas categorias de intelectuais tradicionais fossilizadas na forma da mãe-pátria européia, segundo a caracterização que dela faz Gramsci --, criam-se os estados nacionais e, com estes, os espaços econômicos favoráveis à rápida penetração do capital estrangeiro. Desta maneira, configura-se a parceria daqueles que haverão de ser os personagens principais da vida social e política latino-americana, das suas origens às épocas mais recentes.

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Este texto é uma versão parcial do capítulo "Por que Gramsci en América Latina?", que compõe o livro La Cola del Diablo - el itinerário de Gramsci en América Latina, publicado por José Aricó em 1988, na Argentina por Editorial Punto Sur e na Venezulela por Editorial Nueva Sociedad. A publicação em português aparece com o título "O itinerário de Gramsci na América Latina", Estudos de Sociologia, n. 5, Unesp/Araraquara, 1998, p. 3-34. A tradução é de Alberto Aggio.
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Notas

(1) Ver Giuseppe Vacca, "La sinistra europea e il tema dell'egemogia", Rinascita/ Il Contemporaneo, "Gramsci nel mondo", n. 2, 28 fev. 1987, p. 17.
(2) Este é o título da belíssima crônica dos avatares da revolução cubana publicada por Saverio Tutino, a partir do seu contato direto com tal experiência, como correspondente de L'Unità em Havana: L'Ottobre Cubano. Lineamenti di una storia della rivoluzione castrista. Turim, Einaudi, 1968.
(3) José Aricó, "Prólogo". In VV.AA. Hegemonia y Alternativas Políticas en América Latina. Org. por Julio Labastida Martín del Campo. México, Siglo XXI, 1985, p. 14-5. Este livro reúne as comunicações apresentadas no Seminário de Morelia (Michoacán, México), dedicado especificamente à análise da funcionalidade metodológica e política do conceito de hegemonia.
(4) Sobre este tema ver o conjunto de notas reunidas sob o título de "Traducibilidad de los lenguajes científicos y filosóficos" que estão no Caderno 11 (1932-1933), ou seja, aquele dedicado fundamentalmente a refutar a interpretação mecanicista do marxismo feita por Bukharin em Teoría del materialismo histórico. Em espanhol, estes textos podem ser lidos na edição Era dos Cadernos do Cárcere (t. 4, p. 317-22), mas também em El materialismo histórico y la filosofia de Benedetto Croce, México, Juan Pablos, 1975, p. 71-9. Gramsci refere-se, em inúmeras partes dos seus Cadernos e dos seus escritos anteriores à prisão, a este problema, frente ao qual sua condição de sardo de nascimento e filósofo de formação o tornava particularmente sensível. Não deixa de ser surpreendente que estas reflexões não tenham despertado um interesse maior dos comentadores. Neste sentido, não é por acaso que o conceito de tradutibilidade tenha sido utilizado, com imaginação e inteligência, para encarar um estudo comparativo da difusão de Gramsci e de José Carlos Mariátegui. Refiro-me à comunicação apresentada por Robert Paris no colóquio de Culiacán (Sinaloa) sobre Mariátegui, em 1980, e publicada como "Mariátegui y Gramsci: prolegómenos a un estudio contrastado de la difusión del marxismo", Socialismo y Participación, n. 23, Lima, setembro de 1983, p. 31-54.
(5) Juan Carlos Portantiero. Los Usos de Gramsci. México, Folios Ediciones, 1981 (contudo, os textos incluídos no livro foram escritos num período de tempo que vai de 1975 a 1981); do mesmo autor, "Gramsci para latinoamericanos". In C. Buci-Glucksmann, J. C. Portantiero, G. Vacca, M. A. Macciocchi. Gramsci y la política. Org. por Carlos Sirvent, México, UNAM, 1980, p. 29-51.
(6) "Gramsci para latinoamericanos", cit., p. 36-7.
(7) Ibid., p. 37.
(8) Ibid., p. 41; no mesmo sentido e com ênfase idêntica ver em Los Usos de Gramsci, cit., todo o item n. 5: "Por qué Gramsci?"(p. 123-40 e 145-6).
(9) Florestan Fernandes. A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro, Zahar, 1975. O autor utiliza a expressão "contra-revolução prolongada" para designar o processo, pelo alto, de transformação capitalista da sociedade brasileira, segundo o modelo de revolução passiva descrito por Gramsci. O livro de Florestan Fernandes apresenta uma evidente inspiração gramsciana, ainda que seu nome seja mencionado apenas na bibliografia.
(10) Ver Alain Touraine. Las sociedades dependientes. Ensayos sobre América Latina. México, Siglo XXI, 1978, p. 81. A citação está no ensaio "Las clases sociales en una sociedad dependiente" (p. 81-100), motivado pelo debate que se travou no Seminário de Mérida, Yucatán, sobre as classes sociais e os problemas metodológicos que se apresentam à análise histórica e estrutural de sociedades "anômalas". As intervenções e discussões foram agrupadas num volume que ainda permanece como de imprescindível consulta: Las clases sociales en América Latina. Org. por Raúl Benítez Centeno. México, Siglo XXI, 1973.
(11)Foi o reconhecimento da existência desta distância entre "o acadêmico" e "o político" -- e a busca de caminhos para a sua superação -- que impulsionou o Instituto de Investigaciones Sociales da UNAM a organizar um seminário que reuniu cientistas sociais e dirigentes políticos da esquerda latino-americana. Elegeu-se como tema a categoria gramsciana da hegemonia, "cujas fortes conotações políticas não puderam ser esquecidas, na medida em que colocava no centro do debate a relação entre projeto de transformação e sujeito histórico transformador" (ver Hegemonia y alternativas en América, cit., p. 12; como já dissemos, este livro reúne as intervenções do Seminário realizado em 1980, em Morelia).
(12) A expressão "industrialização tardia e derradeira" pertence a Albert Hirschman (in Desarrollo y América Latina. Obstinación por la esperanza. Lecturas del Trimestre Económico 5, México, FCE, 1973, p. 96-8). É utilizada para diferenciar os países de industrialização "tardia" (Alemanha, Itália e Rússia) dos países que ingressaram mais tarde no processo industrializador, fazendo tal percurso com diferenças qualitativas importantes em relação aos padrões de acumulação. Uma delas, a restrita ou ausente produção de bens de capital. De toda forma, Hirschman chama a atenção para que não se exagere na diferença entre ambos os processos de industrialização (p. 97), e esta é uma recomendação que seria conveniente estender, ainda que contrario sensu, a toda unificação, um tanto descuidada, de um grupo de nações a partir de certas características comuns. Como lembra Portantiero, "cada uma das sociedades em consideração é definida não somente pelo tipo de relação entre Estado e economia [...] mas também, e sobretudo, pelo nível que define as relações entre Estado e massas [...]. Por isso, uma sociedade como a boliviana, cuja industrialização se inicia imediatamente após a segunda guerra, mas em que a força política do movimento sindical alcançou uma enorme influência, integra o referencial histórico destas notas. Ainda que não tenha a mesma magnitude econômica que o resto dos países em consideração, a densidade do sistema político boliviano e a influência que nele exerce o movimento operário, desde 1952, aproximam muito mais a Bolívia, no sentido que têm estas notas, da Argentina e do Chile, por exemplo, que dos países da América Central ou de outros países andinos" (Los Usos de Gramsci, cit., p. 172).
(13) Antonio Gramsci, "Un examen de la situación italiana", incluído em Escritos Políticos (1917-1933). Cuadernos de Pasado y Presente, n. 54, 2a ed. modificada, México, Siglo XXI, 1981, p. 286: "Nos estados periféricos típicos do grupo, como Itália, Polônia, Espanha e Portugal, as forças estatais são menos eficientes".
(14) J. C. Portantiero, Los Usos de Gramsci, cit., p. 127 s.