O "novo rumo" de Bresser Pereira

Gildo Marçal Brandão
Diário do Grande ABC,
São Paulo, 18 mar. 1999




Detestaria parecer cabotino, mas não posso deixar de assinalar que acertei na mosca quando, nessa coluna, na edição de 12 de fevereiro p.p., comentei o artigo em que o ministro Luiz Carlos Bresser Pereira desanca a Academia de Cinema de Hollywood e o festival de patriotadas e servilismo "primeiromundista" com que a elite, o povo e a mídia estão tratando a possibilidade de o nosso excelente Central do Brasil ser premiado, como uma velada manifestação de luta interna no governo, como um petardo contra a política econômica em vigor e, sobretudo, contra a postura colonizada dos titulares da área econômica federal.

Não é que o atual ministro da Ciência e Tecnologia assinou embaixo e resolveu voltar à carga, desta vez sem rebuços? Num belo artigo publicado também na sizuda página 3 da Folha de S. Paulo, na quarta-feira p.p., dia 17, Bresser Pereira ataca explicitamente a política até agora desenvolvida pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central, invectiva os economistas, empresários e organizações que há pouco a apoiavam, considera um "desplante" as propostas de dolarização da economia brasileira e defende a recente desvalorização do real como uma oportunidade histórica para mudar os rumos do governo e do país.

Segundo Bresser, é certo sim que "o governo demorou para promover a desvalorização". Havia no BC, diz ele, uma "decisão irracional e arrogante de 'defender o real' a qualquer custo. Demorou também porque essa posição foi apoiada (pelo menos até a crise da Rússia) pelas elites brasileiras e internacionais. No exterior, os economistas do FMI e do Banco Mundial afirmavam que bastava fazer o ajuste fiscal e o problema da valorização cambial seria resolvido (!); no Brasil, a maioria dos economistas e empresários, especialmente os do setor financeiro, repetiam essa tolice transformada em sabedoria convencional, ignorando que isso só poderia ocorrer à custa de uma recessão e uma deflação inaceitáveis. Outros acrescentavam que a desvalorização gradual resolveria o problema, ignorando o enorme custo em termos de taxa de juros que ela representava e subestimando sempre os riscos de uma possível crise internacional".

O alvo imediato dessa crítica demolidora não é tanto o ex-presidente do Banco Central, mas a concepção expressa exemplarmente em seu discurso de despedida e que continua a ser predominante nas hostes governamentais, segundo a qual a mudança cambial foi apenas um acidente de percurso numa política essencialmente virtuosa, que ao invés de ser abandonada precisa ser aprofundada e radicalizada. Ora, essa política, diz o ministro, fez o país perder reservas, tornou-o "dependente de empréstimos externos, a custos altíssimos, para financiar um déficit em conta corrente insustentável a médio prazo", bloqueou não só o "investimento produtivo" como também levou à depreciação das "empresas nacionais, reduzindo os seus preços em Bolsa, tornando-as alvo fácil de compra por investidores estrangeiros".

A crítica envolve, portanto, aspectos essenciais da estratégia governamental e, infere-se, da articulação política que dá sustentação ao governo. Implica, quem sabe, um giro de 180 graus, pois o "novo rumo" proposto consiste no reaprendizado do que "todas as nações desenvolvidas sabem há muito, mas uma certa ideologia financeira insiste em negar: o capital se faz em casa. O desenvolvimento é um desafio que só nós, brasileiros, poderemos resolver, usando nossa própria poupança".

Apesar do diagnóstico implacável da "crise crônica" desses vinte anos, Luiz Carlos Bresser Pereira é cuidadoso o suficiente para não insistir na quota de responsabilidade do presidente pela "terceira fase" da crise (de 1994 para cá) e para apresentar a decisão de desvalorizar o real como uma iniciativa de alguém que "se convenceu de que era preciso mudar o rumo da economia", quando muitas das declarações do próprio interessado deixam entrever que ele foi antes atropelado pelos fatos do que previdente. O ministro assume também as expectativas otimistas que prometem recessão de curto prazo e rápida recuperação do crescimento. Em ambos os casos está no seu papel, pois é hoje um político e não um intelectual bem pensante, que só tem compromisso consigo próprio.

Salvo engano, os artigos de Luiz Carlos Bresser Pereira constituem, até agora, a mais articulada crítica ao cosmopolitismo abstrato feita por um integrante do governo. O fato de ter decidido tornar pública sua dissensão pode ser um sinal de que a luta interna está atingindo um ponto crítico. Há tempos que a chamada corrente "produtivista" só colecionava derrotas, notavelmente enfraquecida desde a morte de Sérgio Mota, a defenestração dos irmãos Mendonça de Barros e o silêncio que, dizem, o presidente impôs a José Serra. A mudança da política cambial deu a essa corrente uma nova oportunidade histórica.

Para ganhar a batalha interna e dar um novo rumo ao governo e ao país não basta, entretanto, evitar a satelização da cabeça do presidente pela lógica sem fissuras dos economistas liberais. Sem a formulação de uma nova teoria e de uma nova estratégia desenvolvimentista, que não faça nenhuma concessão ao velho nacionalismo estatista, não haverá desenvolvimento -- pelo menos não haverá desenvolvimento em bases consistentemente democráticas. Além disso, é preciso reconstruir alianças, aglutinar forças dentro e fora do governo. Restringindo-se ao petit monde governamental e contando apenas com suas próprias forças, uma corrente como a que pertence o ministro Bresser Pereira será inevitavelmente batida.

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Gildo Marçal Brandão é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo.