Bernstein, 100 anos depois

Bernardo Ricupero
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














Pode-se perguntar: qual é o sentido de discutir o Bernstein-Debatte, mais de cem anos depois da publicação dos polêmicos artigos do executor testamentário de Engels, posteriormente reunidos e modificados no livro Socialismo Evolucionário? Afinal, o mundo de hoje pouco tem em comum com o de um século atrás. Até porque, nesse ínterim, assistimos, entre outras coisas, à eclosão de duas guerras mundiais e à tentativa fracassada de edificação do socialismo. Assim, hoje praticamente não se discute a correção das previsões de Karl Marx e a adequação ou não do materialismo-histórico como método para explicar e transformar a realidade, temas da polêmica, até porque quase já não se discute mais o marxismo.
O próprio partido no qual se desenrolou a controvérsia sobre as teses de Eduard Bernstein, o Partido Social Democrata alemão (SPD), pouco tem em comum com o de cem anos atrás. O antigo partido-guia da II Internacional, que parecia destinado a conduzir o mundo para o socialismo, atualmente governa a Alemanha e não consegue conviver nem mesmo com tímidos defensores do Welfare State, como Oskar Lafontaine.
Mas, se é verdade que o SPD pode governar hoje a Alemanha, é porque houve o debate a respeito das teses de Bernstein há mais de cem anos. Como advertiu Rosa Luxemburg na polêmica, ao se esquecer do fim último, o socialismo, e ao se privilegiar o movimento, partidos originalmente operários passaram a pouco se diferenciar dos partidos burgueses. Ou seja, mesmo que Bernstein aparentemente tenha saído derrotado, suas posições foram as que prevaleceram ao longo do tempo.
Só por isso vale a pena revisitar o Bernstein-Debatte e os problemas em torno dele, como faz Antonio Roberto Bertelli em Marxismo e transformações capitalistas. Do Bernstein-Debatte à República de Weimar, 1899-1933 (São Paulo, Instituto de Projetos e Pesquisas Sociais e Tecnológicas e Instituto Astrojildo Pereira, 2000) . O livro é composto de três ensaios: “‘Crise do marxismo’ e transformações capitalistas”, “Reflexões sobre a social-democracia: Alemanha e Áustria” e “A singularidade do austromarxismo”. O primeiro trata principalmente do Bernstein-Debatte, o segundo, do debate sobre método nas ciências sociais e sua relação com o marxismo, o terceiro, do austromarxismo. Esses ensaios foram originalmente proferidos como conferências, o que faz com que se repitam um pouco e, principalmente no caso do primeiro, não aprofundem algumas das questões sugeridas.
Mas, apesar de tratarem de temas diferentes, há uma notável unidade entre eles, o que já é indicado no primeiro ensaio, com os outros dois, como o próprio autor admite, sendo praticamente um desenvolvimento daquele que dá título ao livro. Ou melhor, Bertelli demonstra que é a partir do Bernstein-Debatte que há uma renovação do pensamento marxista, que o afasta da ossificada ideologia oficial em que havia se convertido ao longo da II Internacional.
Diante da não confirmação das expectativas deterministas que o “marxismo ortodoxo” nutria, de colapso do capitalismo, Bernstein procurou realizar um aggionarmento do materialismo histórico, tanto nas suas teses como na sua metodologia. Mas pouco importa se as novas teses e aportes metodológicos de Bernstein estivessem corretos ou não. O mais importante de seu esforço é ter posto o dedo na ferida, indicando que o marxismo não pode ser entendido como um corpo monolítico que fornece certezas para seus seguidores. A partir desse questionamento básico, o materialismo-histórico pôde se arejar, buscando interlocutores fora de suas fronteiras, como fizeram os austromarxistas, que discutiram com gente do calibre de Hans Kelsen e Böhm-Bawerk.
Uma das sugestões mais interessantes de Marxismo e transformações capitalistas diz respeito justamente à relação do marxismo com outras teorias. Boa parte do impacto das polêmicas teses de Bernstein se deve precisamente a uma busca de diálogo com tradições intelectuais externas ao materialismo-histórico, o que era então pouco comum. Até porque, num contexto repressivo como o do Império Guilhermino, a doutrina oficial do SPD se insulou, dando a impressão de auto-suficiência.
Antes de Lyssenko e da URSS, o “marxismo ortodoxo” já acreditava em quimeras, como a idéia de ciência e arte proletária. Por outro lado, bons marxistas nunca deixaram de reconhecer que as maiores realizações da chamada cultura burguesa pertenciam ao patrimônio comum da humanidade. Indo ainda mais longe, Bernstein e os austromarxistas procuraram, por caminhos diferentes, responder ao debate sobre método e o retorno a Kant, que então se promovia nas ciências sociais e na filosofia não-marxistas. Esta sensibilidade especial para a produção não-marxista talvez se explique, em parte, pelo ambiente mais aberto que Bernstein encontrou na Inglaterra, país em que viveu exilado por um bom tempo, e que os austomarxistas também tinham no Império Habsburgo.
Utilizando argumentos externos aos de Bertelli, pode-se fazer o reparo de que a maior abertura do marxismo, que passou a existir a partir da I Guerra Mundial, teve como contraponto o desaparecimento de um tipo de intelectual bastante comum na época da II e III Internacional: o “intelectual revolucionário”. A substituição deles por meros acadêmicos talvez tenha contribuído para que o materialismo histórico perdesse muito de seu vigor. Como nota Perry Anderson, se, antes, o principal da cultura marxista se desenrolava em torno de partidos operários, estimulando preocupações relacionadas com a política e a economia, com o recuo do materialismo histórico para a universidade, como ocorreu com o chamado marxismo ocidental, questões de filosofia e estética ganharam premência.
Numa perspectiva oposta, é possível considerar que o pensamento não-marxista também se ressente da falta de contato com o materialismo histórico, já que, na ausência do enorme desafio representado por essa teoria, não se sente tão obrigado a elaborar uma explicação global da sociedade. Exemplo dessa situação é a Inglaterra, único dos mais importantes países europeus que não produziu uma sociologia clássica de peso. Ou alguém acredita que se pode comparar Herbert Spencer com Max Weber, Émile Durkheim e Vilfredo Pareto?
Por fim, talvez seja bom retornar à pergunta original da resenha, procurando saber qual é o sentido de uma iniciativa como a de Bertelli, de reconstruir os lineamentos principais do mais importante debate da II Internacional, ainda mais num país como o Brasil, cuja quase totalidade da tradição socialista é de matriz marxista-leninista. E isso, além do mais, num momento de refluxo do marxismo em nível mundial. O mérito maior de Bertelli está, contudo, justamente aí. Contra a corrente, ele indica a riqueza da tradição marxista que, ironicamente, numa situação em que o capital se espalha para todos os cantos do mundo, é mais atual do que nunca. Esperamos que haja quem o leia.

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Bernardo Ricupero é autor de Caio Prado Jr. e a nacionalização do marxismo no Brasil.
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