Mundo rural e política

Uma entrevista de Raimundo Santos
















"Revisteiro", como gosta de se chamar quando lhe indagam a quantidade de miniprojetos editoriais de que já participou, Raimundo Santos é um aficcionado pelas publicações mais antigas do pensamento social brasileiro, como Fundamentos, Cadernos do Nosso Tempo, a Revista Brasiliense, a Civililização Brasileira de Ênio da Silveira, a pecebista Estudos Sociais, as quais ele parece guardar como inspiração. Ele próprio foi membro da revista Presença no decênio 1983-93, e hoje é um dos editores da publicação acadêmica Estudos Sociedade e Agricultura, mantida pelo grupo de pesquisa "Integração das Pesquisas em Desenvolvimento, Agricultura, Sociedade e História Social", uma estrutura de cooperação interinstitucional formada por professores do CPDA/UFRRJ, do Laboratório Tempo Presente/IFCS e da UFF, que recebe apoio do Programa de Apoio a Grupos de Excelência (Pronex), do Ministério de Ciência e Tecnologia.
A vocação "revisteira" tem levado este professor da Universidade Rural do Rio de Janeiro a organizar várias coletâneas, entre as quais Questão agrária e política: autores pecebistas (Ed. Universidade Rural, 1996) e Reforma agrária e política, publicada pela Mauad em 1998. Autor dos livros O pecebismo inconcluso (ed. Universidade Rural, 1992; 1994) e Modernização e política (Forense Universitária, 1996), Raimundo Santos fala nesta entrevista da coletânea Mundo Rural e política. Ensaios interdisciplinares, da qual é um dos organizadores e que a editora Campus lançou no começo de março. Para ele, esse livro, composto por trabalhos de colegas do seu grupo de pesquisa, é como se fosse um "único texto" coletivo -- "menos concertado, convergente mais pelos seus resultados", tem o cuidado de esclarecer -- feito por historiadores, sociólogos, economistas, cientistas políticos e antropólogos, na linha de certa tradição intelectual, segundo ele, ainda hoje bastante sugestiva para os atuais estudos agrários brasileiros.

Por que a expressão "mundo rural" no título desta coletânea?

Polissêmico, o título alude ao nosso pensamento social, quer lembrando a ênfase antropológica da nossa sociologia agrária, quer evocando a noção de "totalidade" com a qual certo marxismo brasileiro produziu uma das melhores interpretações de Brasil. "Mundo rural" refere uma raiz que inspirou a composição do livro: a idéia da ultrapassagem da compartimentação das dimensões econômicas, sociológicas, culturais e políticas, tal como estimula o ensaísmo clássico -- numa ponta, como em um Gilberto Freyre, sugerindo intercomunicabilidades analíticas; noutra, em Caio Prado Jr., como na dissertação sobre o Brasil-Colônia, na qual ele exibe um retrato multifacético de uma formação social.

Mas o mundo rural descrito por esses autores não teria já mudado bastante?

Essa menção, inclusive relembrando a insistência do segundo deles na relação passado/presente, reforça a idéia de perspectiva, uma marca, aliás, dos estudos brasileiros realizados sob a chave da "formação" (formação do Brasil contemporâneo, formação da literatura, formação econômica, formação histórica). É certo que o mundo rural ainda é, para imensos contingentes de brasileiros, um lugar de grande "miserabilidade física e moral", também usando uma expressão caiopradiana, mas ao mesmo tempo há algum tempo a nossa agricultura já não é mais o locus das atividades mais atrasadas da economia. A convivência secular, mesmo contemporânea, entre o velho e o novo, conformando um sistema político elitista, sobretudo criando a cultura política clientelista, terminou garantindo uma sobrevida residual àquela simbiose. Mas hoje este mundo antigo está em franco declínio, cujo sentido é preciso valorizar. Em grande medida, tal crise vem sendo acentuada pela ação dos movimentos sociais e a maior presença dos partidos, sobretudo as igrejas, os quais foram estimulando, ao longo do tempo, outras relações e o aparecimento de novos valores e espaços públicos em lugares, antes, de grande atraso econômico e político. Esse movimento de complexificação e ressurgimento da política se ampliou consideravelmente com o impacto da mídia sobre o sistema de mando local, expondo-o à erosão. É interessante ver como já não se pôde condenar José Rainha à moda antiga. Ao mesmo tempo que a mídia deu dimensão nacional ao processo contra um líder agrarista, instalou em Pedro Canário (ES) uma conexão de tipo novo entre a opinião pública, a comunidade e as instituições locais. De curso difícil e custo social elevado, o moderno no campo, apesar de tudo, vem dando lugar a uma enorme diferenciação de grupos, atores e agências estatais e não-governamentais, diferenciação essa marcada por relações cada vez mais plurais, levando esses seres a viver comunicações e afirmações sociais novas, indicando existir ali um processo crescente de democratização que as cidades conheceram bem mais cedo.

Na coletânea Mundo rural e política o tema da cultura rural vem através da literatura, inclusive com a análise da chamada moda country, que ultimamente tem se revelado ao público como algo relevante, sobretudo após ter inspirado telenovelas de grande sucesso.

O CPDA, de onde provém a maioria dos membros do grupo de pesquisa que organizou Mundo Rural e política, já estimulou estudos no âmbito de uma historiografia voltada para nossa sociologia agrária, trabalhando autores como Gilberto Freyre, Caio Prado e José de Souza Martins, como também já tratou o tema do mal-estar que a modernização agrária imprimiu à existência humana, exemplar nos personagens "rurais" e "urbanos" criados por Graciliano Ramos. Com a missão acadêmica que atualmente Berthold Zilly desenvolve no CPDA, começa a surgir nesta instituição um núcleo de jovens pesquisadores interessados no estudo literário dos "grandes sertões brasileiros". Aliás, neste livro da Campus, o artigo de Eli de Fátima N. de Lima se ocupa da narrativa euclidiana sobre a Amazônia. O tema freyriano da intercambiabilidade rural-urbano aparece na coletânea em dois recortes: no da imagem do campo na cidade, como no texto de Silvana G. de Paula sobre a cultura/sociabilidade country; e no da imagem da cidade no rural, como nas hipóteses que Maria José Carneiro tece sobre o imaginário dos jovens rurais brasileiros. Esse tipo de esforço evoca a dissertação do sociólogo pernambucano sobre as possibilidades civilizatórias do que, se não já nos anos 40, pelo menos desde meados da década de 50, ele chamava de "rurbano". O grupo do Pronex do CPDA/IFCS/UFF também tem estimulado pesquisas sobre iconografia, como o projeto sobre as fazendas de café do Vale do Paraíba no século XIX, coordenado por Hector Alimonda, e o de Luiz Flávio C. Costa, de reconstituição de história regional no interior paulista, este último com um texto incluído na coletânea da editora Campus.

Como os integrantes do seu grupo de pesquisa interagem no trabalho interdisciplinar?
A melhor comunicação se dá nos projetos associados, com participantes de diversas formações, mas também flui nas discussões institucionais, nas publicações, sobremaneira nas de tipo coletivo. A própria diferenciação à volta de um único eixo, se, por um lado, estimula a autonomia e a criatividade, por outro, pressupõe diálogo interdisciplinar para medir seu valor. Mundo rural e política começa com uma seção chamada "Cultura política", na qual os seus autores-historiadores se voltam para as raízes agrárias do país, como Francisco Carlos T. Da Silva no ensaio sobre o papel da pecuária e seus conflitos na conformação do comportamento político dos grupos regionais; e Angela Mendes de Almeida em seu texto sobre a mentalidade da sociedade patriarcal agrária do século XIX, sublinhando a questão da desigualdade entre os sexos; ou as controvérsias agraristas, como tento fazer num informe de minha pesquisa que incluo na coletânea. A preocupação dos autores é reproblematizar alguns padrões de ação política, ainda influentes entre os atores mais ativos no mundo rural.

E os que trabalham com as questões econômicas e sociais?

Ao tema do conflito e das políticas públicas está reservada toda uma seção, na qual, digamos assim, os autores buscam questões novas em velhos temas, como a grande exploração agrária, o atual agribusiness brasileiro, entre nós já de grande sofisticação; um ser novo que se expande e diversifica, inclusive redesenhando o sentido da comercialização dos produtos agrícolas de maior valor agregado, como mostra o artigo de Ana Célia Castro. Ou como no caso de Roberto Moreira, cujo texto retoma a discussão sobre a renda da terra a partir do par renda da natureza/biodiversidade e expõe reflexões sobre a correlação agricultura familiar/sustentabilidade. Lá também está a reforma agrária, retornando (politicamente) do passado como tema emergente, agora como área reformada da agricultura. Este traço novo da histórica bandeira de luta decorre muito do protagonismo do MST que soube desenvolver, no lastro da redemocratização política dos anos 80, a sua dupla tarefa de publicizar o conflito e de se tornar uma via de sua institucionalização, inclusive produtiva, até mesmo convertendo o resultado último de seu movimento -- os assentamentos -- em locus de sociabilidade. A emergência desse processo, como se sabe, foi favorecida pela saída à superfície dos partidos de esquerda, especialmente o PT, convergindo com a Igreja. Processo estimulado inclusive pelas políticas públicas que deixaram a marca anterior de anti-reforma e não pararam de contribuir, às vezes mais, às vezes menos, com o processo de democratização do mundo rural. O artigo de Leonilde Medeiros e Sérgio Leite registra o "desempenho" dos assentamentos, não tanto em sentido "empresarial", como se cobra aos "novos produtores", mas levando em conta sua larga maturação e demora em conseguir sustentabilidade própria. Esse primeiro balanço mostra os "outros frutos", mais estratégicos, que essa espécie de "economia social" traz para suas comunidades e região, como na boa sugestão caiopradiana feita às vésperas de 1964.

Mais empregos na agricultura podem deter o ritmo das migrações do campo para a cidade?

A relação entre a população urbana e os habitantes do campo em três décadas mais do que se inverteu (segundo o IBGE, passando de 55% a 45%, em 1960, para 78,4% a 21,6 em 1996). Hoje a população economicamente ativa empregada nas atividades agrícolas já está em 22%. Mas isso não significa que o destino do campo brasileiro seja unicamente o da alta concentração das suas atividades econômicas, cada vez mais com sofisticados padrões tecnológicos, e que aí esteja a resposta eficiente e bastante que o conjunto da economia brasileira espera do campo. Como observou outro dia José Eli da Veiga, em artigo para o Estado de São Paulo, os EUA têm cifras muitíssimo menores, de apenas 2 ou 3%, e países da Europa, de 6%, mas concentram nas áreas rurais populações da ordem de 40% e 25%. Certamente, diz o professor da USP, por terem aqueles países praticado políticas territoriais eficientes, diversamente do Brasil, onde elas inexistem.
As pesquisas de José Graziano da Silva há algum tempo vêm chamando a atenção para o fato bastante significativo de que, para cada três pessoas que residiam em áreas rurais, já em 1990, duas estavam ocupadas em atividades agropecuárias e uma delas em outras atividades, como prestação de serviços, indústria de transformação e construção, o que significa que a pluriatividade já oferece possibilidade importante para os grupos rurais despossuídos. Há pouco, e sempre muito interessada no pequeno produtor, a Contag insistia, com base em estudos recentes, na importância da dinamização pluralizada que a agricultura familiar vem provocando em algumas economias regionais do país. O próprio governo se vê obrigado a rediscutir o formato de suas agências – quando, por exemplo, fala em juntar o Pronaf e o Incra, pensando, tudo indica, numa política de fortalecimento da área reformada, embora alguns setores dele voltem a pôr em dúvida o papel da desapropriação como via de constituição da pequena agricultura, tema que vem sendo sustentado pela urgência dos movimentos sociais, felizmente impedindo que ele saia da pauta pública.
Caio Prado Jr. falava nos anos 50 de uma reforma agrária não-camponesa que varresse todos os constrangimentos que a seu tempo pesavam, e ainda pesam, sobre os trabalhadores rurais, sobretudo os assentados nas grandes atividades econômicas, segundo ele, o contingente mais relevante. A rigor, Caio Prado Jr. falava de uma "renovação da economia agrária", concebida como peça-chave do projeto maior de "reestruturação da economia brasileira em bases verdadeiramente nacionais", para superarmos o que ele chamava de industrialização frágil, feita à base de ações motivadas por emergências vindas de fora, empíricas e quase sempre particularistas. Em lugar de uma revolução camponesa, o historiador paulista estava pensando num processo de valorização do trabalho -- que se interrompeu com a Abolição -- à Welfare State, capaz de constituir uma base segura na qual a nossa indústria, como no take-off do capitalismo americano, pudesse se complementar a partir de uma espécie de Ocidente agrário; lá, um mercado interno impulsionado pela economia farmer. Quanto mais os tempos são outros, mais acredito que a idéia caiopradiana facilita o consenso que já é hora de existir em torno da noção ampliada da reforma agrária ("não necessariamente agrícola", já disse José Graziano da Silva) e da maior abrangência das políticas públicas que não mais deveriam se definir pela exclusividade do agrícola. Lembrar o clássico só estimula os atores de hoje -- movimentos sociais e governo, partidos incluídos -- a se reconhecerem, a verem em si e no outro aspectos positivos, incompreensões, demandas e insuficiências. Se lá pelos anos 50 já se pensava em perspectiva e em medidas parciais de reforma agrária, inscritas num projeto nacional que lhes "conferia sentido", por que não levar adiante essa boa tradição?