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No auge do stalinismo, a ação política e o universo das idéias viveram
uma relação curiosa, que de alguma forma se tornou um dos paradigmas
da má-fé neste século que ora termina. A ação staliniana estava voltada
para a marcha forçada da modernização da URSS e, neste processo, usava
a teoria como biombo de ocasião, numa atitude de aberta manipulação de
textos e autores, forçados -- muitas vezes contra o espírito e a letra --
no sentido de justificar as escolhas táticas do momento.
Caricaturando um pouco, a troca de um funcionário de partido podia
consumar-se com citações das "leis da dialética", certamente para desespero
"post-mortem" do velho Hegel. O infalível secretário-geral, quase sempre
revestido das funções de ideólogo-mor, tinha a seu dispor uma filosofia
da história de araque para explicar as vicissitudes -- os erros e os crimes
-- no caminho da "construção do socialismo".
Felizmente não mais existem as ditaduras de partido único. Este tema
pode ser deixado sob o cuidado dos historiadores, os quais, decerto,
ainda nos fornecerão explicações sobre a degradação do comunismo no
poder até o ponto da irreformabilidade e o colapso. O que a conjuntura
de hoje oferece, contudo, e não só no Brasil, é o estabelecimento de
uma ditadura ainda pior: a ditadura do pensamento único, que acompanha o
estabelecimento de uma ordem social absolutamente mercantilizada, à qual
não faltam nem mesmo imensos "gulags" econômicos.
Não por acaso, um novo curto-circuito entre ação política e mundo
intelectual volta a instalar-se: e neste sentido, o caso brasileiro
talvez seja particularmente significativo. Aqui, a dirigir o processo
da revolução liberal está não apenas uma social-democracia com suas
alianças à direita, fato que está longe de ser inédito, mas também um
intelectual de prestígio e, ainda por cima, de passado esquerdista.
Fernando Henrique, nesta ótica, é exemplo clássico e símbolo de um
processo de transformismo, no sentido gramsciano: a assimilação,
por parte das elites dominantes, de toda uma camada intelectual que, em
algum ponto, esteve junto de classes e setores subalternos.
É também nesta ótica que cabe analisar episódios como o da aula
inaugural do presidente da República no curso de pós-graduação da
Universidade Sarah. Diga-se desde já, nenhuma ocasião mais propícia
para proposições substantivas, articuladas em torno da questão da saúde,
sabidamente um serviço público em crise terminal. Mas o discurso forte,
concreto, deste governo -- melhor ainda, o argumento característico de
todo o ciclo inaugurado pelo governo Collor de Mello -- é de outra natureza.
Estabilidade da moeda, desregulação dos mercados (inclusive o mercado de
trabalho), desmonte das empresas e serviços públicos, eliminação dos
obstáculos à concentração da riqueza privada -- eis onde reside todo o
poder de convicção, toda a imensa força do programa dominante.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu, de resto, enfatiza corretamente
este último ponto. O argumento liberal, que hoje rege a mundialização,
tem a seu favor não apenas uma dimensão simbólica. Aquilo que o torna
particularmente tão difícil de combater é o fato de se apoiar numa
relação material de forças que ele próprio, por sua vez, contribui para
moldar, orientando e determinando as escolhas dos tomadores de decisão,
dos que dominam estas mesmas relações econômicas.
Intelectuais como Fernando Henrique, egressos do marxismo ou de
alguma forma por ele marcados, têm sempre a possibilidade de aderir ao
argumento liberal puro e duro, transitando afinal de um determinismo
econômico, em cujo contexto tantas vezes foi interpretado o pensamento
de Marx, a outro. Podem assumir uma máxima do período thatcheriano
que, de tão repisada, se tornou jargão e sigla (TINA): "There is no
alternative". Podem adotar de vez -- e aí nos ocorre o exemplo do
ministro Amadeo, ainda há pouco consultor do programa de governo do PT --
a linguagem e o estilo do "reino absoluto da flexibilidade" (Bourdieu),
que marca a modernidade capitalista com seus contratos temporários e a
perda generalizada dos direitos.
Mas, por uma questão de temperamento mais sensível, os intelectuais
ex-marxistas (ou marxistizantes) têm ainda outra possibilidade: reeditarem
novo estilo a velha instrumentalização staliniana das idéias. A aula
inaugural foi apenas mais uma das ocasiões em que o presidente-sociólogo
se valeu de temas e personagens da "alta cultura" como o véu diáfano de
fantasia a recobrir a nudez crua da verdade, como diria lá o velho Eça.
Quanto a Hegel, ele já pode descansar em paz: agora é a hora de Weber
balançar na tumba.
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