Para pensar a crise

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
São Paulo, 25 mar. 1999





Já que o espectro da crise não parece destinado a nos abandonar e a todo momento volta ao palco com furor redobrado, contaminando o léxico corrente, vale a pena especular livremente sobre a questão. Na idéia de crise (do grego krinein: separar, romper), estão coladas as idéias de transformação súbita, perturbação, dificuldade, podendo-se insinuar também, com certa facilidade, a de morte, de fim. Na maior parte de seus inúmeros significados, "crise" associa-se a um turning point, no qual explicitar-se-ia uma situação de particular gravidade e se revelariam, como diriam os médicos, as chances de recuperação do paciente. Fala-se em crise econômica para assinalar uma fase de desemprego ou recessão. Em crise de consciência para demarcar uma inquietação causada por graves problemas éticos. O senso comum das pessoas registra a existência de crises sempre que se manifesta a ruptura de um padrão (pessoal, grupal ou coletivo) tido como "normal". A psicanálise muitas vezes associa crise a surto, a perturbação de um estado de relativo equilíbrio psíquico por força do descontrole de certas fantasias afetivas. Muitos sociólogos usam a palavra para qualificar situações afetadas pela quebra dos padrões tradicionais de organização social, pelo "esgarçamento do tecido social" que comprometeria a reprodução de uma dada "ordem".

Tão forte é a carga dramática do substantivo que quase nunca se chega a perceber que as crises também têm um quê de positividade e podem ser um momento de renascimento, no qual se entrelaçam passado, presente e futuro: um ponto inequivocamente "crítico", no qual faz-se sentir uma insatisfação em relação ao que está aí, estabelece-se uma distância em relação ao que já foi e prepara-se uma aposta para o que virá.

Embora não seja sinônimo de «morte», a idéia de crise sempre insinua que há algo morto na realidade. Quando se diz, por exemplo, que uma doutrina está em crise, não se quer necessariamente dizer que ela perdeu o sentido, mas sim que algumas de suas teses e elaborações chegaram aos dias de hoje privadas de maior poder de convencimento. Uma crise de governo não anuncia o fim do governo, mas sim que algumas de suas condutas e opções já não bastam para sustentá-lo. O problema é que nem tudo o que morre é enterrado. Como diria Gramsci, temos uma crise quando o "velho" insepulto já não dirige os vivos e o "novo" ainda não se explicitou, não se qualificando portanto para orientar o presente.

As teorias que explicam o mundo, quando despidas das carapaças dogmáticas que tendem a acompanhá-las, estão sempre em transformação. Deveria ser assim também com os projetos e as convicções das pessoas, dos governantes e das organizações. Não se transformar representa, no caso, perecer: perder a capacidade de continuar explicando uma realidade que não cessa de mudar. A chamada «consciência crítica» tem seu principal atributo justamente nesse ponto. É uma consciência sempre "em crise": desafiada a se negar a si própria para permanecer em condições de captar a realidade que muda ininterruptamente.

Disso se concluiria que não há por que temer a crise. Ela destrói, mas também cria a possibilidade de construção. Dissolve resistências dogmáticas e receosas ao novo. Abre espaços para experiências inéditas, altera a posição relativa dos interesses e das forças em luta. Em uma crise, vêm à tona as misérias e as grandezas humanas: agudizam-se desníveis e desigualdades sociais ao mesmo tempo que ganha destaque o talento dos autênticos líderes, daqueles que agem quando todos parecem desanimar e que conseguem extrair do confuso presente o eixo de um futuro melhor. Se os homens chamados a liderar não o fazem, não são líderes (ou só o são nominalmente), mas protagonistas subalternos, fadados a ser impiedosamente devorados pela crise.

A dimensão «virtuosa» de uma crise só pode ser bem aproveitada se, no organismo em questão, existirem iniciativas capacitadas para dirigir processos e ampliar as margens de controle e regulação do que é «espontâneo» e «natural». Em termos de sociedade, se houver perspectiva política, disposição para intervir e coordenar, apoio de massa e instituições preparadas para organizar o futuro.

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Marco Aurélio Nogueira, co-editor de *Gramsci e o Brasil*, é pesquisador da Fundap/SP e professor da Unesp.