As idéias fora do lugar

Luiz Sérgio Henriques
O Tempo,
Belo Horizonte, 21 abr. 1998, p. 8




           No auge do stalinismo, a ação política e o universo das idéias viveram uma relação curiosa, que de alguma forma se tornou um dos paradigmas da má-fé neste século que ora termina. A ação staliniana estava voltada para a marcha forçada da modernização da URSS e, neste processo, usava a teoria como biombo de ocasião, numa atitude de aberta manipulação de textos e autores, forçados -- muitas vezes contra o espírito e a letra -- no sentido de justificar as escolhas táticas do momento.
           Caricaturando um pouco, a troca de um funcionário de partido podia consumar-se com citações das "leis da dialética", certamente para desespero "post-mortem" do velho Hegel. O infalível secretário-geral, quase sempre revestido das funções de ideólogo-mor, tinha a seu dispor uma filosofia da história de araque para explicar as vicissitudes -- os erros e os crimes -- no caminho da "construção do socialismo".
           Felizmente não mais existem as ditaduras de partido único. Este tema pode ser deixado sob o cuidado dos historiadores, os quais, decerto, ainda nos fornecerão explicações sobre a degradação do comunismo no poder até o ponto da irreformabilidade e o colapso. O que a conjuntura de hoje oferece, contudo, e não só no Brasil, é o estabelecimento de uma ditadura ainda pior: a ditadura do pensamento único, que acompanha o estabelecimento de uma ordem social absolutamente mercantilizada, à qual não faltam nem mesmo imensos "gulags" econômicos.
           Não por acaso, um novo curto-circuito entre ação política e mundo intelectual volta a instalar-se: e neste sentido, o caso brasileiro talvez seja particularmente significativo. Aqui, a dirigir o processo da revolução liberal está não apenas uma social-democracia com suas alianças à direita, fato que está longe de ser inédito, mas também um intelectual de prestígio e, ainda por cima, de passado esquerdista. Fernando Henrique, nesta ótica, é exemplo clássico e símbolo de um processo de transformismo, no sentido gramsciano: a assimilação, por parte das elites dominantes, de toda uma camada intelectual que, em algum ponto, esteve junto de classes e setores subalternos.
           É também nesta ótica que cabe analisar episódios como o da aula inaugural do presidente da República no curso de pós-graduação da Universidade Sarah. Diga-se desde já, nenhuma ocasião mais propícia para proposições substantivas, articuladas em torno da questão da saúde, sabidamente um serviço público em crise terminal. Mas o discurso forte, concreto, deste governo -- melhor ainda, o argumento característico de todo o ciclo inaugurado pelo governo Collor de Mello -- é de outra natureza. Estabilidade da moeda, desregulação dos mercados (inclusive o mercado de trabalho), desmonte das empresas e serviços públicos, eliminação dos obstáculos à concentração da riqueza privada -- eis onde reside todo o poder de convicção, toda a imensa força do programa dominante.
           O sociólogo francês Pierre Bourdieu, de resto, enfatiza corretamente este último ponto. O argumento liberal, que hoje rege a mundialização, tem a seu favor não apenas uma dimensão simbólica. Aquilo que o torna particularmente tão difícil de combater é o fato de se apoiar numa relação material de forças que ele próprio, por sua vez, contribui para moldar, orientando e determinando as escolhas dos tomadores de decisão, dos que dominam estas mesmas relações econômicas.
           Intelectuais como Fernando Henrique, egressos do marxismo ou de alguma forma por ele marcados, têm sempre a possibilidade de aderir ao argumento liberal puro e duro, transitando afinal de um determinismo econômico, em cujo contexto tantas vezes foi interpretado o pensamento de Marx, a outro. Podem assumir uma máxima do período thatcheriano que, de tão repisada, se tornou jargão e sigla (TINA): "There is no alternative". Podem adotar de vez -- e aí nos ocorre o exemplo do ministro Amadeo, ainda há pouco consultor do programa de governo do PT -- a linguagem e o estilo do "reino absoluto da flexibilidade" (Bourdieu), que marca a modernidade capitalista com seus contratos temporários e a perda generalizada dos direitos.
           Mas, por uma questão de temperamento mais sensível, os intelectuais ex-marxistas (ou marxistizantes) têm ainda outra possibilidade: reeditarem novo estilo a velha instrumentalização staliniana das idéias. A aula inaugural foi apenas mais uma das ocasiões em que o presidente-sociólogo se valeu de temas e personagens da "alta cultura" como o véu diáfano de fantasia a recobrir a nudez crua da verdade, como diria lá o velho Eça. Quanto a Hegel, ele já pode descansar em paz: agora é a hora de Weber balançar na tumba.