Galileu e o Brasil

Luiz Sérgio Henriques
O Tempo,
Belo Horizonte, 7 abr. 1998, p. 8




           A primeira impressão que a política brasileira passa a um observador menos atento é a de que todos os jogos estão rigorosamente feitos. A reeleição de Fernando Henrique Cardoso assume ares de coroação, poucas vezes um bloco de poder foi tão poderoso em nossa história política, as oposições se mostram incapazes de qualquer alternativa.
           O Sol parece, em suma, girar definitivamente em torno de uma Terra imóvel, num cenário de conotações ptolomaicas. A coalizão de centro- direita estende-se do PPB ao PMDB, passando pelo PFL e o PSDB. Sem dúvida, se consolidado, este seria o maior partido do Ocidente enfim encontrado, fundindo os herdeiros de Arena e MDB em torno do ponto de equilíbrio representado pela figura insubstituível de FHC.
           E nesta altura, puxando o fio da meada, quem sabe poderíamos ir admitindo desde já uma nova recandidatura em 2002, como algo que decorre sem surpresa da própria natureza do processo. De resto, Menem e Fujimori anteciparam-se neste movimento, e ao parceiro brasileiro das reformas liberais caberia apenas extrair as conseqüências lógicas, como num silogismo. Aos enjoados de sempre, demagogos inveterados de quem o povo anda cheio, restaria o protesto irrazoável, o apelo anacrônico à estabilidade das regras do jogo, quando, neste momento exaltante de conformação da sociedade às exigências do "mercado", regras do jogo valem menos do que resultados do próprio jogo.
           "Eppure si muove", diria um Galileu tropical, meio "gauche", descobrindo tensões sob a aparência de placidez, desequilíbrios disfarçados sob a superfície amena. Começaria por observar que este grande consenso liberal-conservador tem sido muito eficiente no desmonte das estruturas tradicionais do Estado, mas infinitamente menos capaz de indicar -- positivamente -- a nova forma de Estado que defende. Nosso heterodoxo herói facilmente focaria o telescópio noutro fato indiscutível: o êxito do plano de combate à inflação se paga, cada vez mais, com a incapacidade de relançar o desenvolvimento de modo sustentado. Falha mortal num país cujo código genético impõe soluções desenvolvimentistas, a serem evidentemente reinventadas num novo contexto de redistrituição de rendas e de ênfase inequívoca nos temas da democracia política e da coesão social.
           Em decorrência destas e de outras falhas, até mesmo em parte significativa das elites econômicas se generaliza a idéia de que se conduziu o país a uma armadilha difícil de desmontar. Câmbio valorizado, juros para lá de escorchantes, dependência viciosa de capitais externos -- a sensação que se difunde é que bombas de efeito retardado já se armaram pelo caminho a percorrer. E, num momento em que se quer a política como expressão passiva da economia, destituída de qualquer ousadia e criatividade, uma tal perspectiva de petardos econômicos tende a sugerir ou mesmo impor, desde já, realinhamentos políticos não desprezíveis. Como a confirmar que, ao fim e ao cabo, nem mesmo os atores deste paquidérmico partido da ordem burguesa acreditam muito no mundo ptolomaico que ajudaram a criar.
           Anotem-se, por exemplo, alguns movimentos já visíveis a olho nu. A reaproximação entre Paulo Maluf e Antônio Carlos Magalhães tem o claro sentido de reagrupar a direita tradicional, simultaneamente aumentando-lhe o poder de condicionamento dentro da coalizão dominante e habilitando-a como eventual alternativa no caso de colapso desta mesma coalizão. Tudo dependeria -- e aqui nos expressamos apenas metaforicamente, é claro -- de os ratos saberem escapulir na hora certa, quem sabe articulando até mesmo uma argumentação "oposicionista". Uma questão de tempo, por certo, matéria em que pelo menos ACM já se mostrou mais de uma vez um mestre consumado, se descontarmos a obstinada adesão a Collor de Mello.
           Do centro peessebista e peemedebista vêm às vezes sinais de que uma parceria futura, de caráter mais exclusivo, seria uma boa saída para fugir de pressões indesejáveis. Dada a profunda convicção liberal que hoje assinala esta área, aparece como altamente improvável, no momento, qualquer aceno na direção de uma coalizão de centro-esquerda, capaz de reconstruir a política democrática como poder efetivo sobre os processos econômicos.
           Setores da esquerda têm se mostrado sensíveis a novas alternativas de aliança fora de seu campo estrito. Mesmo o PT, antes tão exclusivamente cuidadoso com a identidade partidária, tomado como estava pelo "espírito de cisão", dá sinais de maturidade. Mas ainda há muito a percorrer antes de consolidar-se, à esquerda, a consciência de que não basta olhar para o próprio umbigo e é preciso agir tendo em vista a possibilidade -- e a necessidade -- de incidir sobre as orientações do centro político, ajudando a desagregar o grande consenso liberal. Um movimento estratégico de largo alcance -- mas do qual precisa desesperadamente o país.