Profissionais e cidadãos

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
5 maio 1999





Há entre nós uma discussão recorrente, que mesmo quando vem à tona de modo velado e contido inquieta estudantes, professores e pessoas envolvidas com educação, treinamento e programas de capacitação: devem as escolas e os seus cursos formar bons profissionais ou bons cidadãos?

Trata-se, claro, de um tema que, deixado como pura polarização excludente, não faz muito sentido. Afinal, não está dito que o bom profissional e o bom cidadão se dissociem ou não possam caminhar juntos. Ao contrário, tudo leva a que se conclua que o profissional só pode ser efetivamente «bom» (isto é, competente, equilibrado, eticamente consistente) se for um «bom cidadão», isto é, se souber colar à sua atividade a perspectiva do pertencimento a uma comunidade. Porém, dado que vivemos em uma época que tende a hipostasiar o mercado e a competição (e portanto a congelar o êxito profissional nele mesmo, cortando seus vínculos com a cidadania), vale a pena não desprezar a contraposição. E, com base nela, perguntar se não deveríamos nos esforçar mais para fazer com que a formação para a cidadania prevaleça sobre a profissionalização, especialmente quando desejamos encontrar um eixo capaz de estruturar o ensino e a escola.

O próprio modo de propor o tema, aliás, já provoca uma colisão com a época e a sua cultura. Em clima de «globalização» e de radicalização do mercado, do individualismo e do esvaziamento utópico, não há como impedir que a perspectiva e as instituições da política e da cidadania sejam desvalorizadas. Com isso, fica bem mais difícil conseguir que as pessoas saiam de sua rotina calculista e competitiva para abraçar preocupações mais afeitas à «paixão», aos valores e ideologias, ao futuro, às opções gerais e à responsabilidade para com os demais. É o que podemos chamar de «despolitização»: desinteresse em pensar os temas fundamentais da existência coletiva. As questões políticas tornam-se, assim, assunto de especialistas e de políticos profissionais. Com o que se alarga o hiato que separa os indivíduos dos problemas básicos da sua sociedade e do seu Estado. Os cidadãos tornam-se personagens que certamente sabem seus direitos mas minimizam suas obrigações, pondo-se contra o governar, o poder. o lutar (por idéias e por interesses), o participar, o viver coletivo.

Somos protagonistas de um mundo complexo, no qual as fronteiras do saber se modificaram muito. Não podemos nos contentar em dominar algumas técnicas e informações: precisamos ir além, ser capazes de pensar criticamente e assimilar recursos intelectuais abrangentes. Precisamos, também, aprender a trabalhar em termos prospectivos e de projetos de mundo. Não basta receber algumas pinceladas de razão instrumental ou adquirir «disciplina» para enfrentar o mercado. Devemos ser mais ambiciosos. Sabemos bem que a capacidade crítica de ver o mundo não se aprende na escola: nasce da vida e da práxis real. Na escola (em toda a escola, não só nos seus estágios mais avançados), porém, podemos acelerar e refinar esse processo, e isso desde que o ensino não seja reduzido a mero adestramento técnico para a competição profissional. Caso contrário, o aprendizado formal esvazia-se de sentido maior.

A politização não é a perspectiva do governo, nem dos profissionais da política: é a perspectiva dos interesses sociais e da comunidade política. Com ela, temos melhores condições de pensar a sociedade em que vivemos e de avaliar as chances que possuímos de construir um mundo melhor, com governos melhores inclusive, mas sobretudo com pessoas melhores. A perspectiva da política permite que se mantenha vivo na agenda o problema de saber quem somos, por que estamos juntos e que objetivos desejamos alcançar. Permite que sejamos capazes de analisar os interesses que devem prevalecer entre nós, o padrão de desenvolvimento e de justiça social em que queremos viver, as lutas a serem empreendidas para que se estabeleçam as bases da dominação e do consentimento.

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Marco Aurélio Nogueira, co-editor de *Gramsci e o Brasil*, é pesquisador da Fundap/SP e professor da Unesp.